Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Da atividade de Jesus, do seu ministério pastoral, um dos grandes traços é o seu ensinamento aos discípulos, em forma de discursos. Alguns são mais lembrados que outros, como o Sermão da Montanha. Assim, igualmente, as Parábolas.
De Cafarnaum, olhamos as margens do Mar da Galileia e a imaginamos repleta de gente que amontoa como pode para ouvir o ensinamento de Jesus. São Mateus conta que Jesus, vendo tanta gente, “entrou num barco e sentou-se, enquanto a multidão estava em pé na praia” (Mt 13,2). E começou a ensinar em parábolas. Apenas aqui, Jesus conta as parábolas do semeador e depois dá uma explicação do seu significado, a do joio, a do grão de mostarda, a do fermento, a do tesouro e da pérola e a da rede lançada ao mar (Mt 13,1-53; Mc 3,7-12; 4,1-34; Lc 5,1-3; 8,4-18). Após este ensinamento, Jesus parte para Nazaré e ensina em sua sinagoga, atraindo atenção e admiração dos seus concidadãos, que começam a se perguntar: “De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a mãe dele Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não vivem entre nós? De onde então lhe vêm todas essas coisas?” (Mt 13,54-56).
Em Nazaré, portanto, Jesus não parece ter sido bem recebido. Todos o conheciam e viram-no crescer; com ele conviveram até os trinta anos de idade e, por isso, não podiam acreditar que ele poderia ser o Messias. O Messias, pensavam, aliás, como todos os judeus da época, ser uma pessoa extraordinária, um líder político que liderasse o povo em uma grande guerra de libertação dos domínios estrangeiros. Jesus não se encaixava nesse perfil. Em Nazaré, Jesus não realizou senão alguns milagres e viu-se ameaçado de morte. A Nazaré não voltará mais.
Sabendo da morte de João Batista, Jesus se afasta para rezar em um lugar deserto. Sai de barco, e parece que a multidão o segue com os olhos para saber onde aportará. Em um lugar hoje bem conhecido, Jesus faz a primeira multiplicação dos pães (Mt 14,13-21; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13). Depois, sobe ao monte para rezar sozinho. À noite, vai ao encontro dos seus discípulos caminhando sobre as águas (Mt 14,22-33; Mc 6,45-52; Jo 6,16-21).
No dia seguinte à multiplicação dos pães, Jesus profere um grande discurso na sinagoga de Cafarnaum sobre o Pão da Vida (Jo 6,22-71); este discurso do Senhor é sobre a Eucaristia, cujo relato da instituição João não traz. Apenas os Sinóticos e São Paulo nos transmitiram o relato da instituição da Eucaristia. Este grandioso dia foi também de grande provação para os seguidores de Jesus: muitos o abandonaram, devido às exigências para segui-lo até o fim. Apesar disso, relata São Mateus, na região do lago de Genesaré, Jesus fez muitas curas, ou melhor, todas as pessoas que foram levadas até Jesus e lhe tocaram, ao menos a orla de suas roupas, foram curadas (Mt 14,34ss).
Uma passagem de Jesus por terras pagãs é interessante. São Mateus conta que Jesus foi à região de Tiro e Sidônia, fora de Israel. Aqui o Senhor realiza um milagre em favor de uma mulher cananeia, que lhe suplica pela cura de sua filha (Mt 15,21-28; Mc 7,24-30), à qual disse: “Mulher, grande é tua fé! Seja feito como queres!”
Deixando a região de Tiro e Sidônia, Jesus retorna às “cercanias do mar da Galileia”. Sobe a um monte, senta-se, e “logo vieram a ele numerosas multidões, trazendo coxos, cegos, aleijados, mudos e muitos outros, e os puseram aos seus pés e ele os curou, de sorte que as multidões ficaram espantadas ao ver os mudos falando, os aleijados, sãos, os coxos andando e os cegos a ver” (Mt 15,30-31). Jesus permaneceu nesse lugar durante três dias (Mt 15,32). É aqui também que o Senhor realiza a segunda multiplicação dos pães (Mt 15,32-38; Mc 8,1-9).
Após a segunda multiplicação dos pães, Jesus se dirige com os discípulos à região de Cesareia de Filipe. A cidade não existe mais. Ficava, ao que tudo indica, às proximidades do monte Hermon e da nascente do rio Jordão.
Cesareia de Filipe é o lugar da confissão de Pedro, que responde a uma pergunta de Jesus sobre sua identidade. Pedro responde em nome de todos: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” (Mt 16,13-20; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21). Em seguida, Jesus faz o primeiro anúncio da Paixão e de sua ressurreição (Mt 16,21-23; Mc 8,31-33; Lc 9,22). Serão três, os anúncios da Paixão. Pedro não gostou de ouvir sobre a Paixão, parece ter ficado perturbado. Quem sabe para suavizar o coração de Pedro, Jesus faz uma alusão à sua glória que os discípulos testemunharão no evento da Transfiguração no monte Tabor (Mt 16,28; Mc 9,1; Lc 9,27).
O que Jesus fez até o dia da Transfiguração, que se deu “seis dias depois” da confissão de Pedro? Esteve em Jerusalém? Parece que Lucas acena para essa possibilidade, pois diz que a Transfiguração se deu “oito dias depois”. Não é possível uma cronologia exata.
A Transfiguração foi no monte Tabor (Mt 17,1-13; Mc 9,2-13; Lc 9,28-36), embora não se identifique o monte. Ao descer do monte, Jesus cura um endemoninhado epilético (Mt 17,14-20; Mc 9,14-29; Lc 9,37-43).
Estes passos, procurando seguir o itinerário feito por Nosso Senhor penso que nos deve ajudar no conhecimento da vida da qual Jesus não se desviou, a fim de que nós também saibamos qual a via do nosso destino de cristãos.



