DGAE falam dos pobres

Lugar teológico onde Deus fala

Lançamento das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2026-2032. | Crédito: CNBB.
Lançamento das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2026-2032. | Crédito: CNBB.

As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2026-2032 pedem que as comunidades católicas cultivem uma espiritualidade “que ajude a ver a pobreza como lugar teológico onde Deus fala e transforma, não como inconveniente social”.

As diretrizes foram aprovadas pelos bispos na 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada em abril, em Aparecida (SP), e publicadas neste mês pelas Edições CNBB.

Segundo a conferência, as DGAE devem orientar a ação evangelizadora de dioceses, paróquias e comunidades em todo o país nos próximos seis anos. Seu objetivo é “Evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja sinodal, sustentada pela Palavra e pelos Sacramentos, em comunidades de discípulos missionários, fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres, a caminho da plenitude do Reino”.

“A Igreja reconhece que o Senhor se une, com particular ternura, ao destino dos pobres, e, neles, manifesta a sua presença histórica”, afirma o número 136, que abre a seção inserida no subcapítulo Serviço à Vida Plena para Todos que também engloba a Promoção, Defesa e Cuidado da Vida e a Ecologia Integral.

A orientação está no capítulo 5, “Caminhos da Missão”, dedicado aos eixos prioritários da evangelização nos próximos seis anos.

“Incentivar as comunidades a ‘habitar a periferia’, segundo o Evangelho: viver a missão onde as pessoas sofrem. Cultivar uma espiritualidade que ajude a ver a pobreza como lugar teológico onde Deus fala e transforma, não como inconveniente social”, diz o número 147 do documento.

A Igreja sempre reconheceu três “lugares teológicos”, ou fontes da revelação de Deus: a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério da Igreja. A ideia do pobre como “lugar teológico” foi inaugurada pelo teólogo peruano Gustavo Gutiérrez (1928-2024) criador da Teologia da Libertação e defendida principalmente pelo jesuíta espanhol Jon Sobrino, que vive em El Salvador e é autor do livro Cristologia a Partir da América Latina.

Segundo o documento, “a evangélica opção preferencial pelos pobres (…) não nasce da filantropia, nem de uma opção ideológica, mas é própria da fé em Cristo” e deve “orientar toda a vida da Igreja, não apenas com atitudes assistenciais, mas na conversão permanente dos corações”.

“Opção preferencial pelos pobres” é uma expressão cunhada na II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, realizada em Puebla, México em 1979.

“Se quisermos permanecer no coração vivo da Igreja, que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos jamais esquecer os pobres, porque neles reconhecemos o próprio Cristo e ouvimos o clamor de Deus, que continua a pedir uma resposta de amor, justiça e compromisso”, afirma o texto das DGAE.

A ideia foi reforçada pelo arcebispo de Santa Maria (RS), dom Leomar Antônio Brustolin, presidente da comissão responsável pela elaboração das diretrizes, em uma série de artigos publicada no site da CNBB.

“Deus fala também por meio dos pobres”, escreveu. Segundo ele, “a fome, a violência, a exclusão, o sofrimento dos povos originários, dos jovens, das famílias — tudo isso não é apenas um problema social, mas um apelo de Deus”.

“Tudo converge para uma mesma direção: formar discípulos missionários. Pessoas que encontraram Jesus e não conseguem guardar apenas para si. Pessoas que vivem a fé com alegria, amadurecem na comunhão e sentem o desejo de partilhar aquilo que receberam. A missão nasce sempre de um coração tocado por Cristo”, disse.

Fruto de quase quatro anos de escuta

Na live de apresentação das DGAE realizada ontem (17), na sede da CNBB em Brasília (DF), dom Leomar disse que o texto é resultado de um processo de escuta e discernimento que durou mais de três anos e envolveu bispos, especialistas, organismos da CNBB, dioceses e diversas expressões do povo de Deus.

Segundo dom Leomar, o processo foi longo porque os bispos decidiram aguardar a conclusão do Sínodo da Sinodalidade para incorporar suas orientações ao documento.

“É um documento que escutou muitas realidades. Escuta, diálogo, discernimento e conversação no Espírito envolveram bispos, organismos do povo de Deus, assessores da CNBB, as Igrejas particulares, muitas Igrejas locais e muitas expressões do povo de Deus”, disse.

O arcebispo afirmou que a elaboração das diretrizes foi “um dos maiores atos sinodais” já realizados pela Igreja no Brasil. Segundo ele, ao longo de quase quatro anos foram produzidas mais de vinte versões do texto. Duas delas foram enviadas a todo o episcopado brasileiro, que apresentou centenas de sugestões e emendas antes da aprovação final na Assembleia Geral em Aparecida.

Para dom Leomar, as novas diretrizes podem ser resumidas em duas palavras: “conversão e missão”, ou, mais precisamente, “conversão para a missão”.

“Não dá mais para fazer o que sempre fizemos. É preciso manter tudo aquilo que está bom, mas também rever estruturas que não ajudam mais a evangelizar”, afirmou.

“Em síntese, as novas diretrizes nos convidam a sermos uma Igreja cada vez mais sinodal, missionária, muito mais próxima das pessoas, capaz de escutar muito e buscar uma conversão pastoral para que nossas comunidades sejam verdadeiramente sinais do Reino de Deus”, concluiu.

Fonte: ACI Digital / Por Nathália Queiroz

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