Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo auxiliar de Belém
Caros leitores,neste domingo em que celebramos a Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria, somos convidados a refletir sobre o sentido da vocação. Ajuda-me nesta reflexão Sylvia Calandrini, licenciada em Letras e professora do Instituto Vicentino Catarina Labouré.
Há uma pergunta que acompanha a humanidade: para que existimos? Em tempos marcados pela pressa e pelo individualismo, a fé cristã oferece uma resposta: existimos porque fomos chamados. A vida não é fruto do acaso, mas de um amor que nos precede. Cada pessoa recebe de Deus uma vocação, isto é, um chamado para amar, servir e contribuir para a construção da fraternidade.
O Evangelho de Lucas (1,39-56) apresenta Maria visitando Isabel. O encontro entre as duas mulheres revela que a verdadeira vocação nunca nos fecha em nós mesmos. Depois de acolher o anúncio do anjo, Maria “levantou-se e foi às pressas” para servir. Deus faz morada em seu coração para que, por meio dela, sua presença alcance outros corações. Assim também acontece conosco: responder ao chamado de Deus é permitir que Ele transforme nossa vida e nos envie ao encontro dos irmãos.
O Concílio Vaticano II recorda que “todos na Igreja são chamados à santidade” (Lumen Gentium, 39). Esse chamado alcança pais e mães, jovens, crianças, idosos, profissionais, estudantes e todas as pessoas de boa vontade. Há também aqueles que respondem por meio da vida consagrada, testemunhando, pelos votos de pobreza, castidade e obediência, que Deus é o verdadeiro tesouro da existência. Religiosos e religiosas – mais fortemente neste dia, em que se celebra o dia da Vocação Consagrada – recordam ao mundo que a fraternidade nasce da entrega generosa e que toda vida oferecida por amor torna visível o Reino de Deus.
Vivemos, porém, uma cultura que identifica sucesso com prestígio e poder. O Evangelho propõe outro caminho. Maria oferece disponibilidade e serviço. Seu Magnificat anuncia um Deus que exalta os humildes, sacia os famintos e chama todos a construir uma sociedade mais justa. Quem acolhe Deus não permanece indiferente diante da pobreza, da violência, da exclusão ou da destruição da Casa Comum.
A Doutrina Social da Igreja insiste que a dignidade da pessoa humana, o bem comum e a solidariedade devem orientar a vida social. A vocação cristã, portanto, não se limita ao espaço do templo. Ela se manifesta quando um médico trata cada paciente com respeito; quando um professor acredita na capacidade de seus alunos; quando um empresário promove condições dignas de trabalho; quando uma família acolhe um idoso; quando um jovem recusa a violência e escolhe construir a paz; quando um cidadão protege a criação e combate o desperdício. Pequenas escolhas cotidianas tornam-se sinais concretos da presença de Deus.
São Vicente de Paulo ensinava que “o amor é inventivo até ao infinito”, enquanto Santa Teresa de Calcutá lembrava que “podemos fazer pequenas coisas com grande amor”. Essas palavras mostram que a vocação se realiza na fidelidade cotidiana. O papa Francisco, na Fratelli Tutti, recorda que somos chamados a reconhecer cada pessoa como irmão e irmã, colocando nossos dons a serviço do bem comum.
Na Amazônia, esse chamado ganha um significado especial. Somos convidados a cuidar da criação, valorizar os povos originários, defender a dignidade humana e promover a paz. Deus continua chamando homens e mulheres capazes de transformar esperança em compromisso concreto.
A Assunção de Maria nos recorda o destino glorioso reservado aos que permanecem fiéis. Nela contemplamos aquilo que a graça deseja realizar em todos nós. Talvez a pergunta decisiva não seja apenas “qual é a minha vocação?”, mas “quem encontra Deus por meio da minha vida?”. Quando nossas palavras consolam, nossas mãos repartem e nossas escolhas constroem pontes, tornamo-nos, como Maria, morada de Deus no mundo, edificando uma sociedade verdadeiramente fraterna.
Neste mês vocacional, deixemos chegar aos jovens uma pergunta que pode transformar toda uma existência: e se Deus estiver chamando você para uma entrega maior? A Vida Consagrada Religiosa continua sendo um caminho belo e fecundo para quem deseja fazer de toda a sua vida uma oferta de amor, oração, fraternidade e serviço. Jovem, não tenha medo de escutar a voz de Deus! Permita-se fazer silêncio, rezar, discernir e perguntar ao Senhor: “O que queres de mim?”. Talvez, no desejo de seguir Jesus mais de perto, você descubra que sua vida pode ser uma morada onde Deus acolhe, consola e transforma o mundo. A Igreja e a humanidade precisam de jovens dispostos a dizer, como Maria: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).



