Marajó promove formação sobre voto livre, responsável e consciente

Com a proximidade das eleições, a Prelazia do Marajó transformou a formação virtual em um espaço de escuta, reflexão e compromisso com a democracia. Conduzida na noite de quarta-feira (9) por Dom José Ionilton Lisboa, bispo da Prelazia, a live “A Igreja e as eleições: voto livre, responsável e consciente” convidou comunidades, pastorais e eleitores a olhar para o voto não apenas como um direito, mas também como uma responsabilidade diante do bem comum e da vida do povo.

A formação faz parte de um caminho iniciado pela Prelazia em março deste ano, a partir dos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja. Ao longo dos encontros, a relação entre Igreja, política e eleições vem sendo apresentada como uma oportunidade de participação cidadã, especialmente para os cristãos leigos e leigas.

A reflexão teve início com a oração do Salmo 72, que apresenta o governante como alguém chamado a exercer a justiça, defender os pobres e promover a paz. Também foram recordados trechos do livro dos Provérbios sobre a prática da justiça, o direito e a escuta do clamor dos pobres.

Ao relacionar a oração com o momento político, Dom Ionilton destacou que a política, quando orientada para o bem comum, pode ser compreendida como uma forma concreta de serviço. Ele lembrou a afirmação do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, segundo a qual “a política é uma sublime vocação e uma das formas mais preciosas da caridade”, justamente porque busca o bem comum.

Durante a live, o bispo também retomou ensinamentos do Documento de Puebla e mensagens recentes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Entre os critérios apresentados para o discernimento eleitoral estão o compromisso dos candidatos com a educação de qualidade, a moradia digna, o acesso à saúde, a justiça socioambiental, a defesa dos mais vulneráveis e a promoção da vida. “Importam tanto as eleições para o Poder Executivo como para o Poder Legislativo”, recordou Dom Ionilton, ao destacar que os eleitores precisam observar não apenas as propostas para os governos, mas também a atuação de deputados e senadores na construção de políticas públicas e no enfrentamento das causas estruturais da pobreza.

Um dos principais pontos da formação foi a defesa da liberdade do voto. Para Dom Ionilton, nenhuma liderança religiosa, autoridade política, empregador ou familiar pode impor ao eleitor a escolha de determinado candidato ou candidata.

“O voto é livre”, repetiu o bispo ao longo da reflexão. Ele alertou que o uso do púlpito, de celebrações religiosas ou da autoridade de padres, bispos e pastores para transformar espaços de fé em comícios constitui uma forma de pressão e desrespeita a consciência dos eleitores.

Também foi abordado o assédio eleitoral praticado em ambientes de trabalho, especialmente quando funcionários são ameaçados de demissão ou pressionados a votar em determinado candidato. Segundo Dom Ionilton, a liberdade de escolha precisa ser protegida para que o processo eleitoral seja realmente democrático.

A formação reforçou ainda a importância de votar de maneira consciente e responsável. Isso significa conhecer as propostas, a trajetória dos candidatos, os partidos aos quais estão vinculados e os compromissos assumidos durante a campanha. “Votar não é escolher apenas uma pessoa, mas projetos e prioridades para a sociedade”, foi uma das ideias centrais apresentadas durante o encontro.

A compra e a venda de votos também receberam atenção especial. Ao tratar do tema, Dom Ionilton afirmou que o voto não pode ser transformado em mercadoria e alertou para as consequências desse tipo de prática.

A reflexão destacou que tanto quem compra quanto quem vende votos pode responder legalmente pelo crime. O bispo lembrou ainda que a compra de votos muitas vezes está associada ao uso de dinheiro de origem ilícita, ao desvio de recursos públicos, à corrupção e ao abuso do poder econômico. “Voto não tem preço. Voto tem consequência”, foi a mensagem reforçada durante a live.

Dom Ionilton também chamou atenção para situações em que eleitores recebem dinheiro ou vantagens de diferentes candidatos, mesmo pretendendo votar em outro nome. Para ele, a prática continua sendo problemática, porque alimenta uma estrutura de corrupção e compromete a responsabilidade cidadã.

Por ser realizada pela Prelazia do Marajó, a formação também trouxe para o centro do debate os desafios vividos pelas populações amazônicas. Dom Ionilton convidou os participantes a observar quais candidaturas apresentam propostas concretas para a preservação da Amazônia, dos rios e das florestas, além da defesa dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais e agricultores familiares.

Entre os temas considerados importantes para o discernimento eleitoral estão o saneamento básico, a saúde pública, a educação, a agricultura familiar, a proteção dos territórios tradicionais e o enfrentamento às mudanças climáticas e aos crimes ambientais.

A perspectiva apresentada foi a da ecologia integral, que compreende a proteção do meio ambiente em relação direta com a justiça social. Cuidar da Amazônia, nesse sentido, significa também cuidar das pessoas que vivem nos territórios e que são as primeiras a sofrer com as enchentes, secas, queimadas, desmatamento, poluição e falta de serviços públicos.

A live também contou com a apresentação do projeto ‘Encantar a Política – Educação Política Brasil 2026’. O material, elaborado por organizações ligadas à Igreja e à sociedade civil, propõe encontros de formação sobre democracia, políticas públicas, ecologia integral, participação cidadã e responsabilidade dos eleitores.

Foi destacado que o caderno pode ser utilizado por famílias, comunidades, pastorais, grupos de juventude, escolas, sindicatos e organizações populares. A proposta é ajudar as pessoas a compreenderem melhor o funcionamento da política e a participarem das eleições de forma ativa, crítica e responsável.

Outro alerta apresentado foi sobre a circulação de informações falsas nas redes sociais. Vídeos, áudios, imagens, pesquisas eleitorais e mensagens aparentemente jornalísticas podem ser manipulados para provocar medo, ódio, indignação ou confusão.

A orientação central do projeto foi resumida em uma frase: “Antes de votar, informe-se. Antes de compartilhar, verifique. Antes de acreditar em uma promessa, procure saber se ela será realizada”.

Entre os cuidados recomendados estão verificar a fonte da informação, conferir a data da publicação, buscar outros veículos confiáveis, consultar órgãos oficiais e desconfiar de mensagens que pedem compartilhamento imediato ou apelam para o pânico e a revolta.

Ao final, Dom Ionilton lembrou que a cidadania não termina no dia da eleição. Depois de escolher seus representantes, os cidadãos precisam acompanhar os mandatos, fiscalizar as decisões, participar dos conselhos e espaços comunitários e cobrar o cumprimento das propostas apresentadas.

A formação foi encerrada com um convite para que as comunidades da Prelazia do Marajó participem dos encontros de reflexão e oração sobre as eleições de 2026. A mensagem deixada foi a de que a democracia precisa ser cuidada todos os dias — com informação, liberdade, diálogo, responsabilidade e compromisso com a vida.

Assista a livre no Canal do Youtube da Prelazia do Marajó

Por: Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

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