Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém
Caríssimos leitores, para este nosso encontro semanal vamos refletir sobre nossa caminhada quaresmal em conexão com a Campanha da Fraternidade 2026. Iremos percorrer as indicações do título deste artigo. E para esta partilha, conto com a colaboração do missionário Xaveriano, padre René Casillas Barba, SX.
No itinerário quaresmal da Campanha da Fraternidade 2026, o primeiro passo – VER– nos convida a aprofundar o olhar sobre uma realidade que, embora cotidiana, muitas vezes passa despercebida: a crise da moradia no Brasil. A Campanha, com o tema “Fraternidade e moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), apresenta o mistério da Encarnação com o compromisso cristão de reconhecer e enfrentar as estruturas sociais que negam dignidade e lar às pessoas.
Ver, na perspectiva quaresmal cristã, não é um olhar superficial; é um olhar compassivo e confrontador, que nos desafia a reconhecer o sofrimento e as desigualdades que marcam a vida de milhões de pessoas.
No Brasil, cerca de 6 milhões de famílias vivem sem moradia adequada, enfrentando situações de precariedade, aluguel social insustentável ou habitações sem condições mínimas de infraestrutura. A essas, somam-se dezenas de milhões que vivem em residências inadequadas sem acesso a serviços públicos essenciais, em áreas de risco ou segregadas, socialmente, e mais de trezentas mil pessoas em situação de rua.
Essa realidade não é apenas um dado estatístico: é um grito humano, um clamor por dignidade que ecoa no coração das comunidades e interpela a fé cristã. Ao olhar para essa exclusão, a Campanha nos lembra que a moradia digna não é luxo, mas direito fundamental e expressão concreta da fraternidade que o Evangelho nos chama a viver. Cada família sem lar representa a face de Cristo que nos desafia a não desviar o olhar.
O lema da CF 2026, “Ele veio morar entre nós”, ilumina, teologicamente, essa reflexão. Deus, feito carne e morada entre nós em Jesus Cristo, revela a importância do encontro com o outro e da proximidade com a realidade humana. A Encarnação é o sinal definitivo de que Deus se identifica com aqueles que mais carecem de acolhimento, lembrando-nos que a fé não é abstrata, mas encarnada em compromisso e solidariedade.
Ver a realidade da moradia implica escuta e discernimento. Implica reconhecer as causas profundas das exclusões econômicas, políticas e culturais que dificultam o acesso à moradia digna. Convida também a reconhecer que a fé cristã exige responsabilidade social, participação cidadã e empenho comunitário para a construção de espaços públicos e políticas que garantam teto, inclusão e justiça.
Neste 3º Domingo da Quaresma, a Campanha da Fraternidade nos lembra que o primeiro passo da conversão é um olhar que não evita a realidade nem se contenta com meias verdades. Ver é reconhecer o grito dos empobrecidos, ouvir a Palavra que ilumina nossa consciência e permitir que esse encontro transforme nossa vida e oriente nossas ações. Só assim poderemos avançar para os próximos passos do método: iluminar à luz da fé e agir com coragem, construindo uma sociedade mais fraterna e justa, onde o direito à moradia seja garantido para todos.
O texto do Evangelho de João (4,5-42), da liturgia deste dia, narra o encontro de Cristo com a samaritana no poço. Ao falar da “água viva”, Jesus aponta para uma vida plena, lembrando também a importância de condições dignas como acesso à água e à moradia. O testemunho da samaritana leva sua comunidade a acolher Jesus, revelando a casa como espaço de convivência e partilha.
Assim, o Evangelho convida a promover fraternidade, superar preconceitos e trabalhar para que todos tenham vida digna e um lugar para viver com respeito e acolhimento.
Peçamos ao Senhor a graça da conversão do coração para não desviarmos nosso olhar e compromisso social frente ao clamor do irmão sofrido, que está na calçada, no bairro…E isso pedimos através do trecho final da CF 2026:“Nós vos suplicamos: dai-nos a graça da conversão, para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho para todas as pessoas, a fim de, um dia, habitarmos, convosco, a casa do Céu. Amém”.




