Nota de Santarém em Defesa do Rio Tapajós

Barqueata de Resistência realizada quarta-feira (28) em Alter do Chão, território ameaçado pela dragagem e pela privatização do Rio Tapajós. Foto: Comunicação CITA
Barqueata de Resistência realizada quarta-feira (28) em Alter do Chão, território ameaçado pela dragagem e pela privatização do Rio Tapajós. Foto: Comunicação CITA

A Arquidiocese torna pública a presente Nota Pastoral, elaborada em comunhão com o Conselho Presbiteral e a Pastoral Socioambiental, na qual manifesta sua profunda preocupação diante do Decreto nº 12.600/2025, que trata da inclusão de empreendimentos hidroviários no Programa Nacional de Desestatização. O documento expressa o compromisso da Igreja com a defesa da vida, dos povos da Amazônia e da Casa Comum, especialmente no que se refere aos impactos socioambientais no Rio Tapajós.

 

Às Autoridades Públicas constituídas,

À Sociedade brasileira,

Aos Povos e Comunidades da Amazônia,

Aos Homens e Mulheres de boa vontade,

 

“Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom.” (Gênesis 1,31)

A Arquidiocese de Santarém, em comunhão com o Conselho Presbiteral e a Pastoral Socioambiental, vem a público manifestar sua profunda preocupação diante do Decreto nº 12.600, de 28 de agosto de 2025, assinado pelo Governo Federal, que dispõe sobre a inclusão de empreendimentos públicos federais do setor hidroviário no Programa Nacional de Desestatização (PND). Tal medida, entre outras pretensões, abre caminho para a privatização e a dragagem de rios da Amazônia, incluindo o Rio Tapajós, gerando graves preocupações quanto aos seus impactos socioambientais, culturais e espirituais.

Para nós, Igreja que vive e caminha neste território amazônico, o Rio Tapajós é dom de Deus e fonte de vida. Suas águas sustentam povos originários, comunidades ribeirinhas e populações urbanas. O rio é berço de biodiversidade, espaço de cultura, espiritualidade e convivência comunitária. É também fonte de sustento para inúmeras famílias que vivem da pesca, do extrativismo e do turismo sustentável, atividade que expressa a beleza singular deste território e contribui para uma economia que respeita a vida e a criação.

A degradação do Rio Tapajós representaria não apenas uma perda ambiental irreparável, mas também uma profunda ameaça aos modos de vida, às culturas e à dignidade dos povos que vivem em relação íntima com suas águas. O rio não pode ser reduzido a um objeto de exploração, pois ele é expressão viva da criação de Deus e parte essencial da Casa Comum.

À luz do Evangelho de Jesus Cristo e da espiritualidade cristã, reconhecemos que toda a criação é expressão do amor de Deus e foi confiada à responsabilidade humana (cf. Gn 2,15). O Papa Francisco nos recorda que “tudo está interligado” (Laudato Si’, n. 91), e que o cuidado com a natureza é inseparável do cuidado com os pobres e com o futuro da humanidade.

Como Igreja presente nas comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e indígenas, reafirmamos nosso compromisso com a vida, com a justiça socioambiental e com a defesa da Casa Comum. Manifestamos nossa solidariedade aos povos e organizações que se mobilizam em defesa do Rio Tapajós e apelamos às autoridades públicas que assegurem o respeito à vida, aos territórios e ao equilíbrio da criação.

Inspirados por Jesus Cristo, que veio para que todos tenham vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10), reafirmamos que o cuidado com o Rio Tapajós é parte de nossa missão como discípulos e discípulas do Senhor. Cuidar do rio é cuidar do povo. Defender o rio é defender a vida.

Esta Nota Pastoral é publicada nesta data, quando a Igreja faz memória do martírio da Irmã Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 por sua luta em defesa da Amazônia, do meio ambiente e dos povos da floresta. Seu testemunho continua sendo luz e inspiração para todos os que assumem o compromisso com a vida, com a justiça e com o cuidado da Casa Comum.

Que o Deus da vida ilumine as consciências, fortaleça os que lutam pela justiça e sustente a esperança de nossos povos.

Santarém, 12 de fevereiro de 2026.

Em comunhão com a vida e a Casa Comum,

 

Fonte: Arquidiocese de Santarém

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