Existe uma criança que não tem nome nas estatísticas. Tem rosto, tem mãos pequenas, tem uma história que começa antes mesmo de saber o que é fronteira. Ela foi retirada de casa, ou a casa foi retirada dela. E está, agora, em algum ponto entre o que foi e o que ainda não é. Migrante. Refugiada. Invisível para muitos. Indispensável para a consciência de todos.
Foi pensando nessa criança que o Papa Leão XIV escolheu o tema do ‘112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado’, a ser celebrado no dia 27 de setembro de 2026. “Mesmo uma só destas crianças”, a frase é uma referência direta ao Evangelho de São Mateus “Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe” (Mt 18, 5). O anúncio foi feito pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, nesta quinta-feira, 9 de abril. A escolha não é casual. É um chamado. E tem urgência.
O Dia Mundial do Migrante e do Refugiado não é uma criação recente. Ele existe desde 1914, quando o Papa Pio X instituiu a data como forma de a Igreja Católica expressar sua solicitude para com aqueles que cruzam fronteiras em busca de segurança, trabalho e dignidade. Mais de 110 anos depois, a data segue mais relevante do que nunca e, infelizmente, mais necessária.
Ao longo de mais de um século, os papas têm utilizado essa jornada para pronunciar-se sobre uma das questões mais urgentes da humanidade. Não como gesto simbólico, mas como posicionamento moral. A mensagem de cada edição é sempre uma bússola: aponta para onde o mundo precisa olhar quando se esquece de olhar para o outro.
Os dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados-ACNUR, revelam que, até junho de 2025, mais de 117,3 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas a deixar suas casas, o equivalente a mais de 1 em cada 70 pessoas no planeta. O Sudão, sozinho, concentra 13,4 milhões de deslocados. Nas Américas, são 21,9 milhões de pessoas em situação de deslocamento forçado, cerca de 17,6% do total mundial.
No Brasil, ao final de 2024, havia 156.612 pessoas reconhecidas como refugiadas, um aumento de 9,5% em relação ao ano anterior. Entre os que bateram às portas do país na última década, vieram de 175 países diferentes. Venezuelanos, cubanos, haitianos e angolanos somaram mais de 82% das solicitações de asilo desde 2015.
Segundo dados do UNICEF publicados em 2025, quase 50 milhões de crianças estavam deslocadas no mundo ao final de 2024, sendo 19,1 milhões de crianças refugiadas ou solicitantes de asilo. Entre 2010 e 2024, o número de crianças deslocadas quase triplicou, passando de 17 milhões para 48,8 milhões. Entre 2018 e 2024, mais de 2,3 milhões de crianças nasceram como refugiadas, cerca de 337 mil por ano. Crianças que abrem os olhos para o mundo já sem ter um lugar certo no mundo.
Embora as crianças representem menos de um terço da população global, elas constituem 40% da população refugiada. Dois em cada cinco refugiados no mundo têm menos de 18 anos.
É exatamente essa desumanização pelos números que o Papa Leão XIV quer combater com o tema escolhido para 2026. O comunicado do Vaticano é direto, “Não se trata de discutir números ou percentagens, porque ‘mesmo uma só’ delas tem um valor imenso”.
Essa frase carrega uma teologia inteira. Ela diz que a crise migratória não pode ser reduzida a gráficos e relatórios, por mais necessários que eles sejam. Diz que basta uma criança para que a pergunta seja legítima, o que estamos fazendo por ela?
O Pontífice reconhece que não é a primeira vez que os papas tratam desse tema. Mas reconhece também que o cenário atual impõe desafios novos, novos vetores de expulsão, novas rotas de perigo, novas formas de invisibilidade. Crianças que cruzam fronteiras sozinhas. Crianças que sobrevivem em campos sem escolas, sem futuro delineado. Crianças que crescem carregando o peso de não pertencer a nenhum lugar.
Para a Igreja, a questão migratória nunca foi apenas política. É uma questão de fé. Acolher o migrante é acolher Cristo, esse é o ensinamento que o Papa Leão XIV reitera ao escolher Mateus 18,5 como âncora da mensagem deste ano.
A ideia de que em cada rosto deslocado há uma presença sagrada não é retórica piedosa. É o fundamento de uma ética de hospitalidade que contrasta, profundamente, com o endurecimento das fronteiras, os muros físicos e legais erguidos ao redor do mundo, e a narrativa que trata migrantes e refugiados como ameaça em vez de humanidade.
O Dia Mundial do Migrante e do Refugiado é, sobretudo, um convite à conversão do olhar. A ver, onde a estatística apaga, uma criança específica, com nome, com medo, com esperança.
A resposta à crise migratória não é simples, mas começa com escolhas. Escolha de acolher em vez de expulsar. Escolha de criar políticas públicas que garantam dignidade, não apenas controle. Escolha de financiar organizações como o ACNUR e o UNICEF que trabalham na proteção de crianças deslocadas. Escolha de educar comunidades para que o outro não seja visto como ameaça, mas como irmão.
No Brasil, onde venezuelanos fogem da crise econômica, onde haitianos sobrevivem ao colapso de um Estado, onde tantos chegam carregando apenas a esperança, a mensagem do Papa tem endereço.
A celebração do 27 de setembro não é apenas um marco no calendário litúrgico. É um espelho colocado diante da humanidade. E nele, se olharmos com honestidade, veremos o rosto de uma criança que ainda aguarda nossa resposta.
Fonte: Regional Norte 2 / PorVívianMarler(Fontes: Vatican News; Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral; ACNUR Brasil; UNICEF Data — ChildDisplacementandRefugees (2025)




