Justiça restaurativa: caminho para a paz

Por Pe. Helio Fronczak

A Doutrina Social da Igreja (DSI), desde a encíclica RerumNovarum de 1891 até a Fratelli Tutti de 2020, coloca o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade no centro de uma justiça verdadeira. Nessa visão, a justiça restaurativa se destaca como um caminho prático: em vez de só punir o crime com prisão ou retribuição, ela restaura os laços rompidos, reunindo vítima, ofensor e comunidade para reparar o dano causado. O Compendium da DSI, no número 406, explica que “a paz é fruto da justiça que reconstrói relações humanas”. É uma abordagem simples e profunda, que chama cada pessoa a assumir sua parte na cura social.

Emmanuel Mounier, pai do personalismo cristão, aprofunda essa ideia: “A pessoa realiza-se na comunhão responsável; o eu isolado é uma abstração”, como escreve em O Personalismo. Para ele, ninguém é uma ilha. Todos temos uma vocação pessoal para o bem coletivo, combatendo o individualismo que deixa o sofrimento isolado. A DSI, no número 193, reforça a participação ativa: cada um constrói a paz subsidiária, resolvendo no nível local o que o Estado não consegue alcançar sozinho. Os princípios restaurativos são claros e acessíveis: escuta atenta, confissão honesta da culpa, reparação concreta e reintegração do ofensor à sociedade. Eles ecoam a solidariedade ensinada na Gaudium et Spes, número 24, onde a Igreja lembra que todos somos responsáveis pelo tecido social.

No Brasil, isso já acontece na prática. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) usa mediações em varas criminais, como nos casos de violência doméstica, reduzindo a reincidência em 35% a 40%, conforme relatórios de 2023. Paróquias aplicam círculos restaurativos para brigas familiares ou escolares, criando paz comunitária de forma simples. Mounier diria que esse “engajamento pessoal combate o individualismo”. A vítima ganha voz para expressar a dor, o ofensor recupera dignidade ao reparar o mal, e a comunidade acolhe sem julgar – tudo alinhado ao número 168 da DSI, que vê a paz como reconstrução de relações.

Exemplos locais inspiram e mostram que é possível. Em São Paulo e Rio de Janeiro, a Pastoral Carcerária organiza círculos em presídios: ofensores pedem perdão às vítimas por vídeo, com apoio paroquial para empregos e reinserção. Em Recife, Pernambuco, a Arquidiocese aplica o modelo em casos de violência urbana, envolvendo famílias inteiras para restaurar laços rompidos. Em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o projeto “Justiça Restaurativa nas Escolas”, ligado à CNBB, reúne alunos, pais e professores para curar feridas de bullying. Já em Belo Horizonte, Minas Gerais, a CNBB forma mediadores leigos em disputas de periferias, reduzindo conflitos em até 30%, segundo dados da arquidiocese. Nesses casos, a fé católica é o motor: a oração vem antes do diálogo, como Jesus ensina em Mateus 18,15, e a Igreja age como reconciliadora, conforme 2Cor 5,18.

Essa consciência pessoal é urgente hoje. A DSI, no número 186, clama pela subsidiariedade ativa: leigos e clérigos devem iniciar a restauração no dia a dia, em todos os ambientes, como na família, no bairro, no trabalho. Mounier alerta: “A responsabilidade é um risco a correr pelo outro”. Cada um pode perdoar um colega ofensor, mediar uma briga entre vizinhos ou formar grupos paroquiais de diálogo. A Igreja educa e forma, o Estado legisla com equilíbrio, mas sem a ação de todos, a punição só perpetua ciclos de violência. Com ela, a paz floresce de verdade, como no número 519 da DSI e em Mateus 5,9: “Bem-aventurados os pacificadores”.

Na polarização brasileira atual, DSI e personalismo nos convocam à profecia prática. A paz não cai do céu: constrói-se com ações pessoais, multiplicando círculos restaurativos em nossas comunidades.

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