Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
O Sermão da Montanha é uma declaração de compromissos que orienta a nossa vida de cristãos no mundo e determina o nosso comportamento em relação às pessoas com as quais nos envolvemos. É, sem dúvida, o estatuto fundamental do Reino de Deus, ou, como é preferível, do Reinado de Deus, do governo do Senhor. Certamente é uma instrução específica, muito especial, aos discípulos de Jesus quanto à natureza da vida no âmbito do espaço sagrado, isto é, do Reino de Deus, uma exigência que nos propomos cumprir, rigorosamente. O tema a seguir que lhe apresento é sobre o impacto que este novo comportamento terá no mundo; ele é consequência das bem-aventuranças.
O começo deste discurso é um choque de realidade, pois o Senhor diz que os seus discípulos não podem esperar aprovação neste mundo, senão perseguição, ainda que a perseguição traga consigo o dom da felicidade. O Senhor diz, portanto: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois, quando vos injuriarem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós” (Mt 5,10-12). Entretanto, é nesse ambiente hostil que os discípulos de Jesus devem ir como “sal e luz”.
O tema do “Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-16) aparece na forma de duas pequenas metáforas que mostram o modo de vida dos discípulos de Jesus com a força de impregnar todo o ambiente no qual vivem. O impacto de ser sal e luz é tão devastador, que é impossível não sentir os seus efeitos. Leia o texto a seguir:
“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que o salgaremos? Para nada mais serve, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Nem se acende uma lâmpada e se coloca debaixo do alqueire, mas na luminária, e assim ela brilha para todos os que estão na casa. Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,13-16; cf. Mc 9,49-50; Lc 14,34-35).
Ainda que não seja minha intenção explicar os textos sagrados, não custa dizer que o que lemos acima demonstra a enorme confiança que o Senhor deposita em nós e nos provoca a confiar nos dons que ele nos dá para o testemunho do seu Nome. Não é, portanto, sem um propósito que usa o “Sal” e a “Luz” para falar-nos da importância e da relevância que nós, cristãos, temos no mundo. O sal, por exemplo, não apenas conserva os alimentos, mas, sobretudo, como símbolo da sabedoria, tem a capacidade de nos preservar para a eternidade. No Antigo Testamento, entre outros significados, o sal era sinal da inviolabilidade da Aliança com Deus (Lv 2,13). Sobre isto, gosto de lembrar que os cristãos somos no mundo o que a alma é no corpo, como dizia o autor da Carta a Diogneto.
Um detalhe que pode passar despercebido é o sentido real da frase de Jesus: “se o sal se tornar insosso, com que o salgaremos? Para nada mais serve, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens”. O inimigo natural do sal nas terras da Palestina era a umidade, que fazia o sal perder sua força de salgar, e neste caso será jogado fora como lixo comum nos caminhos da região. O livro do Eclesiástico situa o sal entre as quatro coisas mais necessárias para a vida humana: “Para a vida do homem as coisas mais necessárias são a água, o fogo, o ferro e o sal” (Eclo 39,31), e cita também “a farinha de trigo, o leite e o mel, o suco da uva, o óleo e a veste”. Diz-se que nas crianças recém-nascidas passava-se o sal em todo o corpo, para ficarem fortalecidas. Hoje, os médicos recomendam que se retire o sal quase que completamente da dieta alimentar, sob a alegação de faz mal à saúde. Mas o Senhor Jesus nos pede que tenhamos “sal” em nossas relações e sejamos sal no meio em que vivemos e trabalhamos.
Comparação não muito diferente é a da luz, cujos raios luminosos não podem passar despercebidos. O sentido é o mesmo, pois realça a força do testemunho dos discípulos de Jesus no mundo. Não importa muito se a lâmpada está dentro de casa ou se a cidade foi construída sobre um monte; ambas não se podem esconder. Os discípulos de Jesus também não apenas estão expostos, mas não ficam sem mostrar a força de Deus que brilha em seu coração para renovar o mundo, pelo modo correto de se relacionarem com o mundo, ou seja, com as realidades temporais. O Apóstolo São Paulo chama os cristãos de “filhos da luz” (I Ts 5,5) para dizer que a luz que brilha neles são as obras boas, que vêm pela vida nova que receberam de Cristo, luz do mundo, com a capacidade de transformação dessas realidades temporais.




