Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém
Caros leitores, neste lindo domingo dedicado às mães, somos convidados a refletir sobre o amor materno sob a inspiração da figura de Maria. Ajuda-me nesta reflexão Sylvia Calandrini, licenciada em Letras e professora do Instituto Vicentino Catarina Labouré.
No coração do tempo pascal, a liturgia nos oferece as palavras de Cristo que são, ao mesmo tempo, promessa e caminho: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). Esta afirmação ilumina o mistério de Maria e, por extensão, o sentido mais profundo da Igreja: Deus deseja habitar no humano, fazer do coração do homem a sua casa.
A casa de Nazaré torna-se, assim, modelo. Não se trata apenas de um espaço físico, mas de um lugar teológico, onde o amor, a escuta e a fidelidade transformam o cotidiano em morada divina. Maria é aquela que, antes de conceber em seu ventre, concebeu na fé. Nela, vemos refletida a beleza do amor materno que acolhe, guarda e faz crescer a vida – realidade que, neste dia, celebramos em tantas mães que, com dedicação silenciosa, sustentam seus lares e educam para o bem.
Chamá-la “casa de Deus” não é mera metáfora devocional; é reconhecer que sua vida foi inteiramente configurada à presença divina. Seu “sim” não foi apenas um instante, mas uma atitude permanente de abertura. Por isso, ela se torna também “mãe que acolhe”: quem experimenta a presença de Deus não fecha as portas, mas as escancara. Neste Dia das Mães, somos chamados a reconhecer esse mesmo movimento em tantas mulheres que fazem de suas casas espaços de cuidado, paciência e entrega.
A Igreja, corpo de Cristo, é chamada a refletir essa mesma dinâmica. O Concílio Vaticano II ensina que ela é “como que o sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG, 1). Se Deus faz morada no coração humano, a Igreja deve ser, visivelmente, uma casa onde todos possam entrar, permanecer e encontrar sentido.
No entanto, essa imagem só se concretiza quando o amor deixa de ser conceito e se torna prática. O amor, como dom materno, manifesta-se nos gestos simples e, por vezes, invisíveis. É a mãe que vigia o filho doente durante a noite; é a catequista que, com paciência, acolhe a inquietação de seus catequizandos; é o voluntário que organiza, com zelo, um gesto concreto de cuidado para quem perdeu até o básico da dignidade; é o vizinho que percebe a solidão alheia e oferece escuta.
Num mundo marcado por tantas formas de desenraizamento – famílias fragmentadas, relações superficiais, indiferença social –, falar da Igreja como casa não é ingenuidade, mas urgência. O ser humano precisa de pertença, de vínculos, de um lugar onde seja reconhecido não pelo que produz, mas pelo que é. Maria, em Nazaré, ensina que a santidade se constrói no cotidiano, na fidelidade às pequenas coisas, na disponibilidade para o outro.
Santa Teresa de Calcutá sintetiza essa verdade ao afirmar: “Se queres mudar o mundo, vai para casa e ama a tua família”. A casa, aqui, ultrapassa o espaço doméstico e alcança toda realidade onde o amor pode ser exercido. A Igreja, portanto, só será verdadeiramente casa de Deus se cada cristão assumir a responsabilidade de fazer do próprio coração um lugar habitável.
Guardar a palavra de Cristo, como propõe o Evangelho, não é apenas memorizá-la, mas encarná-la. É permitir que ela modele atitudes, reorganize prioridades e inspire escolhas. Quando isso acontece, cumpre-se a promessa: Deus faz morada. E onde Deus habita, nasce uma nova forma de viver – mais fraterna, mais justa, mais humana.
Maria, casa de Deus e mãe que acolhe, permanece como modelo e intercessora. Olhar para ela é aprender que a fé não nos afasta do mundo, mas nos insere nele com maior profundidade. É descobrir que a verdadeira casa não é feita de paredes, mas de relações; não se sustenta em estruturas, mas no amor que se doa.
Que, à sua escola, possamos transformar nossas casas, nossas comunidades e nossas cidades em espaços de acolhimento, onde cada pessoa encontre não apenas abrigo, mas dignidade. E que, neste Dia das Mães, saibamos reconhecer, valorizar e agradecer aquelas que, com amor fiel e cotidiano, tornam visível, entre nós, o cuidado de Deus.




