
Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Outro tema bastante sensível no Sermão da Montanha é a exigência da sinceridade nos discípulos de Jesus, em todos os campos ou setores da vida. A sinceridade nos cristãos não necessita de nenhum tipo de alarde; ela se impõe pela eficácia. São Mateus descreve esta exigência intrínseca da fé:
“Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles. Do contrário, não recebereis recompensa junto ao vosso Pai que está nos céus. Por isso, quando deres esmola, não te ponha a trombetear em público, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, com o propósito de ser glorificados pelos homens. Em verdade, vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz tua direita, para que tua esmola fique em segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará”(Mt 6,1-4).
É bem provável que Jesus estivesse repercutindo, mas ensinando o contrário, o costume que havia nas sinagogas judaicas daquele tempo de se proclamar os nomes dos benfeitores da comunidade, como lemos em Eclesiástico 30,11, que assim diz: “Seus bens serão consolidados e a assembleia publicará seus benefícios” (Eclo 3011). Ainda hoje há pessoas que gostam de ter os seus nomes proclamados na Igreja, como benfeitores, por algo que fizeram; parece que desejam que todos devem saber o que fizeram. O ensino de Jesus, portanto, não é contra o dar esmola, um ato de bondade que, segundo o livro de Tobias, preserva da morte e nos dá segurança nesta vida (cf. Tb 4,11-12; 12,19). É a vaidade que é perigosa.
Além da esmola, o Senhor ainda ensinará sobre a Oração. O costume entre os judeus piedosos era a oração duas vezes ao dia, no início da manhã e no início da tarde, às nove e às quinze horas. Depois acrescentou-se a oração do final do dia, ao cair da tarde. Jesus adverte contra a exposição do orante em lugares estratégicos para ser visto pelos outros e ser louvado por sua “piedade”, isto é, não rezar de modo a que todos fiquem olhando “o fervor” dessa oração, os gritos, os gestos afetados. Nada disso é importante.
Por fim, Jesus critica a forma do jejum e não o jejum em si mesmo, que é bom e muitas vezes necessário; mas pode-se incorrer no risco de se fazer jejum de uma forma teatral, e não como uma ação religiosa, gerando uma falsa aparência de piedade e penitência.
Estes três exercícios religiosos – a esmola, a oração e o jejum não devem servir para a vaidade humana, senão para mostrar a verdadeira relação de piedade e adoração a Deus, isto é, uma atitude interna, que brota do coração e não da vaidade. Para Jesus, estas três atitudes revelam a verdadeira justiça, que honra a Deus e pela qual também mostramos amor a Deus, e não podem servir para o louvor que os homens, às vezes, buscam para si mesmos. Esta busca é insensata, pois preenche apenas o egoísmo do próprio homem e não honra a Deus. Este é, na verdade, um desejo desordenado que procura a própria exaltação, a soberba, que desemboca noutra desordem da alma, a vanglória, a necessidade de ser prestigiado, elogiado, aplaudido e admirado pelos outros. Ou seja, é um mal bastante antigo, cujos tentáculos se expandem.
A preocupação de Jesus com a sinceridade nos seus discípulos é para evitar que caiamos na rebeldia velada contra Deus, porque, ao final, estamos dizendo, com esse comportamento, que não o servimos nem o serviremos. Esta atitude contrária a Deus foi prevista na famosa profecia de Daniel, que peço que você leia (Dn 11,36-39), sobre o soberbo por excelência e as consequências que virão sobre ele. O Senhor Jesus, portanto, nos adverte quanto ao perigo de proclamar o que fazemos buscando aprovação dos homens em lugar da honra de Deus.



