Dom Teodoro assume a Diocese de Santiago

O Estádio Nacional de Cabo Verde despiu-se de sua função desportiva neste domingo, 3 de maio, para transformar-se em uma imensa catedral a céu aberto. Sob o olhar atento de centenas de fiéis, Dom Teodoro Mendes Tavares viveu um momento de “regresso e envio”, o filho da Calheta de São Miguel, que por mais de uma década pastoreou o povo do Marajó, na Amazônia brasileira, tomou posse como o 35º Bispo da Diocese de Santiago de Cabo Verde.

A cerimônia, carregada de simbolismo litúrgico, marcou a união de dois arquipélagos irmãos pela fé. Dom Teodoro, o terceiro bispo natural do país a liderar esta diocese histórica que caminha para os seus 500 anos, após assinar o termo de posse recebeu o báculo das mãos de seu antecessor, o Cardeal Dom Arlindo Furtado.

Em sua primeira homilia como bispo de Santiago, Dom Teodoro ecoou o lema que orientará seu ministério “Eis-me aqui para vos servir”. Com uma mensagem profundamente voltada para as questões sociais contemporâneas, o bispo dirigiu-se especialmente aos jovens, abordando as crises existenciais e a ansiedade que marcam a atualidade.

“Ninguém nasce à toa”, afirmou o Bispo, sustentando que cada pessoa possui um propósito divino. “A Igreja abraça com muito amor os jovens; somos chamados a valorizar o dom da vida”, exortou, sem esquecer a importância dos idosos e a necessidade de uma Igreja inclusiva, onde “ninguém seja excluído”. Citando o Papa, reforçou “A Igreja não tem inimigos a combater, mas homens para amar”.

Um dos momentos mais tocantes da celebração foi a leitura da mensagem enviada pela Diocese de Ponta de Pedras (PA), onde Dom Teodoro serviu nos últimos anos. O padre David Charles da Silva Teixeira, em nome do clero e do povo marajoara, descreveu a cerimônia não apenas como uma posse, mas como uma “devolução” generosa.

“Deus, que escreve a história com delicadeza, conduziu o coração missionário de Dom Teodoro de um arquipélago a outro”, dizia a mensagem. Padre David recordou a frase que acolhe quem chega a Ponta de Pedras “Vejam que as pedras que somos não estão de pontas, mas ligadas entre si”, definindo Dom Teodoro como o pastor que soube manter essas “pedras vivas” unidas em comunhão.

A despedida brasileira foi selada com a promessa de um vínculo eterno. Segundo a mensagem, na casa do povo marajoara, o bispo sempre terá à sua espera “um lugar e uma tigela de açaí”, símbolo da hospitalidade e do amor deixado nas margens dos rios da Amazônia.

A celebração contou com a presença de delegações episcopais de diversos países, como Portugal, França, Estados Unidos, Luxemburgo e do Brasil, do Regional Norte 2, representado pelos bispos do Pará, Dom JulioAkamine, Arcebispo de Belém, seu auxiliar Dom Paulo Andreolli e Dom Antonio de Assis Ribeiro, Bispo da Diocese de Macapá, no Amapá, sublinhando a dimensão internacional da posse.

O Arcebispo de Belém, Dom JulioAkamine, destacou que a “alegria contagiante” observada na posse de Dom Teodoro não deve ser confundida com um entusiasmo passageiro. Para o arcebispo, essa manifestação tem raízes profundas nos mistérios cristãos. Dom Julio explicou que, ao contrário dos símbolos convencionais, onde partimos de um sinal visível para chegar a uma realidade, no mistério cristão o movimento é inverso: a realidade divina já está presente e preenche o sinal. “A alegria dos fiéis, padres e leigos se funda na realidade da presença do Bom Pastor, que colocou os apóstolos e seus sucessores à frente do rebanho”, afirmou o Arcebispo. Segundo ele, a presença do novo bispo é a constatação de uma “realidade transcendente da fé”, onde Cristo se faz presente através dos sacramentos, da Palavra e do cuidado com os pobres.

Dom Arlindo Furtado, agora Bispo Emérito, saudou seu sucessor com um caloroso “Bem-vindo à sua casa”, passando o bastão de uma diocese que é berço da fé na costa ocidental africana.

Dom Teodoro encerrou a solenidade reafirmando sua disponibilidade e obediência ao Papa Leão XVI e pedindo o apoio de toda a comunidade para enfrentar os novos desafios. “Estou aqui para somar convosco”, concluiu, sob o patrocínio de Santiago Menor e Nossa Senhora da Graça, iniciando assim um novo capítulo na história de Cabo Verde e na sua própria jornada missionária que, embora mude de hemisfério, mantém o mesmo horizonte, o serviço ao próximo.

Fonte: Regional Norte 2 / Por Vívian Marler

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