Terreno fecundo para acolher a palavra

Julia Klueva – Getty Imagens

Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém

Caros leitores, estamos no sétimo mês deste ano de 2026, e eis que a Liturgia da Palavra Dominical nos conduz à meditação sobre o terreno fecundo para acolher a Palavra. Para esta reflexão, conto com a colaboração do seminarista Eduardo Augusto Rosa de Matos.

A Liturgia deste 15º Domingo do Tempo Comum nos provoca a refletir sobre a nossa acolhida à Palavra Divina. Será que realmente ansiamos receber o Verbo de Deus? Qual tem sido a nossa resposta à sua voz?

A própria Sagrada Escritura afirma que as palavras que saem da boca de Deus não são vãs: elas têm um propósito ao serem pronunciadas e sempre produzem um efeito (cf. Is 55,10-11). Recordemos que, no início do Livro do Gênesis, apenas pela força de sua Palavra, Deus criou todas as coisas. Do caos, sua Palavra fez surgir a ordem; do nada, brotou a vida; e, onde havia vazio, manifestou-se a harmonia. Em toda a criação permanecem as “digitais” de Deus, pequenos rastros da Semente do Verbo espalhados por toda a realidade.

Como o oleiro modela a argila, Deus também nos modelou por sua Palavra. Criou-nos por amor e para amar. Em toda a obra criada, em cada cultura e na própria história humana, encontram-se sinais do Criador, vestígios de Nosso Senhor Jesus Cristo e impressões da graça do Espírito Santo. Ainda hoje, o Deus Uno e Trino continua a comunicar sua Palavra criadora, redentora e santificadora. A grande pergunta que esta Liturgia Dominical nos dirige é: como temos acolhido essa Palavra viva e eficaz?

Temos reconhecido, como proclama o salmista, que Deus visita a terra com suas chuvas, prepara o solo, abençoa as sementeiras e coroa o ano todo com sua bondade? Percebemos que seus passos são fecundos, que por onde Ele passa transborda a abundância e até mesmo o deserto floresce? Sabemos escutar o canto de alegria de toda a criação? Contemplamos e acolhemos essa realidade? Damos o devido tempo e espaço para que a graça produza seus frutos em nossa vida?

No Evangelho desta Liturgia, inserido no chamado Sermão em Parábolas (Mt 13), ouvimos que o semeador saiu para semear, independentemente da qualidade do terreno. A semente é lançada à beira do caminho, sobre o terreno pedregoso, entre os espinhos e também na terra boa. Assim procede Deus: jamais deixa de dirigir-se a nós nem de comunicar o seu amor. Todos podem ouvir sua voz, mas nem todos a acolhem.

A semente pode ser roubada pelo inimigo, perdida por causa de nossa inconstância ou sufocada pelas preocupações do mundo. Foi o que aconteceu com nossos primeiros pais, que deram ouvidos à serpente, deixaram-se seduzir pelas paixões desordenadas e sucumbiram ao desejo de grandeza. Entretanto, a Palavra de Deus continua a ecoar por toda a terra. Deus nunca se cansa de oferecer sua misericórdia; somos nós que, muitas vezes, fechamos o coração à sua Palavra de perdão.

Como exercício prático, sugerimos a experiência dos “3 Fs”: Frase, Fato e Fruto. Qual frase da Liturgia mais tocou seu coração? Que fato concreto de sua vida é iluminado por essa Palavra? E que fruto Deus deseja produzir a partir dela?

Os acolhidos da Fazenda da Esperança costumam permitir que a Palavra de Deus trate seus vícios, cure as mazelas do mundo e restaure as doenças da alma por meio desse exercício simples e profundo. A Palavra é semeada no cotidiano, no trabalho, na convivência e na espiritualidade de cada um. Não existe realidade, por mais difícil que pareça, que a Palavra de Deus não possa iluminar, renovar e transformar.

Por fim, convido todos a contemplarem Maria Santíssima, que concebeu toda a sua vida a partir da Palavra de Deus e gerou frutos por meio dela. Maria foi o terreno fecundo por excelência: ouviu, acolheu, guardou a Palavra em seu coração e permitiu que ela moldasse toda a sua existência. Assim produziu abundantes frutos de serviço, de graça, de fé e de comunhão.

Que Deus leve a bom termo a obra que começou em nós. Que sua Palavra encontre tempo, espaço e um coração disponível para produzir os frutos do Espírito Santo, configurando-nos cada vez mais ao Filho e fazendo-nos verdadeiros discípulos missionários.

A fecundidade da Palavra manifesta-se quando ela transforma nossa vida e se traduz em gestos concretos de amor, perdão e fidelidade a Deus. Quem acolhe a Palavra torna-se também semeador de esperança e paz.

Peçamos ao Espírito Santo que conserve fértil o nosso coração, removendo tudo o que impede a ação da graça, para que, alimentados pela Eucaristia e pela Sagrada Escritura, produzamos frutos que permaneçam para a vida eterna.

Carta escrita em colaboração com seminarista Eduardo Augusto Rosa de Matos.

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