Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Depois do encontro com Nicodemos, Jesus “deixou a Judeia e retornou à Galileia” (Jo 4,3). O Senhor toma então o caminho para a região norte, mas precisa passar por Samaria, aliás, Jesus escolhe passar por esta rota central; ele poderia ter ido por uma das duas outras existentes. O certo é que ele escolhe o caminho que passa pela Samaria, de grandes lembranças de eventos bíblicos – como Betel, lugar sagrado para a memória do patriarca Jacó, e Silo, onde ficou a Arca da Aliança no tempo dos Juízes. São João relata que Jesus e seus discípulos passaram por uma cidade de nome Sicar (leia todo o relato em Jo 4,1-42), “perto da região que Jacó havia dado a seu filho José. Ali se achava a fonte de Jacó” (Jo 4,5-6; cf. Gn 33). A antiga Sicar é a atual Askar, cidade próxima a Siquém e ao monte Garizim. A Samaria era uma região considerada impura pelos judeus. Alguns preferem localizar o poço de Jacó na cidade de Siquém, mas isto é um detalhe, cuja explicação ficará para outra oportunidade.
Os judeus, como disse acima, não se davam bem com os samaritanos, que consideravam uma raça mista, formada pelos poucos israelitas que permaneceram após a queda do reino do norte, em 722 antes de Cristo, e os colonos assírios que se impuseram como conquistadores. O problema aumentou com a construção de um templo no monte Garizim, onde havia um corpo de sacerdotes, em clara competição com o culto em Jerusalém. Por esse motivo, os judeus evitavam qualquer contato com os samaritanos, e nem os tratavam bem. Esta animosidade está bem atestada no livro do Eclesiástico, que assim diz: “Há duas nações que minha alma detesta e terceira que nem sequer é nação: os habitantes da montanha de Seir (de Samaria), os filisteus e o povo estúpido que habita em Siquém” (Eclo 50,25-26). Assim se compreende a surpresa da mulher samaritana ao pedido de Jesus, para lhe dar água.
Não irei aqui comentar o texto de São João, mas apenas dizer que esta é uma ocasião para o Senhor Jesus se revelar como o Messias e a verdadeira fonte de água, que jamais se esgota. Ao dizer à mulher: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: “Dá-me de beber”, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva”, que não procede de uma cisterna, de um poço, mas dele próprio, ele lhe fala de algo muito mais profundo do que ela consegue perceber. O encontro com o Senhor Jesus é a oportunidade que toda uma vida espera para realizar o seu destino. O diálogo com a mulher, a revelação do seu caso de poligamia, pois ela já tinha tido cinco maridos e vivia com um sexto, tudo para ela é revelador e, ao mesmo tempo, transformador. Apesar do estado matrimonial irregular, Jesus não a condena. Em seguida, toca num tema muito sensível para a religião: onde adorar a Deus? Este assunto dividia Judeus e Samaritanos. Estes adoravam a Deus no templo construído no monte Garizim; os judeus, no templo de Jerusalém. Jesus afirma que o santuário do monte Garizim não foi escolhido por Deus; Jerusalém, sim. Mas dá um salto de qualidade no sentido do culto, afirmando que um tempo novo está chegando, quando Deus será adorado em espírito e verdade, sem limites e sem fronteiras. É nesta hora que toda a conversa entre a mulher e Jesus entra em sua centralidade. A mulher diz a Jesus: “Sei que vem um Messias (que se chama Cristo). Quando ele vier, nos explicará tudo”. Disse-lhe Jesus: “Sou eu, que falo contigo” (Jo 4,25-26). Nesse momento, chegam os discípulos.
Os discípulos chegam trazendo comida e a oferecem a Jesus. Jesus diz aos discípulos que o seu alimento é de outro tipo, e este ele já o recebeu. O resultado foi a proclamação da mulher do que ela própria viveu com Jesus, um encontro transformador. Depois dela, tantos outros que foram até Jesus e o descobriram como o Salvador que há muito esperavam. Jesus ainda estava a caminho da Galileia.




