Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Jesus não foi um homem solitário. Os Evangelhos falam, claramente, que ele tinha “seguidores” como discípulos. Jesus sempre esteve rodeado pelas multidões, por discípulos, alguns mais constantes, outros itinerantes, outros, certamente, permaneceram em suas casas e serviram de apoio. Os itinerantes acompanham Jesus em suas andanças, provavelmente deixando tudo para o seguir, a família, o trabalho, os amigos. Jesus dedica bastante tempo a esse grupo; às vezes, ele os envia para o trabalho que compreende anúncio do Evangelho e curas dos doentes. Um grupo mais reduzido recebe o nome de “Os Doze”, por ser constituído por 12 homens, que ele escolheu entre tantos, dos quais conhecemos os nomes e até as circunstâncias do chamado. Esse grupo não se forma por geração espontânea, nem por voluntários, nem por laços de amizade ou de sangue. Todos foram chamados e aceitaram pôr-se a serviço do Reino de Deus; isto é, submetem-se a um valor que está acima de qualquer outra recompensa.
É constante nos Evangelhos cenas em que Jesus fala às multidões que o acompanham (Mt 4,25) e ficam encantadas e assombradas com o seu ensinamento e autoridade (Mc 1,22; Mt 7,28; Lc 4,32; 71). Das multidões que andam como ovelhas sem pastor, Jesus sente compaixão (Mc 6,34). Entretanto, os sentimentos das multidões por Jesus podem mudar rapidamente, como, por exemplo, nos eventos próximos à sua paixão; ao entrar em Jerusalém (Mc 11,8), foi recebido com cânticos de louvor e forte entusiasmo (ainda que por grupos diferentes); passados alguns poucos dias, na sexta-feira, também com a aprovação do povo, foi condenado à pena capital e a morrer por crucifixão (Mc 15,13-14); pregado na cruz, foi insultado e vilipendiado pelos que passavam e o viam pendente no madeiro da cruz (Mc 15,29). Podemos pensar que os sentimentos volúveis das multidões possam estar sob o domínio de pessoas que se postam com autoridade e liderança, mas é só uma opinião. São Lucas advoga em favor do sentimento de uma multidão que assistiu ao golpe mortal contra Jesus levado à crucifixão: “E toda a multidão que havia acorrido para o espetáculo, vendo o que havia acontecido, voltou, batendo no peito” (Lc 23,48). O sentimento geral das “multidões” parece ser ambíguo em relação a Jesus. Talvez, em alguns casos, os interesses imediatos prevalecessem.
Distinto da multidão é o grupo dos discípulos, seguidores permanentes do Senhor. São Marcos os distingue nestes termos: “Jesus retirou-se com seus discípulos a caminho do mar, e uma grande multidão vinda da Galileia o seguiu” (Mc 3,7). Segundo os Evangelhos, há duas maneiras de seguir a Jesus, dois modos para se tornar discípulo do Senhor. Na primeira maneira, a iniciativa é de Jesus; é ele quem chama para o seguir. Aproveite para ler Marcos 1,15-20 e irá perceber esse modo de Jesus: é ele quem chama. À continuação, Jesus chama Levi, o publicano, com uma diferença: é mais uma convocação do que um chamado: “Ao passar, viu Levi, o filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: “Segue-me”. Ele se levantou e o seguiu” ((Mc 2,14). Levi é o mesmo Mateus. Assim foi com os outros: Simão, André, Tiago, João. Todos abandonaram suas tarefas e o seguiram. Conforme São João, os primeiros discípulos de Jesus saem do entorno de João Batista, numa verdadeira irradiação, depois que João aponta Jesus como o “Cordeiro de Deus”. Com esta indicação, forma-se o primeiro grupo de discípulos: André, Simão (Pedro), Filipe, Natanael (cf. Jo 1,35-51). O segundo modo de se tornar discípulo de Jesus é por iniciativa própria, mas a esta iniciativa Jesus impõe certas condições, como lemos em Mateus 8,18-22. Ou seja, não é possível seguir a Jesus com os olhos voltados para trás (Lc 9,57-61).
