É preciso ética no uso da IA

Diz coordenadora da Pastoral da Comunicação da CNBB

Imagem ilustrativa / Crédito: Shutterstock
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Diferentes dioceses do Brasil vêm proibindo ou regulamentando o uso da inteligência artificial na produção de cartazes, flyers, anúncios, até que haja uma formação adequada sobre isso. Segundo a coordenadora da Pastoral da Comunicação Brasil (Pascom Brasil), Janaína Gonçalves, não há uma orientação nacional sobre a questão. Para ela, a IA pode ser utilizada, mas é preciso priorizar “o senso crítico, a corresponsabilidade, a ética”.

“De fato, bastou uma diocese fazer isso para várias outras fazerem também. Primeiro fator é que a gente encara isso como processo comunicacional de manada, porque é bem comum isso acontecer, você vê uma e, de repente, outras estão aparecendo”, disse. “Oficialmente falando, a Pascom Brasil, ou mesmo a comunicação da CNBB, não emitiu nenhuma comunicação oficial que fale que a partir de hoje pedimos que paróquias e dioceses não usem mais a inteligência artificial, ou que fique suspenso até segunda ordem”, acrescentou. Até porque, como a própria Janaína ressaltou, “cada diocese tem total autonomia para isso”. As conferências episcopais não têm poder sobre os bispos.

Segundo Janaína, em muitos lugares “estão usando a inteligência artificial de maneira muito indiscriminada, sem qualquer cuidado”, e o resultado tem sido certa padronização dos conteúdos, imagens que não condizem com a realidade.

“O próprio papa Leão XIV repete mais de uma vez na última carta dele para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a gente precisa preservar aquilo que é genuinamente nosso, inclusive a criatividade humana”, disse a coordenadora.

Senso crítico

Para Janaína, “não há problema” no uso da IA, mas “o senso crítico, a ética, diante dessas criações, precisam falar mais alto do que a nossa necessidade de comunicar aquilo”.

“O problema, a gente reconhece, está justamente quando a gente cria, a gente busca essa ajuda da inteligência artificial sem vislumbrar o que está saindo daquilo”, disse. Ela ressaltou que um agente da Pastoral da Comunicação deve “entender o que é comunicar, seja por imagem, por vídeo, por layout… e entender que as formas de comunicar são várias, desde quando você coloca muita coisa até quando você não coloca quase nada, você está comunicando algo também”.

“Então, eu penso que parte muito mais de nosso senso crítico, e isso é algo que a gente vai construindo, não é algo que você vai aprender na internet”, disse. Para Janaína, “isso fala sobre a corresponsabilidade, isso fala sobre ética”. “Por isso que essa questão da inteligência artificial não é – o próprio papa Leão fala isso – só uma questão de tecnologia, ela é uma questão antropológica, porque fala sobre quem somos, onde somos, o que vivemos, fala da nossa sociedade, fala de como a gente vive entre as pessoas, fala sobre tudo isso”.

Janaína contou que tem recebido conteúdos que mostram um “uso indiscriminado” da IA por parte de algumas pastorais da comunicação, seja com imagens de santos ou mesmo de padres, bispos, descaracterizadas. “Eu não estou dizendo que é ruim usar, porque a gente usa. Mas, é sempre o equilíbrio, é esse equilíbrio que a gente tem visto que tem faltado, e o senso crítico e a ética de trabalhar a inteligência artificial com responsabilidade mesmo”, disse.

Janaína Gonçalves notou também certa perda de identidade nos materiais feitos pela Pascom de dioceses e paróquias. “Quando você olha o feed de algumas dioceses, algumas paróquias, está literalmente tudo parecido, a mesma tipografia, o mesmo layout, às vezes, até as mesmas cores”, disse.

Diante disso, a coordenadora da Pascom Brasil disse que a pastoral tem buscado fazer com que seus membros entendam “que eles estão sendo ditados pela própria inteligência artificial, ou seja, é a inteligência artificial que está criando a identidade deles”.

“E tem que ser o contrário”, disse. “Nós é que vamos ditar para essas tecnologias quem nós queremos ser. Nós já sabemos, a paróquia já sabe quem ela é. Só que é preciso reforçar isso, inclusive para uma plataforma que não os conhece, que não conhece a história, que não tem condição humana de conhecer toda a trajetória da paróquia, que não tem condição de conhecer até mesmo os elementos que a identificam”, disse. Ela citou o exemplo de uma “paróquia que tem a identidade porque é de uma congregação religiosa e tem que privilegiar uma cor, tem que privilegiar um detalhe do logo da paróquia”.

Segundo Janaína, muitas vezes, essa comunicação das paróquias está “perdendo a identidade porque nós não estamos tendo o cuidado de entender que do outro lado é uma robotização que não entende, que não tem a capacidade de compreender aquilo que é humano, aquilo que, de fato, tem a ver com a identidade daquele lugar”.

Para ela, é preciso que os agentes pastorais “agucem um pouco mais” a “criatividade”, porque a identidade da comunidade paroquial “é inegociável no nosso ambiente de comunicação eclesial”.

Necessidade de formação

Para Janaína, o que se tem visto atualmente “é um boom” em relação às discussões sobre inteligência artificial, “é o momento de falar sobre isso”. “Daqui a pouco”, ressaltou, “tudo isso dá uma baixada, mas a gente não deixa de falar”.

A coordenadora da Pascom Brasil destacou que o tema não começou a ser abordado na Igreja agora. “É algo que a própria Igreja já pede para ter um discernimento crítico há muito tempo, o papa Francisco já falava isso”, disse. Em janeiro de 2025, o Dicastério para a Doutrina da Fé e o Dicastério para a Cultura e a Educação publicaram a nota conjunto Antiqua et nova, sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana. O papa Leão XIV falou sobre o tema na mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, com o título “Preservar vozes e rostos humanos”, e na encíclica Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial.

Segundo Janaína, há conteúdos, o que “é preciso é que o agente da Pascom busque essa formação”. “Existem pessoas que dão informação sobre isso, existem documentos, existem artigos, e muitas vezes o agente da Pascom não para, não senta na frente de um computador, ou até mesmo do próprio celular, e não consegue parar um pouco e estudar sobre este assunto”, o que predomina é o “imediatismo” de produzir e publicar.

Ela citou o Encontro Nacional da Pascom, que aconteceu em julho, em Aparecida (SP), em que aconteceram oficinas sobre inteligência artificial, e contou que já estão sendo organizadas outras iniciativas com esse propósito.

A coordenadora nacional da pastoral contou que a coordenação da Pascom Brasil vai se reunir em outubro com a Comissão para a Comunicação da CNBB, em Brasília, para planejar o próximo quadriênio e o tema da inteligência artificial deve ser abordado. Segundo ela, a pastoral está “num processo de atualizar o guia de implantação da Pascom, que é um documento de 2018” e que será “impresso novamente de maneira atualizada”. A inteligência artificial “é um ponto que vai ser crucial também nesse próximo documento”, disse.

Fonte: ACI Digital / Por Natalia Zimbrão

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