O Papa vai apresentar a 25 de maio a sua primeira encíclica, ‘Magnifica humanitas’, após anos de reflexão da Igreja Católica sobre o desenvolvimento ético e os limites da inteligência artificial (IA), da economia ao campo militar.
Num encontro com os cardeais, dois dias após a sua eleição, Leão XIV explicou a escolha do seu nome, apontando aos desafios da “inteligência artificial” e outra “revolução industrial”.
“São várias as razões, mas a principal é porque o Papa Leão XIII, com a histórica encíclica Rerumnovarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, referiu.
O primeiro ano do atual pontificado ficou marcado pela exigência de limites éticos para o desenvolvimento da IA, especialmente a generativa.
“A IA levanta questões preocupantes sobre suas possíveis repercussões na abertura da humanidade à verdade e à beleza, na nossa capacidade distintiva de compreender e processar a realidade”, escreveu, num texto dirigido aos participantes na II Conferência Anual de Roma sobre Inteligência Artificial (19-20 de junho de 2025).
O pontífice manifestou ainda profunda preocupação com a corrida ao armamento autónomo e com a exclusão social provocada por um progresso sem ética.
“As próprias novas tecnologias surgem concebidas e utilizadas principalmente para fins bélicos e em contextos que não deixam vislumbrar um aumento de oportunidades para todos”, lamentou o Papa, durante a visita à Guiné Equatorial.
Logo na primeira grande entrevista do pontificado, divulgada a 18 de setembro de 2025, Leão XIV alertou para os desafios levantados pelo desenvolvimento da IA.
“Vai ser muito difícil descobrir a presença de Deus na IA. Nas relações humanas, podemos encontrar pelo menos sinais da presença de Deus”, disse ao ‘Crux’, portal de informação religiosa dos EUA.
Segundo o Papa, um dos perigos é que “o mundo digital siga o seu próprio caminho”, transformando as pessoas em “peões”.
Leão XIV disse mesmo ter sido convidado a autorizar a criação de uma versão digital de si próprio, “para que qualquer pessoa pudesse entrar num site e ter uma audiência pessoal” com o Papa.
“Se há alguém que não deveria ser representado por um avatar, na minha opinião, é o Papa”, justificou.
Na mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se celebrou no último domingo, o Papa alertou para os riscos de uma tecnologia digital que “simula” a realidade humana, pedindo a proteção dos “rostos e vozes” contra a manipulação da IA.
Leão XIV entende que os sistemas de IA, ao simularem “sabedoria, conhecimento, consciência e responsabilidade”, invadem o nível mais profundo da relação entre pessoas.
“É necessário vigiar sobre o desenvolvimento e a aplicação da inteligência artificial nos âmbitos militar e civil, para que não desresponsabilize as escolhas humanas e não agrave a tragicidade dos conflitos”, alertou ainda o Papa, na última semana, durante uma visita à Universidade La Sapienza, em Roma.
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A reflexão sobre estes campos estende-se aos organismos da Santa Sé, com a Academia Pontifícia para a Vida a pedir, no caso da Medicina, que “as decisões relativas ao tratamento do paciente e o peso da responsabilidade” permaneçam uma exclusividade humana, alerta partilhado pelo Papa. Já a Comissão Teológica Internacional, ligada ao Dicastério para a Doutrina da Fé, alertou para os perigos de um novo paradigma tecnocrático no documento ‘Quo vadis, humanitas?’, rejeitando “uma conceção do sujeito que possui o objeto numa lógica de dominação e transformação”. A 28 de janeiro de 2025, o Vaticano publicou um documento sobre o desenvolvimento da inteligência artificial (IA), alertando para os riscos destes sistemas e da concentração de recursos num conjunto de empresas “poderosas”. “O facto de a maior parte do poder sobre as principais aplicações de IA estar atualmente concentrado nas mãos de algumas empresas poderosas suscita preocupações éticas significativas”, refere a ‘Antiqua et nova’ (antiga e nova), sobre a relação entre a IA e inteligência humana. O texto foi assinado pelos cardeais D. Víctor Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação. Ao longo de 35 páginas, preenchidas por duas centenas de citações (214 notas), o texto aborda as questões antropológicas e éticas levantadas pela IA, assumindo “preocupações sobre a sua possível influência na crescente crise da verdade no debate público”. |
Este enquadramento ético prolonga o legado do Papa Francisco, responsável por inscrever a regulação dos algoritmos na agenda diplomática global ao exigir a proibição de armas autónomas letais perante os líderes do G7, reunidos na Itália, a 14 de junho de 2024.
“Precisamos de garantir e proteger um espaço de controlo significativo do ser humano sobre o processo de escolha dos programas de inteligência artificial: está em jogo a própria dignidade humana”, declarou.
Na mesma linha, Leão XIV tem denunciado a “confiança ingenuamente acrítica” na IA como um “oráculo”, sublinhando que o recurso sistemático a uma compilação estatística artificial, corre o risco, a longo prazo, de corroer “as capacidades cognitivas”.
O atual Papa defende a necessidade de criar “políticas” para proteger os mais novos na era da inteligência artificial (IA), salientando também a importância da “educação digital”.
Noutro âmbito de reflexão, o pontífice criticou as promessas “transumanistas” de imortalidade pela tecnologia, desafiando a Igreja a “colocar a tecnologia ao serviço da evangelização e do desenvolvimento integral de cada pessoa”.
Fonte: Agência Ecclesia