Os discípulos de Jesus, desde que decidem segui-lo, precisam mudar seu estilo de vida. É uma exigência. Sua vida agora é modelada pela vida de Jesus, o Mestre, que não se parece em nada com os rabinos conhecidos, cuja método de ensino consistia em lições dentro de uma “escola”. Ademais, apenas homens podiam frequentar as escolas rabínicas. Jesus é um Mestre diferente, cuja vida é uma visão de Deus, uma relação nova com os homens e mulheres. Jesus não está preso a um lugar, mas sua vida é itinerante, passando por todas as vilas e povoados, passando por todos os caminhos possíveis, onde ele deve anunciar o Reino. Ele e seus discípulos percorrem toda a Palestina. Esta andança obriga os discípulos a renunciarem ao que todos buscam, como a segurança de uma casa, da família, de um trabalho determinado; deixam tudo – família, barcos, redes, amigos (Mc 10,28-29). Isso não significa ir contra a família, mas subordiná-la às exigências próprias da vida de discípulo. Fidelidade ao Reino não é infidelidade à família, mas se honra mais a família quando se aceita as condições do Reino de Deus. No ensino de Jesus, há uma urgência na expansão do Reino de Deus que não pode esperar. Entre as exigências, além da renúncia aos apegos materiais, há outro comportamento refletido no Sermão da Montanha especialmente, que compromete os discípulos de Jesus a serem extensão de sua bondade no mundo, de modo constante. Neste caso, há que se evitar todo tipo de ofensa, sintetizadas nas seis antíteses constantes nesse Sermão (homicídio, adultério, divórcio, juramento, vingança e amor); assim, o Senhor adverte para a relação fraterna da qual seus seguidores devem dar testemunho (Mt 5,17-48). Certamente não é algo fácil.
Do grupo especial formado por Jesus, os chamados Doze, conhecemos os seus afazeres: quatro deles são pescadores – Simão, André, Tiago e João (Mc 1,16-20); Levi ou Mateus exercia uma profissão pouco honrosa, como cobrador de impostos (Mc 2,14); Tiago e João trabalham com o pai, Zebedeu, por conta própria (Mc 1,20); Simão Pedro vive da pesca, de onde retira o seu sustento (Mc 1,16) e é casado (Mc 1,30; 10,29); André e Filipe procedem do círculo de João Batista (Jo 1,40-45). Dos demais, há poucas informações.
Um dado incomum é a presença de mulheres como discípulas, que seguem a Jesus, além de aparecerem como exemplos apresentados por Jesus. Elas são mencionadas nas parábolas do fermento (Mt 13,33; Lc 13,20-21); da dracma perdida (Lc 15,3-10); da viúva inoportuna (Lc 18,1-5), e ainda em outros lugares. As mulheres estão presentes no ministério de Jesus na Galileia, como lemos em Lucas 8,1-3: “Depois disso, ele andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os Doze o acompanhavam, assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Susana e várias outras, que o serviam com seus bens”. Essas mulheres seguem a Jesus até a Judeia, durante todo o seu ministério, e as encontramos em Jerusalém no dia da crucifixão de Jesus. A seguir, a lista de Marcos: “E também estavam ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de Joset, e Salomé. Elas o seguiam e serviam enquanto esteve na Galileia. E ainda muitas outras que subiram com ele para Jerusalém” (Mc 15,40-41). Embora essas mulheres não sejam designadas como discípulas, não podemos pensar que não o fossem. Na comunidade primitiva, não parecia estranho que Jesus tenha tido contatos regulares com as mulheres, desde o seu encontro com a samaritana no poço de Jacó, na Samaria, nem que tenha parado junto a uma viúva em Naim, para lhe devolver o filho que havia morrido (Lc 7,13), ou que tenha curado a sogra de Pedro, que ardia em febre (Mc 1,30), e curado a mulher encurvada (Lc 13,11) e a mulher que sofria de hemorragia (Mc 5,25-34); perdoou os pecados de uma pecadora pública (Lc 7,37-47), teve compaixão da mulher adúltera (Jo 8,3-11). Advertiu-nos o Senhor que as prostituas podem, inclusive, nos preceder no Reino dos Céus.
Vou deixar para falar sobre os Doze, o círculo mais íntimo de Jesus, no próximo artigo.




