O Sermão da Montanha

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

 Acredito que todos conhecem, quase de memória, o Sermão da Montanha, um dos cinco grandes discursos de Nosso Senhor apontados por São Mateus, ao menos o texto completo das Bem-aventuranças. Na verdade, temos o Sermão da Montanha em duas versões: uma, a mais conhecida, em São Mateus, a outra em São Lucas. No primeiro Evangelho, o mais importante discurso de Jesus você o lê nos capítulos 5-7, onde o Senhor apresenta o panorama da justiça divina, que deve pavimentar e caracterizar a vida dos seus discípulos. O resultado é o acesso ao Reino de Deus. As condições para participar do Reino de Deus, Jesus as apresenta nas Bem-Aventuranças (Mt 5,3-12). Em seguida, Jesus faz uma das suas mais simples e brilhantes comparações; para caracterizar seus discípulos e dizer-lhes da importância das suas boas obras no mundo, transformadoras em si mesmas, afirma que eles devem ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-16). Continuando, o Senhor fala da perfeição da nova Lei, superior à antiga, com seis antíteses muito conhecidas (Mt 5,17-48). O versículo 48 é a conclusão desta parte: “Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito”. Na segunda parte, a partir do capítulo 6, Jesus nos convida a praticar a justiça para com Deus, ou seja, a fazer as coisas que agradam a Deus ainda que desagradem aos homens, cuja aplicação se dá na prática da esmola, da oração e do jejum (Mt 6,1-18). Jesus faz algumas recomendações para a segurança dos seus discípulos, tais como: não se preocupar tanto com os bens materiais e terrenos (Mt 6,19-34); abster-se de julgar os outros (Mt 7,1-5); não profanar o que é sagrado (Mt 7,6); rezar a Deus com confiança (Mt 7,7-11); fazer sempre o bem às pessoas, lembrando a famosa “regra de ouro” (Mt 7,12); escolher a porta estreita em lugar das facilidades apresentadas pelo mundo (Mt7,13-14) e precaver-se contra os falsos profetas (Mt 7,15-20). Ao final desta segunda parte, uma frase resume e conclui esses temas, pois o Senhor diz, como uma advertência: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).

O texto de São Lucas é bem mais curto (Lc 6,20-49). Aqui, Jesus não está em uma Montanha, mas na planície. Chama a atenção de imediato que as primeiras quatro bem-aventuranças, que prometem aos pobres e aos que sofrem o Reino de Deus, são seguidas de quatro “ais” contra aqueles que se acreditam ricos e têm no mundo suas satisfações. Jesus insiste no dever que seus discípulos têm de amar todas as pessoas, inclusive os inimigos (Lc 6,27-36), e no amor fraterno (Lc 6,37-42). Por fim, o Senhor nos adverte quanto à importância e a necessidade das boas obras daqueles que o seguem. Este código de comportamento é extraordinariamente revolucionário, se comparado aos padrões sociais famigerados de ataques aos outros “para se dar bem”.

Não há dúvida de que o Sermão da Montanha apresenta uma nova moral que, aparentemente contraposta à ética do Sinai, comporta exigências novas superiores para os seguidores de Jesus. Isto está de acordo com a doutrina que ensina que todo ato humano é um ato moral. Isto vai ao encontro da aspiração de todo homem, que anseia por Deus, pelo máximo da vida, mas sabe que o máximo passa pelas pequenas coisas e cotidianas da vida, pelo concreto com o qual convivemos. Então o Senhor não nos pede coisas impossíveis, mas perfeitas, a partir das condições concretas da vida que vivemos nesta terra. Neste caso, essas condições não são de modo nenhum exclusivas para uma categoria de pessoas, mas um caminho para todos os discípulos de Jesus.

Aconselho que você leia os dois textos do Sermão da Montanha, o de São Mateus, mais extenso, e o de São Lucas. No próximo artigo, farei um quadro com alguns temas, que, penso, podem nos ajudar na compreensão e aplicação do ensinamento de Nosso Senhor.

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