Encontro de Cura e Libertação no Xingu

Evento promovido pela Renovação Carismática Católica

O cansaço acumulado de anos de serviço. O peso silencioso de quem continua caminhando mesmo quando as forças já não respondem com o mesmo ardor do início. Foi exatamente para esse lugar, real, humano e muitas vezes solitário, que o ‘Encontro de Cura e Libertação’ realizado pela Diocese do Xingu-Altamira, quis chegar neste final de semana (11 e 12), em Altamira, no coração do Pará.

O evento, promovido pela Renovação Carismática Católica da diocese, reuniu servos de diferentes cidades da região com um objetivo claro, reabastecer. Não apenas espiritualmente, mas em unidade, em identidade, em missão.

Quem assessorou o encontro foi Tony Sá, coordenador do Ministério de Cura e Libertação no Pará, que há anos presta assessoria às dioceses do Estado. E o ponto de partida, ele contou, foi uma observação honesta sobre a realidade que encontrou. “A gente observou que muitos servos estavam com cansaço, com exaustão, e alguns tinham meio que paralisado. Estavam desanimados. Precisavam realmente serem reanimados na fé e na caminhada”.

Não se tratava de fraqueza. Era o retrato fiel de quem doa, serve e sustenta, sem que alguém pergunte como vai. E Tony Sá reconhece que esse descuido tem um custo alto, “se a gente não se reabastecer, esse peso pode levar até à desistência da caminhada”. Alguns, ele conta, já haviam desistido. Não da fé, mas do fervor que os havia movido desde o início.

O encontro foi estruturado sobre um pilar essencial, a comunhão. A consciência de que ninguém caminha sozinho. De que a missão não é tarefa individual, mas obra do corpo. “Nós trabalhamos a consciência de que ninguém caminha sozinho”, explica Tony. “Nossa missão se fortalece quando o grupo caminha em um só espírito, unido”.

Para isso, foram vividas dinâmicas voltadas à unidade, momentos que, segundo ele, se tornaram profundos e transformadores. Houve reconciliações. Corações que chegaram fechados foram desarmados. E as dificuldades de relacionamento, que tantas vezes funcionam como obstáculos à missão, foram ressignificadas, não como barreiras, mas como oportunidades de cura.

Em meio às dinâmicas de grupo, o encontro abriu espaço para algo ainda mais íntimo, a cura interior. Num momento de oração profunda, os presentes foram convidados a pedir que o Espírito Santo visitasse as memórias dolorosas, aquelas que ficam presas na infância, nas traições, nas feridas que nunca foram nomeadas. “Nós pedimos que o Senhor fosse curando tudo aquilo que travava o nosso caminhar, o nosso relacionamento, as coisas negativas que vivemos desde a infância”, conta Tony. “O Senhor nos libertou de muitas coisas negativas.”

Um dos momentos de reflexão mais marcantes do encontro foi a meditação sobre a vida do profeta Jeremias. Perseguido, humilhado, jogado literalmente na lama por aqueles que deviam estar ao seu lado, Jeremias é, paradoxalmente, um símbolo de resistência e fidelidade.

A mensagem que Tony Sá trouxe a partir dessa figura bíblica foi direta. “O sofrimento não é uma exigência do serviço, mas é uma realidade da vida de qualquer pessoa. O diferencial do servo é enfrentar as lutas com o coração pronto, sem deixar que a dor derrube o ardor missionário”.

Sofrer, todos sofrem. Mas sofrer com o Senhor, estando nele, muda a perspectiva. O ardor que habita o interior do servo, afirma Tony, é maior do que qualquer circunstância adversa.

Essas palavras do pregador encontraram eco direto na experiência de quem estava na plateia. Para Jonas de Sousa Neres, servo da RCC na paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Altamira, o encontro chegou num momento em que ele mais precisava, mesmo sem saber que precisava tanto.

“A gente vai servindo a Deus na missão, na igreja, e às vezes passa por situações que tiram as forças”, conta Jonas. “E a gente precisa também do consolo do Senhor, do amparo dele para continuar. Afinal de contas, somos seres humanos, temos família, trabalho, situações da vida”.

Foi exatamente isso que ele encontrou nos dois dias em Altamira. Para descrevê-lo, Jonas recorre a uma imagem simples e poderosa, a de uma mãe que pega o filho no colo quando ele está machucado, e fica ali, sem precisar dizer uma palavra. “Às vezes a mãe não diz nada. Ela apenas consola. Foi assim que eu experimentei esse encontro.”

Se tivesse que resumir tudo em uma palavra, Jonas não hesita “consolo”. “Esse encontro foi um momento de consolo de Deus, para continuar na missão, para não desistir, porque tem momentos em que parece que não restam mais forças”.

E quando Deus tira do colo e coloca de volta no chão, diz Jonas, é como se dissesse, “meu servo, siga em frente. A missão continua”.

Alan da Silva Souza, coordenador diocesano da RCC, Diocese do Xingu-Altamira destacou algo que considera fundamental mencionar, que entre os presentes, havia uma parcela de servos que não estavam mais ativos nos grupos de oração, pessoas que já haviam servido, que foram lideranças importantes, e que fazem parte da história da RCC na diocese. “Jamais poderiam ser esquecidos”, diz ele. Tê-los de volta, ainda que por um fim de semana, foi em si um sinal de que o encontro tocou onde precisava tocar.

E esse encontro não nasceu de improviso. Há mais de três anos Alan vinha sentindo e direcionando a necessidade desse momento. Agendas, distâncias e a complexidade de articular presença estadual e diocesana foram os obstáculos ao longo do caminho. Finalmente, em abril de 2026, aconteceu.

Para Alan, um dos momentos mais marcantes foi uma dinâmica simples e poderosa, a de ser carregado por quatro pessoas. “Quantas vezes a gente se sente só? Pensa que ninguém está do nosso lado, que vai cair. Mas quando comecei a deslizar, eles fizeram todo o esforço para me segurar. Quando temos irmãos na fé que caminham conosco, a gente nunca está sozinho”.

Houve também um momento de pedir bênção, olhar nos olhos de alguém e fazer um gesto que, para muitos, nunca havia sido feito antes. Para Alan, foi a primeira vez que pediu bênção ao pai, “foi um momento muito marcante. Eu chorei”.

Esses instantes, pequenos por fora, imensos por dentro, resumem o espírito do encontro. “Os corações saíram leves e com o ardor por Jesus e pelo Espírito Santo renovado”, conclui Alan. “Porque o Espírito Santo faz novas todas as coisas. E Deus quer que tenhamos vida em abundância”.

Renovados, reconciliados e reanimados, os servos da Diocese do Xingu-Altamira deixaram o encontro com algo que só a experiência do amor de Deus pode dar, a certeza de que vale a pena continuar.

Fonte: Regional Norte 2 / Por VívianMarler

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