“…Ele foi a Nazaré, onde fora criado e, segundo seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura” (Lc 4,14-16).

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

No último artigo, tratei do encontro de Jesus com a samaritana no poço de Jacó. Após isso, Jesus continua seu caminho para a Galileia. O relato de São João é o seguinte: “Depois daqueles dois dias, ele partiu de lá para a Galileia” (Jo 4,43). Ou seja, Jesus deixa Sicar e se dirige à Galileia, onde ele exercerá grande parte do seu ministério, sobretudo em Cafarnaum, Betsaida, Magdala. Pedro e André, embora nascidos em Betsaida, residiam em Cafarnaum, cidadezinha às margens do lago de Tiberíades. A Galileia era conhecida por suas terras férteis e por sua vocação agrícola e pesqueira. Os primeiros discípulos de Jesus, segundo os Sinóticos, eram pescadores e foram escolhidos nessa região. Culturalmente, a Galileia sofreu influência das culturas judaica, grega e romana, daí porque a chamavam de “Galileia dos gentios”. Toda a Galileia estava sob a administração de Herodes Antipas. Nazaré, a cidade onde Jesus se criou, depois que sua família – Maria e José e o menino Jesus voltaram do Egito, era uma cidade sem nenhuma projeção e menosprezada por sua insignificância histórica.

São Lucas dirá a esse respeito o seguinte: “Jesus voltou então para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a região circunvizinha… Ele foi a Nazaré, onde fora criado e, segundo seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura” (Lc 4,14-16). Jesus estava, portanto, de volta a Nazaré.

Na sinagoga de Nazaré, Jesus leu um texto do profeta Isaías (61,1-2). Em Nazaré, Jesus foi concebido, criado, viveu em família, aprendeu o ofício de carpinteiro e permaneceu até a idade de 30 anos. Agora, volta a Nazaré para experimentar, por causa da incredulidade dos seus habitantes, repulsa por parte dos seus conterrâneos. Para começar, vai à sinagoga para o culto do sábado, para as orações e a leitura da Sagrada Escritura: os livros da Lei, a Torah, de modo continuado, e os demais livros, por livre escolha. Após a leitura, era comum uma breve exortação. Jesus recebe o livro do profeta Isaías, abriu-o e leu o texto, enrolou o livro e sentou-se. A passagem lida foi o capítulo 61,1s. A instrução de Jesus é muito simples e impactante; ele diz claramente: “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura”. O advérbio de tempo “hoje” cai como um trovão na assembleia. Ou seja, Jesus declara que a profecia de Isaías naquele momento estava se cumprindo, era agora presente. De outro modo, Jesus dizia que o tempo de salvação prometido pelas Escrituras fora trazido por ele, e naquela hora se realizava. Mas aquelas palavras exigiam fé, uma boa vontade dos ouvidos, que levariam a uma resposta de adesão a ele. Entretanto, estas palavras e a exortação de Jesus não caíram bem nos seus ouvintes.

Essa foi a primeira visita de Jesus à sua cidade. Uma segunda é narrada imediatamente à primeira (Lc 4,23-30). A visita à sinagoga, ao que tudo indica, foi coroada de glória; todos se admiravam pela sabedoria de Jesus, mas logo esta admiração cedeu lugar à animosidade contra Jesus. Às palavras duras de Jesus em sua cidade natal, o povo reage como uma atitude singular, como narra São Lucas: “Diante dessas palavras, todos na sinagoga se enfureceram. E, levantando-se, expulsaram-no para fora da cidade e o conduziram até um cimo da colina sobre a qual a cidade estava construída, com a intenção de precipitá-lo de lá. Ele, porém, passando pelo meio deles, prosseguia seu caminho” (Lc 4,28-30).

Este lugar fora da cidade é identificado hoje como o “monte do precipício”, onde o papa Bento 16 celebrou missa quando esteve em Nazaré em 2009. Os habitantes de Nazaré queriam que Jesus apresentasse milagres para mostrar-se como profeta, segundo a Lei (Dt 13,2s). Jesus não cede ao desejo do povo. Este é o motivo imediato para o povo o julgar como blasfemo. Interessante que toda a assembleia se constitui como juiz contra Jesus e toma para si a decisão de cumprir a sentença. Se compararmos o que aconteceu na visita de Jesus à região da Samaria com esta em Nazaré, Jesus obteve êxito com os samaritanos e fracassou em Nazaré, com o seu povo.

Os habitantes de Nazaré tinham uma opinião sobre Jesus, e estavam surpresos com sua sabedoria e com os milagres que realizava. Perguntam-se sobre sua identidade e citam sua origem humana. Embora José não seja mencionado, é evidente que se referem a ele quando identificam Jesus como “o filho do carpinteiro”. É provável que José já tenha falecido. Maria, a Mãe de Jesus, era bastante conhecida da comunidade, assim como seus parentes mencionados, chamados no texto de “irmãos de Jesus”. Maria não teve outros filhos, além de Jesus. No século IV, um homem chamado Helvídio escreveu contra a virgindade de Maria e foi duramente rebatido por São Jerônimo, que apresentou fortíssimos argumentos contrários. Para nós, católicos, não há dúvida de que Maria é sempre Virgem – antes, durante e depois do parto. Nossos argumentos são bíblicos. Confira, por exemplo, se em algum texto dos Evangelhos se diz que os chamados “irmãos de Jesus” também são filhos de Maria. Mas já tratei deste assunto. Continuemos nossa trajetória com Jesus.

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