Monsenhor Ronaldo Menezes –Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Não pretendo responder se é possível fazer uma biografia de Jesus de Nazaré, mas me interesso em apresentar o percurso que podemos acompanhar da vida de Jesus a partir dos Evangelhos, os primeiros e mais confiáveis documentos sobre o Senhor. Conhecê-lo é mais do que necessário para todos nós que o seguimos na fé e nos dizemos seus discípulos. Por onde começar, então?
Imagino que um bom começo é a leitura atenta dos chamados Evangelhos da Infância, os dois primeiros capítulos dos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas. Por esses belíssimos relatos, sabemos um pouco da origem e infância do Salvador. Este começo fica mais ou menos assim, num esquema que talvez vá além da forma de um simples artigo:
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Nascimento provavelmente no ano 6 antes da nossa era, isto é, ano 6 antes de Cristo. Sim, Jesus nasceu antes da data oficial do seu nascimento, devido a um erro cometido por um monge que fez a contagem errada. O dado histórico para esse cômputo é a morte do rei Herodes, que se deu no ano 750 da fundação de Roma. E Jesus nasceu quando Herodes ainda estava vivo, portanto, antes do ano 750 da fundação da cidade eterna.
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Antes do nascimento de Jesus, temos a anunciação e o nascimento de João Batista. O anúncio deste nascimento deu-se no templo de Jerusalém a Zacarias, que era sacerdote e exercia a função no seu turno. Zacarias e Isabel moravam fora de Jerusalém, numa localidade que se chama hoje de AinKarim, distante uns 6 km da cidade santa. Esse é o lugar da visitação da Virgem Maria à Isabel e do nascimento de João.
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Aos seis meses da gestação de Isabel, o Anjo Gabriel é enviado por Deus a Nazaré, para cumprir sua mais importante missão, o anúncio da encarnação do Filho de Deus, no seio da Virgem Maria. O modo da concepção é um ato de Deus. Maria é virgem e assim permanecerá para sempre. Maria estava na primeira fase do casamento judaico com José, a quem fora prometida. Em nenhum texto da Bíblia Hebraica encontramos menção à cidade de Nazaré.
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Grávida do Verbo de Deus, por obra do Espírito Santo, Maria empreende visita à sua prima Isabel. Isabel está com seis meses de grávida e Maria, ao que tudo indica, no início da gestação. Maria permanece com Isabel em AinKarim até o nascimento de João, isto é, três meses na casa de sua parenta.
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O anúncio do Anjo do Senhor a José da gestação inusitada de Maria e da ordem de recebê-la como esposa deve ter acontecido, ao que tudo indica, no retorno de Maria da casa de Isabel. Depois do sonho com o Anjo do Senhor, José decide assumir a paternidade legal de Jesus, e leva Maria para sua casa.
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Próximo ao parto, seis meses depois de José ter levado Maria para sua casa, os dois se dirigem para Belém. José irá cumprir a obrigação de se inscrever nessa cidade, por força do edito do imperador Augusto, por ser da família de Davi (Lc 2,1-5).
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Jesus nasce em Belém, em cumprimento à profecia de Miquéias.
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Os pastores são avisados do nascimento de Jesus, em Belém, e partem para o adorar.
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Oito dias após o seu nascimento, Jesus é circuncidado e recebe o nome anunciado pelo Anjo. Aos quarenta dias do seu nascimento, Jesus é apresentado ao templo – e se dá o encontro com Simeão e Ana.
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A adoração dos magos vindos do Oriente, a fuga para o Egito e a matança das crianças inocentes em Belém e redondezas.
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Regresso da família sagrada do Egito para a terra de Israel, Jesus ainda muito criança. A família sagrada deve ter ficado no Egito em torno de um ano. Por orientação de Deus, José toma o rumo de Nazaré, onde estabelece residência.
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O único episódio da vida de adolescente de Jesus se dá no templo de Jerusalém, quando ele é encontrado entre os doutores da lei (Lc 2,41-50). Da sua vida oculta, nada mais sabemos. Não há nenhum registro.
A leitura atenta e repetida quantas vezes pudermos nos oferece um farto e imprescindível material para reflexão e estudo, para meditação constante. Além dos estudos bíblicos, a infância de Jesus tem sido retratada por importantes pintores de todas as escolas. Hector Berlioz compôs um oratório belíssimo, “A Infância de Cristo”, que narra de forma lírica o sonho de Herodes, a fuga da sagrada família para o Egito e a chegada a Saís. Aconselho ouvir ao menos essa peça, que, penso, valerá muito a pena.

