O futuro, para muitos estudantes, não é uma ideia distante. Ele tem rosto, nome, lugar e desejo. Pode estar na escola que se quer construir, na comunidade que se deseja transformar, na paz que ainda precisa ser alcançada ou na esperança de viver em uma sociedade mais justa.
Foi a partir dessa compreensão que estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Gaspar Viana, em Marabá (PA), participaram do projeto “Cartas para o Futuro: Desenhando Novos Mapas da Esperança”, uma iniciativa da Pastoral da Educação do Regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB N2) para marcar o encerramento da Semana do Estudante.
A ação valorizou o protagonismo juvenil e criou um espaço para que os estudantes pudessem escrever, refletir e partilhar suas expectativas sobre o futuro. Mais do que uma atividade escolar, as cartas se tornaram instrumentos de escuta, participação e diálogo entre os jovens, a Igreja e a sociedade.
Durante o encontro de estudantes, realizado na Catedral Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, as cartas foram socializadas. Dois estudantes também escreveram mensagens dirigidas ao Papa Leão XIV e a Dom Vital Corbellini, bispo da Diocese de Marabá e referencial para a Educação no Regional Norte 2, estabelecendo um diálogo simbólico entre a juventude e as lideranças que participam da missão educativa e evangelizadora da Igreja.
Ao escrever para o futuro, os estudantes não se colocaram apenas como espectadores do tempo. Eles se reconheceram como sujeitos capazes de participar das decisões e de contribuir para a transformação da sociedade. Suas cartas expressaram sonhos de uma educação de qualidade, de relações mais humanas, de respeito às diferenças, de justiça social, de paz e de cuidado com a Casa Comum.
A experiência também reafirmou a escola pública como espaço de aprendizagem, convivência e formação cidadã. Educar não significa apenas transmitir conteúdos, mas ajudar cada estudante a interpretar a realidade, reconhecer sua dignidade e compreender que sua vida pode contribuir para o bem comum.
Essa perspectiva está em sintonia com a Carta Apostólica “Traçar Novos Mapas de Esperança”, do Papa Leão XIV. No documento, o Pontífice recorda que a educação não é uma atividade acessória, mas uma forma concreta de tornar o Evangelho relação, cultura e compromisso com a vida. Para ele, as comunidades educativas são chamadas a construir pontes diante de um mundo marcado por mudanças, incertezas e fragmentações.
O legado do saudoso Papa Francisco também ilumina a iniciativa. Ao defender uma aliança educativa entre família, escola, Igreja e sociedade, Francisco insistia que a educação deveria formar pessoas capazes de cuidar umas das outras e do mundo. O projeto realizado em Marabá traduziu essa proposta em um gesto simples e profundo, os estudantes foram convidados a falar, e a comunidade se dispôs a escutar.
Para a professora Lady Anne Souza, coordenadora regional da Pastoral da Educação do Regional Norte 2, cada carta representa uma expressão de esperança e responsabilidade. “Cartas para o Futuro nasce como um gesto concreto de escuta e valorização dos estudantes. Cada carta representa um sonho, uma esperança e um compromisso com a transformação da realidade”.
O projeto também foi uma forma de educar para a paz e para a justiça. Em um tempo marcado por polarizações, violência, intolerância e desigualdades, ensinar os jovens a expressarem seus sonhos e a dialogarem sobre o futuro é contribuir para a construção de uma sociedade mais humana. A paz começa na maneira como as pessoas aprendem a ouvir, respeitar e reconhecer o outro. Por isso, uma escola que promove o diálogo já realiza uma importante ação transformadora. A educação também precisa ajudar os estudantes a compreender que cidadania é participação, defesa de direitos, cuidado com o território e compromisso com a dignidade humana.
Na realidade amazônica, essa missão ganha um significado especial. Educar é ajudar os jovens a reconhecerem a riqueza de seus territórios, a história de seus povos, a importância dos rios e da floresta e os impactos provocados pela exploração predatória da natureza. O cuidado com a Casa Comum está diretamente ligado à defesa das comunidades, das águas, dos povos tradicionais e do direito das novas gerações a um futuro possível.
