O nascimento de Jesus em Belém de Judá

Nascimento de Jesus – Evangelho de São Lucas – “...envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na sala” (Lc 2,1-6).
Nascimento de Jesus – Evangelho de São Lucas – “…envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na sala” (Lc 2,1-6).

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

O nascimento de Jesus Cristo é narrado nos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas. Em São Mateus, de modo muito sóbrio, sem muitos detalhes, dizendo apenas que Maria deu à luz um filho, ao qual José “chamou com o nome de Jesus” (Mt 1,25). Em São Lucas, o relato é mais elaborado e com alguns pormenores; ele diz que “naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro enquanto Quirino era governador da Síria. E todos iam se alistar, cada um na própria cidade. Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, para a Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, desposada com ele, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na sala” (Lc 2,1-6).

 

Observe que São Lucas, como um historiador, procura estabelecer com precisão a data e o lugar do nascimento de Jesus, indicando três elementos da história: o decreto do imperador Augusto; o governo de Quirino, na Síria, e o tempo do rei Herodes, cognominado o Grande. Herodes morreu no ano 750 da fundação de Roma. Jesus nasceu, então, antes dessa data. Ou seja, Jesus não nasceu sob o governo de um rei judeu, mas sob um império de nível mundial, que pensa controlar e dominar o mundo inteiro; o censo referido por São Lucas é para dizer que Jesus nasce seguindo, e não destruindo, os mecanismos da história; e o nascimento de Jesus não é em um palácio, ainda que seja rei, mas num estábulo, acolhido por pessoas simples, os pastores.

Nascimento de Jesus – Evangelho de S. Mateus: “...e continua dizendo que uns magos, vindos do Oriente, chegaram a Jerusalém perguntando onde havia nascido o “rei dos judeus”...(Mt 2,1; cf. Lc 2,1-7).
Nascimento de Jesus – Evangelho de S. Mateus: “…e continua dizendo que uns magos, vindos do Oriente, chegaram a Jerusalém perguntando onde havia nascido o “rei dos judeus”…(Mt 2,1; cf. Lc 2,1-7).

Portanto, tanto Mateus quanto Lucas citam expressa e claramente Belém como o lugar do nascimento de Jesus. São Mateus diz: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes”, e continua dizendo que uns magos, vindos do Oriente, chegaram a Jerusalém perguntando onde havia nascido o “rei dos judeus”, causando grande alvoroço na cidade, sobretudo no rei Herodes. (Mt 2,1; cf. Lc 2,1-7)). Herodes, evidentemente, por ser rei ilegítimo, não sabia onde deveria nascer o Messias; perguntou, então, aos seus sacerdotes, que lhe dizem de onde viria o verdadeiro rei davídico, e indicam a profecia de Miquéias (5,2) para embasar a informação. Os magos vindos do Oriente são guiados, em sua jornada, por uma estrela que remete à profecia de Balaão (Nm 24,17). Assim, não resta dúvida quanto ao local do nascimento de Jesus: Belém.

Belém está situada a 8 km ao sul de Jerusalém. Etimologicamente, Belém significa “casa do pão”, embora os guias turísticos locais ensinem que o significado é “casa da carne”, o que dá na mesma. Esta é a cidade de Davi, que nasceu e foi ungido rei em Belém, pelo profeta Samuel. Depois da morte de Davi, a mais importante menção desse vilarejo é a profecia de Miquéias, que diz o seguinte: “E tu, Belém-Éfrata, pequena entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que governará Israel” (Mq 5,1). Hoje, faz-se o trajeto Nazaré a Belém percorrendo uns 150 km de rodovia. A jornada de Maria e José deve ter durado três ou quatro dias, devido às condições dos antigos caminhos.

 

Em Belém, Jesus não nasceu numa casa, mas em um lugar à parte. Uma antiquíssima tradição, citada por São Justino na sua obra “Diálogo com Trifão”, identifica uma gruta, de grande veneração, como o local do nascimento do Salvador. Ele conta que em Belém se mostrava a gruta onde nascera Jesus, e a manjedoura, onde ele fora posto envolvido em faixas. A mesma identificação é feita por Orígenes de Alexandria, na obra “Contra
Celso”, afirmando que a gruta já era de grande veneração de todos os cristãos, no século terceiro. No tempo do imperador Adriano, no ano 135, a gruta sagrada foi profanada com o culto de Adonis, uma tentativa de apagar a veneração dos cristãos. O que deveria ser um mal, foi, na verdade, um modo providencial de demarcar o lugar exato do nascimento do Senhor. No reinado de Constantino, no século 4º, foi edificado o Santuário da Natividade, local de peregrinações constantes e numerosas na Terra Santa até os dias de hoje.

 

O relato do nascimento de Jesus feito por São Lucas (Lc 2,7-19) é rico de detalhes. Algumas expressões chamam a atenção do fiel leitor. Por exemplo, o uso do termo “primogênito”; alguns irmãos, em querela contra a virgindade perpétua de Maria, teimam em dizer que Jesus, por ser o primogênito, seria o primeiro filho de Maria, entre outros que viriam depois. Compreensão falsa e leitura torta do texto, pois o que está em destaque é, simplesmente, que Jesus desfruta dos privilégios e direitos próprios de um primogênito. Outro detalhe é a aparição dos anjos no campo dos pastores, uma localidade muito visitada, próxima de Belém. O cântico dos anjos, do coro celestial, proclamando a paz de Deus entre os homens que o acolhem. São elementos bonitos que devemos sempre ter no coração. 

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