As bodas de Caná

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

Os casamentos no tempo de Jesus eram carregados de simbolismos por, além das marcas naturais do amor, trazerem consigo a esperança e a alegria dos tempos messiânicos, quando Deus enviaria o seu ungido para restaurar o mundo, envelhecido e manchado pelo pecado. Vemos essas características, sobretudo, nos profetas. Algumas citações ajudarão você a entender esse significado: Is 54,4-8; 62,4-5; Jr 31,12-13; Os 2,14-23; 14,7; Am 9,13-14; espero que você leia os textos indicados. O vinho era parte integrante da festa. Esse rico simbolismo você encontrará noutras partes dos Evangelhos, como, por exemplo, em Mateus 22,1-4; 25,1-13. Leia a parábola do banquete (Lc 14,15-24; 22,16-18; Mt 8,11).

O casamento do qual Jesus participou realizou-se em Caná, distante de Nazaré 9 quilômetros, trajeto feito por carro. Maria, a mãe de Jesus, estava presente. Jesus também foi convidado com seus discípulos – os seis primeiros: André, João, Pedro, Tiago, Filipe e Natanael. As celebrações de casamento duravam até 7 dias (cf. o texto da Vulgata em Tb 11,18 faz referência aos 7 dias). Por tantos dias de celebração, era natural que houvesse bastante vinho, mas neste, por incomum circunstância, veio a faltar a bebida; a falta de vinho no casamento seria um grande desconforto e uma desonra para os nubentes, um verdadeiro desastre contra o dever da hospitalidade, um vexame social. Maria percebeu o que estava acontecendo e recorreu a Jesus. Jesus respondeu dizendo que sua hora ainda não havia chegado. Ele se referia ao tempo da sua morte (cf. Jo 7,30; 8,20; 12,23-27; 13,1; 17,1). Ainda assim, ele não deixará de agir, e Maria tanto sabe disso, numa confiança absoluta em Jesus, que orienta os serventes a obedecer-lhe em tudo, fazendo tudo o que ele mandar. Na verdade, ninguém sabia melhor quem era Jesus do que Maria, que recebeu do Anjo do Senhor a informação da origem do seu Filho (Lc 1,26-36). Maria não disse a Jesus o que ele tinha que fazer; apenas mencionou a necessidade, a falta de vinho, o que ela sabia ser suficiente. Ela sabia que Jesus agiria em favor daquela família.

Na resposta de Jesus: “Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou” não há grosseria nem desrespeito. Se atentarmos bem para a expressão, é, antes, uma forma carinhosa de Jesus dizer a sua mãe que o seu filho tem agora novas e urgentes responsabilidades que estão além dos laços familiares; ela, sua mãe, está unida a toda a sua missão e sofrerá com ele até o fim, até a sua hora, quando ele dará o vinho novo, a nova vida e restaurará toda a criação. O milagre que viria, o primeiro Sinal, esperado por Maria, era a antecipação da Hora de Jesus, a hora da cruz, e Jesus cumpriria etapa por etapa dos desígnios do Pai. Devido a este consentimento na missão do seu Filho, Maria diz com total confiança aos serventes que obedeçam à palavra de Jesus.

Havia na casa seis grandes talhas de pedra, enormes ânforas (potes), para o rito de purificação que os judeus costumavam fazer em obediência às prescrições legais (Lv 11,29-38). Em cada talha de pedra cabiam de “duas a três medidas”. Cada medida equivalia a aproximadamente 40 litros. Neste caso, cada talha devia caber mais de 90 litros, perto de 100 litros. Então Jesus transformou a água em quase 600 litros do melhor vinho servido aos convidados. Quem soube do milagre? Maria, os serventes que encheram as talhas com a água e os discípulos de Jesus, que estavam com ele no casamento. Mas a honra foi toda para o noivo, que serviu o melhor de todos os vinhos. Com esse sinal, Jesus manifestou a sua glória e o seu poder sobre a criação, transformando água em vinho; os discípulos creram nele e começaram um sólido processo de crescimento na fé.

Sabemos como era o ritual dos casamentos no tempo de Jesus, um rito bonito, que se cumpria rigorosamente: a promessa, que durava cerca de um ano, e as bodas, quando a noiva (que já era considerada esposa) era recebida pelo esposo. Era uma festa de toda a comunidade. Não se inventavam coisas, como fazem atualmente nas celebrações matrimoniais, que, assim, se esvaziam de sentido e significado.

São João menciona a Mãe de Jesus apenas duas vezes em seu Evangelho. A primeira vez é aqui, nas bodas de Caná, onde ela antecipa a ação portentosa de Jesus e a sua Hora; a segunda, no relato da Paixão. João não a cita pelo nome, mas sempre como “a Mãe de Jesus”, e isto nos é caro a todos nós cristãos, desde o início da Igreja. Este dado é importante, pois mostra a presença de Maria, a Mãe de Jesus, desde a concepção virginal, os eventos do nascimento e da infância do Senhor, o ministério público de Jesus, até sua morte, a sua Hora, na Cruz, no monte Gólgota, em Jerusalém. Depois, ela estará com os Doze no Cenáculo à espera da efusão do Espírito Santo, prometido por seu Filho. Ela jamais deixará a Igreja sozinha. Outro detalhe importante é o modo de Jesus falar com sua mãe. Ele a chama de “Mulher” nas duas ocasiões, nas Bodas de Caná e na Cruz. O significado pode ser também o de “Senhora”, mas na linguagem de São João parece ser mais uma referência à Eva, a primeira mulher, que cedeu à tentação e à desobediência no paraíso. Maria é a nova Eva, que se mantem fiel ao Senhor e jamais será desobediente ao Senhor. É como se Maria, a nova Eva, assistisse agora ao novo Adão, o seu Filho, a restaurar o que o primeiro homem deixou fender. A cruz é a derrota daquele que venceu na árvore do paraíso. Maria, a nova Eva, ela é a Mãe do Senhor!

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