
Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Este artigo quer ser muito simples, sem se deter em minúcias que os dois assuntos acima parecem impor. Desejo apenas apresentar o quadro da vida de Nosso Senhor, no período da sua infância, segundo os dados dos Evangelhos. Então, vamos começar por São Lucas, que nos dá esta informação passados oito dias do nascimento de Jesus: “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, conforme o chamou o Anjo, antes de ser concebido” (Lc 2,21). O Salvador de todo o mundo, o Rei do universo, Jesus, cumpre a lei, cumpre as prescrições religiosas às quais estava sujeito o seu povo, de maneira concreta, a circuncisão. Com o rito da circuncisão, recebe o nome, antecipado pelo Anjo na Anunciação à Maria e a José. Mateus dirá o que o nome significa: “Ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21); com efeito, o significado do nome “Jesus” é “Deus Salva” ou “Deus é salvação”.
Passados agora quarenta dias do nascimento de Jesus, segue-se o rito da purificação da mãe do Senhor e da apresentação de Jesus no templo. São Lucas diz o seguinte: “Quando se completaram os dias para a purificação deles, segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém a fim de apresentá-lo ao Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: Todo macho que abre o útero será consagrado ao Senhor, e para oferecer em sacrifício, como vem dito na Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc 2,22-24). A purificação era imposta apenas à mãe, mas a criança devia ser resgatada, embora o Filho de Deus não precisasse ser resgatado. A apresentação da criança não era uma prescrição, mas as pessoas piedosas poderiam fazê-la, como se pode ler no primeiro livro de Samuel 1,24-28. Neste caso, a família de Jesus cumpre todas as prescrições da Lei, em total obediência ao que o Senhor havia estabelecido para o seu povo.

No templo, Maria e José se encontram com dois anciãos, Simeão e Ana. Simeão toma Jesus nos braços e faz uma belíssima oração, um hino que nós rezamos toda santa noite, na oração das completas. Neste cântico, Simeão reconhece ter nos braços o Salvador, a glória de Israel. Penso que deve ter olhado para Maria com os olhos da sabedoria iluminada pela fé, e lhe diz sobre o menino: “Eis que este menino foi posto para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição”. À Mãe de Jesus, especificamente, diz em seguida: “E a ti, uma espada traspassará tua alma!”. Referia-se, certamente, à associação de Maria com a vida e a sorte do seu Filho amado no mistério da redenção. Ana, profetisa, louva a Deus e fala a todos do que está vendo e da sua esperança realizada em Jesus.
Depois deste evento no templo, o relato de São Lucas leva a Sagrada Família para Nazaré, reafirmando que a família de Jesus vivia na total obediência a Deus: “Terminando de fazer tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. E o menino crescia, tornava-se robusto, enchia-se de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele”.
As fontes de São Lucas e de São Mateus são complementares. Uma das fontes de São Mateus nos apresenta o relato da adoração dos magos, que São Lucas não conta. Não irei transcrever o texto, imaginando que você o lerá em sua própria Bíblia.
Os magos vêm do Oriente, talvez da Pérsia ou da região vizinha, da Arábia. Traziam em sua bagagem três presentes – ouro, incenso e mirra. Chegaram primeiro em Jerusalém, procurando pelo “rei dos judeus” que havia nascido. Quando? O rei Herodes morreu em Jericó, consumido pelos vermes, em Jericó no ano 750 da fundação de Roma. É uma data conhecida e aceita. Antes de morrer, passou vários meses doente. Então, pode-se arriscar o ano 749 como a data da chegada dos magos à cidade santa. Quem eram? Não eram feiticeiros, nem pessoas que exerciam a prática da manipulação de poções ditas mágicas. Eram, antes, sábios que se ocupavam do estudo do que hoje se chama astronomia, conheciam as Escrituras hebreias, sabiam das profecias do nascimento de um rei com características universais e que nasceria nas terras de Judá. Eram homens sábios que, à luz da interpretação do salmo 72,10, foram chamados de “Reis”. O salmo dizia nesse versículo: “Os reis de Társis e das ilhas vão trazer-lhe tributo, os reis de Sabá e de Sebá lhe pagarão tributo”. As relíquias deles se encontram na catedral de Colônia, na Alemanha. A tradição os chama de Melchior, Gaspar e Baltasar.

Os sábios do Oriente foram guiados em seu itinerário até Jesus por uma estrela, evidentemente, um sinal de Deus. O relato do encontro com o Senhor, diante do qual se ajoelham, para o adorar, é de extrema beleza. Uma sombra, porém, anuvia aquele momento solene e sagrado: em sonho, o Senhor os adverte que não retornem a Herodes, que nutria pensamento e vontade homicidas, pois planejava matar o Menino Jesus. Para fugir de Herodes, os magos voltaram para sua terra, a Arábia, por outro caminho, bem distante da vista e da mão do rei assassino. Ninguém precisa enfrentar algum perigo, desnecessariamente; foi o que os magos fizeram, evitando Herodes.



