A fuga da Sagrada Família para o Egito

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

A vida da Sagrada Família, desde o início, não foi fácil. As fontes usadas por São Mateus guardaram um dos mais tensos relatos da infância do Salvador. O fato aconteceu em seguida à visita dos sábios que vieram do Oriente para ver Jesus. Como voltaram para sua terra seguindo outro caminho, conforme a orientação de Deus, Herodes sentiu-se enganado e, furioso, pôs em prática seu desejo de eliminar o Menino Jesus. O relato de São Mateus é vívido, sóbrio e um pouco angustiante: “Após sua partida, eis que o Anjo do Senhor manifestou-se em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes procurará o menino para o matar. Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito. Ali ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: “Do Egito chamei o meu filho” (Mt 2,13-15; cf. Os 11,1).

A família sagrada estava em perigo e José recebeu uma ordem de fuga. A ação de José é cuidadosa, meticulosa, não açodada. Herodes, o rei, era perigoso e cruel, o que todos sabiam.

O Egito sempre foi terra de refúgio. Antes de Jesus, para lá já haviam ido, em tempos antigos, Abraão, os filhos de Jacó e o próprio Jacó, em dias de fome, e outros depois deles, como Jeroboão, Jeremias e um certo sacerdote chamado Onias IV, que construiu um templo em Leontópolis, devido à numerosa colônia judaica que havia no Egito (por volta do ano 160 antes de Cristo). Alguns textos apócrifos, como o Evangelho do Pseudo-Mateus, embelezam a viagem da Sagrada Família ao Egito, enchendo de eventos milagrosos e maravilhosos. Na igreja de São Joãozinho, no bairro da Cidade Velha, um belo quadro estampa o relato de São Mateus.

Algumas lições bem simples podemos tirar deste relato, como, por exemplo: o plano assassino de Herodes frustrado pela intervenção de Deus, que favorece a fuga da Sagrada Família para o Egito. Sobressai o estado de vigilância de São José, sempre aberto às orientações de Deus, sem perda de tempo. Outro detalhe: São Mateus diz sempre “o menino e sua mãe”, para dar ênfase à pessoa de Jesus. De José, sobressai a docilidade em atender o que Deus lhe inspira. A ordem de Deus é que fiquem no Egito até que morra Herodes, porque todos os déspotas e tiranos morrem. Assim também se cumpre a profecia de Oséias, que São Mateus menciona.

Enquanto põe-se em fuga a Sagrada Família, Herodes, sentindo-se enganado pelos magos, põe em prática seu plano assassino e com crueldade ataca Belém, matando todos os meninos de dois anos para baixo. O relato de São Mateus é chocante; ele diz: “Então Herodes, percebendo que fora enganado pelos magos, ficou enfurecido e mandou matar, em Belém e em todo o seu território, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo de que havia se certificado com os magos. Então cumpriu-se o que foi dito pelo profeta Jeremias: “Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação: Raquel chora seus filhos; e não quer consolação, porque eles já não existem” (Mt 2,16-18).

Alguns estudiosos veem neste relato uma semelhança com o que viveu Moisés, salvo da fúria do Faraó, enganado pelas parteiras hebreias, com o salvamento do Menino Jesus, salvo da maldade de Herodes, pela intervenção de Deus e a burla dos magos. O que importa aqui é apenas o que nos diz São Mateus, que não menciona nada além dos planos de Deus, que se sobrepõem aos caprichos humanos.

O lamento que se ouve, traduzido no canto de Jeremias, é de tristeza pela torpeza que se comete contra o verdadeiro rei de Israel, Jesus Menino, por aquele que se considera rei, mas, sabidamente, é ilegítimo.

Morto Herodes, José é novamente aconselhado pelo Anjo do Senhor, agora para retornar à terra de Israel, tomando consigo “o menino e sua mãe”. José obedece. Porém, ao saber que no trono está Arquelau, sucessor de Herodes, e conhecendo sua reputação sanguinária, é aconselhado por Deus a ir para a Galileia, para Nazaré. Arquelau era pior que seu pai, Herodes. Nazaré será a terra e a cidade de Jesus; ele mesmo será conhecido como Nazareno, ainda que Natanael, mais tarde pergunte: “Acaso pode sair algo bom de Nazaré”? Sim. Esse era Jesus de Nazaré. De fato, até Jesus, Nazaré era uma vila desconhecida, sem muita importância. Em Nazaré, Jesus permanecerá quase escondido com sua família até a idade de trinta anos. Viverá a vida de família, aprenderá as tradições do seu povo, será aprendiz da profissão de José, seu pai adotivo, receberá as primeiras lições para ler e escrever, colherá de Maria e de José os melhores exemplos da vida familiar. São Lucas, no final do seu relato da infância de Jesus, dirá que em Nazaré o Salvador “crescia, tornava-se robusto, enchia-se de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40). Durante seu ministério público, Jesus voltará a Nazaré, irá à sinagoga e lerá um texto do profeta Isaías e o aplicará a si, dizendo à assembleia que o ouvia que naquele dia, “hoje”, se cumpria a passagem que eles acabavam de escutar, fazendo ali uma brevíssima homilia.

Com estas breves anotações em forma de artigos, concluo esta primeira fase da vida do nosso Salvador, Jesus Cristo, percorrendo o itinerário da sua infância.

Compartilhe essa Notícia

Leia também