A expulsão dos mercadores do templo

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

Depois das bodas de Caná, São João conta que Jesus desceu a Cafarnaum, para onde havia se transferido depois do batismo por João Batista; em Cafarnaum, Jesus permaneceu alguns dias; depois, subiu a Jerusalém, onde realizou algo inusitado. Relata São João: “Estando próxima a Páscoa dos judeus, Jesus subiu a Jerusalém. No Templo, encontrou vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados. Tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do Templo, com as ovelhas e os bois; lançou ao chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas e disse aos que vendiam, pombas: “tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2,13-22). Este evento é posto pelos Evangelhos Sinóticos no final da vida de Jesus, na sua última semana em Jerusalém. O quarto Evangelho registra, ao todo, três festas da Páscoa das quais participou Jesus: esta primeira, da purificação do Templo, a Páscoa da multiplicação dos pães (Jo 6,4) e a Páscoa de sua morte (Jo 11,55; 12,1).

O templo de Jerusalém era o centro da vida religiosa e política do povo judeu. O culto consistia em dois sacrifícios de animais, um pela manhã e outro, à tarde. O auge de suas celebrações estava nas grandes festas, especialmente as três mais solenes – Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos ou das Cabanas, das quais todos os judeus a partir dos 13 anos de idade eram obrigados a participar em peregrinação. Nessas festas, a população de Jerusalém chegava a triplicar. O templo era mantido pelas doações dos judeus de todo o mundo, às quais estavam obrigados os maiores de 20 anos de idade, inclusive os residentes fora de Israel; o imposto do templo, anual, correspondia a dois dias de trabalho (Mt 17,24). Todo o dinheiro arrecadado era depositado no templo, que funcionava como um grande banco, onde se depositavam também bens particulares de famílias importantes, administrado, obviamente, pelos sumos sacerdotes, que detinham não apenas o poder religioso e político, mas, igualmente, um enorme poder econômico. Pelas informações que se tem, o templo era de fato de uma beleza extraordinária, com muito ouro e pedras preciosas. Dizem que dava gosto de ver.

Dentro do seu espaço mais sagrado, Zacarias recebeu o anúncio do nascimento de João Batista. Após o seu nascimento, Jesus foi levado ao templo e apresentado ao Senhor; nesse dia, foi acolhido por Simeão e Ana, que profetizaram sobre ele; adolescente, aos doze anos, Jesus foi encontrado no templo por Maria e José em debate com os doutores da lei. Agora, Jesus volta ao templo para livrá-lo do estado de corrupção da sua função original e pôr fim àquele estado em que se encontrava.

A história do templo é muito interessante. Salomão foi o construtor do primeiro templo (1Rs 6-9), que ocupava o lugar onde hoje se encontra o Domo da Rocha, sagrado para os muçulmanos, a Mesquita de Omar. Era majestoso, pelo que se sabe. Este templo foi totalmente destruído por Nabucodonosor no ano 587, e foi reconstruído, na volta do exílio da Babilônia, por Zorobabel (Esdras 5). A Arca da Aliança jamais voltou ao templo, depois de ter sido levada pelos conquistadores. O rei Herodes, o Grande, ampliou este templo e o ornou, magnificamente. O início da obra de Herodes foi o ano 19 antes de Cristo. Pelas dimensões e embelezamento, era, de fato, magnífico, suntuoso, belo. Os romanos destruíram o templo no ano 70, e ele nunca mais foi reconstruído; restam apenas pedras e o famoso muro das lamentações.

A cena descrita por São João deu-se no chamado “pátio dos gentios”, lugar de comércio dos animais para os sacrifícios realizados no templo. Os cambistas trocavam as moedas pagãs (denários e dracmas), tidas como contaminadas, para a moeda dita religiosa, os siclos. Esta cena mercantil era escandalosa para Jesus, que usou um chicote para proceder à limpeza do espaço sagrado. O papa Bento 16, no seu livro sobre Jesus Cristo, uma obra magnífica, faz um comentário exemplar desta cena e do seu significado.

Os judeus pedem a Jesus uma justificativa para o seu ato. Jesus cita palavras de Isaías, profeta que equipara os sacrifícios às orações (Is 56,7), e de Jeremias (Jr 7,11), sobre a dignidade do templo. Deus não pode ser roubado em seu direito de adoração única, não compartilhada. Os fiéis tinham o direito de ir ao encontro do Senhor, de oferecer suas oferendas e orações, e Deus, de derramar suas graças e favores divinos; em vez disso, o templo fora transformado em um antro de ladrões; é muito possível que o comércio não favorecia os fiéis e devotos. Em todo caso, Deus era privado do verdadeiro louvor, da sua honra e do respeito que o seu Nome merece.

Talvez o que tenha causado maior espanto ou confusão aos interlocutores de Jesus foi a frase de Jesus sobre a destruição do templo: “Destruí este santuário, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2,19). Até os discípulos ficaram intrigados, e só compreenderam as palavras de Jesus após sua ressurreição dentre os mortos, porque entenderam que ele se referia a si mesmo.

O relato de São João termina com uma observação que não podemos perder de vista: o Senhor conhece o que está em nosso coração!

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