Respirar ar puro, ter acesso à água potável e viver em um território protegido dos impactos dos eventos climáticos extremos são direitos fundamentais. Foi a partir dessa compreensão que a ‘Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais (IRI Brasil)’ apresentou, em Macapá, a nova edição da campanha “Pelo Direito de Respirar Ar Puro, Acesso à Água Potável e Segurança Climática”.
A iniciativa busca sensibilizar comunidades da Amazônia Legal para os efeitos das mudanças climáticas, das queimadas, do desmatamento e da degradação dos recursos naturais. Mais do que divulgar informações, a campanha pretende ajudar a população a compreender como as transformações ambientais afetam a vida cotidiana e quais atitudes podem ser adotadas diante dos riscos.
Em uma região onde os rios, as florestas e o clima estão diretamente ligados à sobrevivência das comunidades, falar de segurança climática é falar também de saúde, alimentação, moradia, trabalho, deslocamento e futuro. Quando a floresta é destruída, não se perde apenas uma paisagem. São atingidos os modos de vida, a cultura, a economia e a dignidade de pessoas que dependem diretamente do equilíbrio ambiental.
Como parte da campanha, a IRI Brasil disponibilizou uma coleção de 72 guias educativos, produzidos para transformar informações científicas em conhecimentos acessíveis e aplicáveis à realidade dos territórios amazônicos.
Os materiais abordam temas como qualidade do ar, recursos hídricos, queimadas, desmatamento, eventos climáticos extremos e seus impactos sobre a população. Para facilitar a compreensão, os guias utilizam infográficos, recursos visuais e narrativas inspiradas em situações reais vividas nos estados que compõem a Amazônia Legal.
A proposta é aproximar a ciência do cotidiano. Em vez de tratar as mudanças climáticas como um problema distante ou restrito a especialistas, os conteúdos ajudam a perceber como a fumaça das queimadas, a contaminação das águas, a redução dos períodos de chuva e o aumento das temperaturas interferem na saúde e na vida das comunidades.
A campanha também reconhece o papel das comunidades religiosas na formação da consciência e na mobilização social. Ao todo, foram produzidas 63 versões dos guias para comunidades de fé, adaptadas a sete tradições religiosas, católica, evangélica, espírita, judaica, islâmica, de matriz africana e comunidades ayahuasqueiras.
Além desses materiais, foram produzidas nove versões destinadas ao público geral, incluindo escolas, instituições públicas, organizações da sociedade civil e demais interessados.
Embora utilizem linguagens e referências culturais diferentes, os guias preservam a mesma base científica. A adaptação permite que o conteúdo dialogue com as experiências próprias de cada comunidade, respeitando a diversidade religiosa e cultural da Amazônia.
A iniciativa parte da compreensão de que o cuidado com a criação não é responsabilidade de um único grupo. Ele envolve governos, instituições de ensino, organizações sociais, comunidades tradicionais, lideranças religiosas e toda a sociedade.
Para as tradições religiosas, a defesa da natureza está ligada à defesa da vida. Cuidar das florestas, dos rios e do ar é também cuidar das pessoas que vivem nesses territórios e das futuras gerações.
O coordenador da IRI Brasil, Carlos Vicente, destaca que viver com dignidade depende de um ambiente saudável e seguro. A Constituição Federal, em seu artigo 225, reconhece o direito de todos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. A campanha pretende contribuir para que esse direito seja conhecido e defendido pelas populações amazônicas.
A informação, nesse caminho, torna-se uma ferramenta de participação. Uma comunidade que conhece os riscos que enfrenta também pode cobrar políticas públicas, acompanhar decisões, fortalecer iniciativas locais e exigir responsabilidade dos diferentes setores envolvidos na proteção ambiental.
Em Macapá, o lançamento da campanha reforçou a importância de ampliar o diálogo sobre a realidade climática do Amapá e de toda a Amazônia. O estado possui uma relação profunda com os rios, as florestas, as comunidades ribeirinhas, os povos tradicionais e os territórios urbanos que também enfrentam os efeitos das mudanças ambientais.
Além dos guias, a campanha disponibiliza vídeos, spots de rádio, cards para redes sociais e outros materiais de comunicação. A intenção é apoiar ações de educação socioambiental em escolas, comunidades religiosas, organizações sociais e instituições públicas.
Essa diversidade de formatos permite que a mensagem alcance diferentes públicos e seja utilizada em rodas de conversa, encontros formativos, celebrações, atividades escolares, campanhas comunitárias e ações de mobilização.
A comunicação, nesse contexto, deixa de ser apenas divulgação. Ela se transforma em instrumento de conscientização e cuidado. Uma informação clara pode ajudar uma família a reconhecer os riscos da fumaça; uma atividade escolar pode despertar o cuidado com a água; uma conversa em comunidade pode fortalecer a defesa de um território ameaçado.
A campanha da IRI Brasil também ajuda a superar a ideia de que a preservação da Amazônia é uma tarefa exclusiva dos povos que vivem na região. A floresta influencia o clima, a produção de alimentos, o regime das águas e a qualidade de vida de todo o país.
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que as populações amazônicas são as primeiras a sentir os efeitos da degradação ambiental. São elas que enfrentam a fumaça das queimadas, a escassez ou contaminação da água, a perda de áreas de cultivo, as dificuldades de deslocamento e os impactos dos eventos climáticos extremos.
Por isso, qualquer política de proteção ambiental precisa ouvir as comunidades e respeitar seus conhecimentos, suas culturas e seus modos de vida. Não há segurança climática sem justiça social, assim como não existe cuidado com a Casa Comum sem defesa da dignidade humana.
A campanha apresentada em Macapá propõe uma esperança que não se confunde com espera passiva. Esperar, neste caso, significa agir, formar, informar e construir alianças.
As comunidades religiosas podem contribuir promovendo encontros e reflexões. As escolas podem transformar os guias em ferramentas pedagógicas. As organizações sociais podem fortalecer a mobilização nos territórios. As instituições públicas podem ampliar políticas de prevenção, proteção e resposta aos desastres climáticos.
Cada pessoa também pode assumir atitudes concretas: cuidar da água, reduzir o desperdício, proteger as áreas verdes, evitar queimadas, compartilhar informações confiáveis e participar das decisões que envolvem o futuro da comunidade.
Respirar ar puro, beber água potável e viver em segurança não são privilégios. São direitos. E defender esses direitos é uma forma de proteger a vida presente e futura.
Ao aproximar ciência, fé e compromisso social, a IRI Brasil convida a Amazônia a olhar para seus desafios sem perder a esperança. O futuro da região não será construído apenas por grandes projetos ou decisões tomadas à distância, mas também pelos gestos cotidianos de comunidades que se organizam, cuidam de seus territórios e escolhem permanecer unidas na defesa da vida.
Os materiais da campanha estão disponíveis gratuitamente no site www.iribrasil.org e podem ser utilizados por comunidades religiosas, escolas, organizações sociais, instituições públicas e demais interessados em promover a educação climática e o cuidado com as águas e as florestas.
Fonte: Regional Norte 2 / PorVívianMarler




