Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Flávio Josefo é um historiador judeu do primeiro século, cuja biografia é interessantíssima; ele viveu entre os anos 37 e 100; sua obra mais conhecida e citada é Antiguidades Judaicas, composta em Roma por volta do ano 93. Ao falar do governo de Pôncio Pilatos na Judeia, dedica um importante parágrafo sobre Jesus Cristo. Alguns historiadores acreditam que o texto teria sido alterado em algumas de suas partes, segundo eles bem identificadas, por mãos cristãs; é possível, mas há também quem não acredite na interpolação. Os enxertos seriam as afirmações elogiosas a Jesus Cristo, como, por exemplo, a afirmação de que ele “era o Cristo”, que é, sem dúvida, uma profissão de fé cristã; ou ainda que ele ressuscitou ao terceiro dia, que é também parte do nosso credo cristão, como lemos, inclusive, na primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 15,4: “Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”. Por isso, há quem diga que essas afirmações sobre Jesus Cristo não poderiam ter sido escritas por um judeu, cuja fé não é, certamente, em Jesus.
O que está escrito em Josefo? Uma informação sobre Jesus. Este é um fato. Como historiador, ele pode ter relatado apenas o que se dizia então sobre Jesus, inclusive o conteúdo da fé cristã. Noutra parte de seu texto, Josefo descreve também a morte de Tiago, “irmão do chamado Jesus Cristo, e de alguns outros”, ocorrida no ano 62 (Ant. 20,220). Tiago dirigia a Igreja Mãe de Jerusalém, depois que Pedro deixou a cidade. Isso também é história. Desde o meu tempo de Seminário, acompanho os debates acirrados sobre proposta de reconstituição do texto de Flávio Josefo. Com isto, contudo, corre-se o risco de mutilar a informação histórica sem considerar que Josefo tenha tido conhecimento da fé cristã como era professada na Igreja de Roma, isto é, que Jesus era o Messias, o Filho de Deus.
A seguir, os textos famosos de Josefo, para você tirar suas próprias conclusões. Leia primeiro o denominado “TestimoniumFlavianum”; entre colchetes as partes que geram dúvidas nalgumas pessoas.
“Havia neste tempo Jesus, um homem sábio [se é lícito chamá-lo de homem, porque ele foi o autor de coisas admiráveis, um mestre tal que fazia os homens receberem a verdade com prazer]. Ele fez seguidores tanto entre os judeus como entre os gentios. [Ele era o Cristo.] E quando Pôncio Pilatos, seguindo a sugestão dos principais entre nós, condenou-o à cruz, os que o amaram no princípio não o esqueceram; [porque ele apareceu a eles vivo novamente no terceiro dia; como os divinos profetas tinham previsto estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele]. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, não está extinta até hoje.”
Outro texto famoso de Flávio Josefo é o relato sobre o assassinato de Tiago:
“E agora César, tendo ouvido sobre a morte de Festus, enviou Albinus à Judeia, como procurador. Mas o rei privou José do sumo sacerdócio, e outorgou a sucessão desta dignidade ao filho de Ananus[ou Ananias], que também se chamava Ananus. Agora as notícias dizem que este Ananus mais velho provou ser um homem afortunado; porque ele tinha cinco filhos que tinham todos atuado como sumo sacerdote de Deus, e que tinha ele mesmo tido esta dignidade por muito tempo antes, o que nunca tinha acontecido com nenhum outro dos nossos sumos sacerdotes. Mas este Ananus mais jovem, que, como já dissemos, assumiu o sumo sacerdócio, era um homem temperamental e muito insolente; ele era também da seita dos saduceus, que são muito rígidos ao julgar ofensores, mais do que todos os outros judeus, como já tínhamos dito, anteriormente; quando, portanto, Ananus supôs que tinha agora uma boa oportunidade: Festus estava morto, e Albinus estava viajando; assim ele reuniu o Sinédrio dos juízes, e trouxe diante dele o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros; e quando ele formalizou uma acusação contra eles como infratores da lei; ele os entregou para serem apedrejados; mas para aqueles que pareciam ser os mais equânimes entre os cidadãos, e igualmente mais precisos quanto as leis, eles não gostaram do que foi feito; eles também enviaram ao rei (Herodes Agripa II); pedindo que ele ordenasse a Ananus que não agisse assim novamente, porque isto que ele tinha feito não se justificava; alguns deles foram também ao encontro de Albinus, que estava na estrada retornando de Alexandria, e informaram a ele que era ilegal para Ananus reunir o sinédrio sem o seu consentimento. Albinus concordou com eles e escreveu iradamente a Ananus, e o ameaçou dizendo que ele seria punido pelo que havia feito; por causa disso, o rei Agripa tirou o sumo sacerdócio dele, quando ele o tinha exercido por apenas três meses, e fez Jesus, filho de Damneus, sumo sacerdote.”
