Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Cafarnaum, a pátria adotiva de Jesus, está no roteiro de todo peregrino à Terra Santa. No tempo de Jesus, essa vila de pescadores e entreposto comercial pertencia à Tetrarquia de Herodes Antipas; por ser uma cidadezinha fronteiriça, havia muitos arrecadadores de impostos (publicanos) e certamente uma guarnição de soldados de Herodes, sob o comando de um centurião. A camada mais importante de trabalhadores era dos pescadores. A movimentação social era considerável; seus habitantes contavam cerca de mil ou um pouco mais; Nazaré era bem menor, com aproximadamente trezentas pessoas. Jesus escolheu Cafarnaum para ser o centro de sua atividade apostólica na Galileia. No artigo anterior, vimos como foi um dia de trabalho do Senhor nessa cidade.
O fato a seguir, contado pelos três Evangelhos Sinóticos, é a cura de um paralítico também em Cafarnaum (Mc 2,1-12; Mt 9,1-8; Lc 5,17-26). Jesus havia voltado a Cafarnaum e uma multidão se aglomerava à porta da casa de Pedro para escutá-lo, quando lhe trouxeram um paralítico. Além do povo simples, havia também alguns escribas, pessoas cultas e especialistas nas leis judaicas. Aproveite para ler o relato de São Marcos. No relato, o paralítico é descido à presença de Jesus através do telhado da casa, descoberto para fazê-lo descer. Jesus estava ensinando, explicando a Palavra de Deus. Ao ver aquele gesto de confiança e fé, antes de curar o doente, Jesus lhe diz: “Filho, teus pecados estão perdoados”, causando estranheza nos ouvintes. Eles sabem que só Deus pode perdoar pecados e, por isso, pensam que Jesus está blasfemando. Jesus conhece os corações e os pensamentos desses homens. Diz-lhes então: “Por que pensais assim em vossos corações? Que é mais fácil dizer ao paralítico: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te, toma o teu leito e anda?” Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem poder de perdoar pecados na terra, eu te ordeno – disse ele ao paralítico – levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa”. O paralítico levantou-se e, imediatamente, carregando o próprio leito, saiu andando diante de todos, de sorte que ficaram admirados e glorificaram a Deus, dizendo: “Nunca vimos coisa igual” (Mc 2,1-12).
Imagino o estado em que ficaram os cinco homens, os quatro amigos e o enfermo curado, ao verem o poder de Deus se manifestando em Jesus, a força que tudo renova e dá vitalidade. Observe que os cinco vão até Jesus em busca da saúde do corpo, e Jesus dá ao doente primeiro a cura da alma, o perdão dos pecados. Não vou evidentemente entrar em detalhe explicando que as pessoas acreditavam, como hoje ainda infelizmente acontece, que os males físicos eram consequência de pecados próprios ou de outros, como dos pais, por exemplo. Então, para satisfazer aquela circunstância, Jesus começa por perdoar os pecados daquele homem, para demonstrar que ele era a fonte da vida integral, do corpo e da alma.
O final do relato é assombroso. Admiração e louvor se misturam, porque, de fato, aquelas pessoas nunca tinham visto coisa igual, tamanho poder, palavra tão poderosa.
Continuemos com os olhos em Marcos. Em seguida Jesus vai à beira-mar e chama Levi (Mateus) para o seguir, junta-se a uma refeição com Levi e outros, “muitos publicanos e pecadores”, para desdém dos escribas. Ouvindo murmúrios, disse Jesus: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2,17).
Noutro lugar onde Jesus exerce o seu poder de perdoar pecados, encontramos no relato que São Lucas fez de uma refeição de Jesus na casa de um certo fariseu que o havia convidado. Enquanto estão na sala, entra no recinto uma mulher da localidade, conhecida como pecadora; ela se dirige até Jesus, derrama um frasco de perfume nos seus pés, banha-os com suas lágrimas e beija os pés do Senhor. O evangelista nos conta como foi a cena: “E, ficando por trás, aos pés dele, chorava; e com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, a enxugá-los com os cabelos, a cobri-los de beijos e a ungi-los com o perfume” (Lc 7,36-50). Depois de uma pequena controvérsia, Jesus perdoa os pecados daquela mulher, dizendo-lhe que a fé a havia levado ao caminho da salvação, ao próprio Jesus. Agora ela podia ir em paz.
É inegável, portanto, o poder de Jesus e o seu uso em favor dos necessitados da sua misericórdia.
A autoridade de Jesus consiste no ensinar e no fazer. Ele ensina sobre a misericórdia e faz atos de misericórdia. Por exemplo, o caso do homem possuído que estava na sinagoga de Cafarnaum e enfrentou Jesus. Nesse confronto, o demônio reconhece Jesus como “o Santo de Deus” (Mc 1,24). Além disto, o demônio sabe da identidade de Jesus e reconhece sua autoridade e poder, pois pergunta: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para arruinar-nos?” (Mc 1,24). O demônio sente-se ameaçado e sabe que o seu domínio sobre os homens está terminando. O mundo e o tempo do império do mal estão sob julgamento com a presença de Jesus e o reino de Satanás está com seus dias contados. Uma ordem de Cristo ao demônio que submete aquele homem na sinagoga é que ele se cale. Por quê? Porque Jesus não aceita o testemunho do Demônio nem dos seus seguidores. O exorcismo tem dois resultados imediatos: ele confirma o ensinamento de Jesus como verdadeiro e mostra sua autoridade sobre os espíritos impuros. Se todos se admiram pelo que veem é porque Jesus, de fato, não ensina como os rabinos, que repetem outros rabinos, mas com a força de Deus. E a notícia sobre ele se espalha por toda a Galileia (Mc 1,28).