A presença da Pastoral da Educação nesse processo mostra que a Igreja é chamada a caminhar com os estudantes, e não apenas a falar para eles. A evangelização no campo educativo exige proximidade, diálogo e disposição para aprender com as novas gerações, reconhecendo os jovens como sujeitos da missão.
Nesse caminho, Dom Vital Corbellini, referencial para a Educação no Regional Norte 2, participa do esforço de aproximar Igreja, escola e juventude. Essa presença fortalece uma pastoral que reconhece a educação como espaço de missão, diálogo, formação cidadã e transformação social.
As cartas continuam provocando perguntas depois do momento em que foram escritas, como, que futuro está sendo preparado para os jovens? Que escola está sendo construída? Que sociedade será deixada para as próximas gerações? Estamos realmente ouvindo os estudantes e criando condições para que seus sonhos não sejam sufocados pela violência, pelo racismo, pela pobreza ou pela falta de oportunidades?
Por isso, “Cartas para o Futuro: Desenhando Novos Mapas da Esperança” ultrapassa os limites de uma atividade da Semana do Estudante. A iniciativa convida a uma conversão permanente do olhar e das práticas educativas, lembrando que a esperança precisa ser escutada, educada e transformada em compromisso.
Para a professora de Língua Portuguesa da Escola Estadual de Ensino Médio Dr. Gaspar Vianna o projeto ajuda os estudantes a pensarem em seus futuros, suas expectativas. “A proposta convida os estudantes a escreverem cartas sobre seus sonhos e expectativas para o futuro. Foi uma experiência incrível e muito enriquecedora. Iniciamos com um momento de acolhida, seguido pela produção das cartas para o futuro. Depois, realizamos a leitura e um debate, no qual os estudantes puderam compartilhar suas experiências, falar sobre seus sonhos e refletir sobre os obstáculos que encontram para realizá-los. Também conversamos sobre a importância da parceria, da educação e do apoio mútuo na construção desses caminhos. Foi um projeto muito bonito e significativo para todos nós”, contou emocionada a professora.
Ileani, aluna do 2º ano do Ensino Médio, encontrou na experiência do projeto uma forma de expressar seus sentimentos, “a importância deste projeto para nós, estudantes, está na possibilidade de expressarmos o que sentimos e de usarmos a nossa voz para falar sobre os nossos anseios, especialmente em relação à carreira profissional e ao futuro. O projeto também nos ajuda a manter a esperança e a acreditar que podemos construir uma vida melhor por meio da educação, da dedicação e da realização dos nossos sonhos”.
A música ‘Coração de Estudante’ do cantor Milton Nascimento, fez Daniel, aluno do 3º ano do ensino medio refletir “achei muito importante participar deste projeto, porque ele trabalhou a música ‘Coração de Estudante’, que fala sobre plantar, colher e acreditar que, com o tempo, podemos florescer. A música nos ajuda a refletir sobre os momentos que vivemos e sobre a importância da juventude. Este é um período fundamental para cultivar sonhos, aprender, fazer escolhas e preparar o futuro. É também um tempo de esperança, no qual podemos plantar bons sentimentos, conhecimentos e atitudes para que, mais adiante, possamos florescer”, disse com muitos sonhos desejados para seu futuro.
No coração da Catedral Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, os estudantes fizeram da palavra uma forma de oração e da esperança uma forma de participação. Suas mensagens ao Papa Leão XIV e a Dom Vital Corbellini tornaram-se pontes entre a juventude e a Igreja, entre a escola e a comunidade, entre os sonhos pessoais e a responsabilidade coletiva.
A experiência vivida em Marabá mostra que ainda é possível desenhar novos caminhos. Quando a educação escuta os jovens, quando a Igreja caminha com eles e quando a sociedade se dispõe a aprender, os mapas do futuro deixam de ser apenas imaginação e passam a indicar uma direção, a construção de um mundo mais humano, fraterno, justo e cuidadoso com a Casa Comum.
Fonte: Regional Norte 2 / Por VívianMarler