Por fim, Josefo cita também João Batista, quando fala do reinado de Herodes Antipas:
“Mas para alguns judeus a destruição do exército de Herodes pareceu ser vingança divina e, certamente, uma justa vingança, pelo tratamento dado a João, de sobrenome Batista. Porque Herodes o tinha condenado à morte, mesmo ele tendo sido um homem bom e tendo exortado os judeus a levar uma vida correta, praticar a justiça para com o próximo e a viver, piamente, diante de Deus, e fazendo isto se batizar.[…] Quando outros também se juntaram à multidão em torno dele, pelo fato de que eles eram agitados ao máximo pelos seus sermões, Herodes ficou alarmado. Eloquência com tão grande efeito sobre os homens pode levar a alguma forma de sedição. Porque dava a impressão de que eles eram liderados por João em tudo que faziam. Herodes decidiu então que seria melhor atacar antes.[…] De qualquer forma João, por causa da suspeita de Herodes, foi trazido acorrentado à Maqueronte, a fortaleza de que falamos antes, e lá executado, contudo o veredito dos Judeus era de que a destruição que visitou o exército de Herodes era vingança de João, que Deus achou por bem infligir este castigo a Herodes.”
Exceto Josefo, nenhuma outra fonte judaica merece tanta atenção, pois as que geralmente são citadas são pouco ou em nada seguras, como a que aparece, por exemplo, no Talmud Babilônico, citado por diversos estudiosos. O que se pode dizer de todas essas informações é que elas não têm como base nenhuma ata ou registro do processo contra Jesus, mas das relações dos informantes com os cristãos em diversas partes. Para nós, ao contrário, os primeiros e mais importantes documentos, totalmente confiáveis, são os Evangelhos canônicos; eles nos são suficientes para sabermos o que é preciso sobre a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo. E, logicamente, os demais escritos do Novo Testamento. Para quem tem interesse na história, há bons livros nas livrarias que abordam esses testemunhos. Recomendo.
Por fim, não há dúvida de que a mais antiga e, portanto, também a mais segura das fontes para se conhecer Jesus são os Evangelhos canônicos. Isso não impede que se leiam alguns livros extrabíblicos dos primeiros séculos – especialmente os chamados evangelhos apócrifos, para entender como os primeiros cristãos viveram a devoção a Jesus. Porém, com a ressalva de que os textos apócrifos são todos tardios e nada acrescentam à vida de Jesus e, por conseguinte, não têm o mesmo valor para a história que os Evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Embora sejam interessantes e até belos, não podemos dar nenhum crédito histórico às narrativas da infância de Jesus nem aos seus supostos ensinamentos. São lendas piedosas conservadas pelas comunidades cristãs antigas do século quarto ou quinto. Entre todos esses escritos, um deles, o Evangelho de Tomé, tem encontrado respeito pelos especialistas, devido aos indícios de antiguidade e independências das fontes do Novo Testamento; alguns acreditam que tenha sido escrito por volta dos anos 140, mas é possível que algumas tradições sejam do tempo dos Evangelhos canônicos. É interessante sua leitura, mas nada acrescentam ao ensinamento de Jesus.
Além dos Evangelhos canônicos, os demais escritos do Novo Testamento não nos ajudam a traçar um perfil de Jesus. A intenção dos escritores desses textos, cartas sobretudo, é agora a relação entre o seguidor discípulo de Jesus Cristo com o próprio Jesus Cristo morto e ressuscitado, como o diz, por exemplo, São Paulo na segunda Carta aos coríntios: “Também se conhecemos Cristo segundo a carne, agora já não o conhecemos assim” (2Cor 5,16). O interesse, portanto, é outro. Destes documentos, pouco podemos extrair para traçar um perfil do Senhor, além destes dados: que ele é da estirpe de Davi (Rm 1,3), que nasceu de uma mulher (Gl 4,4), que viveu na Palestina com seus discípulos, sobretudo os Doze (1Cor 15,5). Do grupo dos Doze, Pedro e João são as colunas da comunidade de Jerusalém (Gl 2,9). São Paulo sabe da última ceia de Jesus com seus discípulos, na noite anterior à sua morte de cruz, e que foi uma ceia de despedida (1Cor 11,23-25); diz também com segurança que Jesus foi entregue pelos líderes dos judeus (1Ts 2,15). Com firmeza, afirma que Jesus morreu na cruz sob a autoridade dos romanos (1Cor 1,13.23; Gl 3,1.13), que foi sepultado e ressuscitou pelo poder de Deus, aparecendo aos discípulos e muitos irmãos (1Cor 15,3-7). É o que nos é dito sobre o “Jesus histórico”.




