A terra renovada pelo espírito que congrega

Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém

 Caríssimos irmãos e irmãs, hoje celebramos 50 dias da Páscoa do Senhor, o dia em que Jesus Cristo venceu o pecado e a morte. Assim como a semente lançada na terra precisa morrer para gerar nova vida, também Jesus morreu e ressuscitou, renovando toda a criação, conforme o desejo de Deus Pai, pela ação do Espírito Santo, que nos foi dado e que, desde o princípio, “pairava sobre as águas” (Gn 1, 2). Nesta reflexão, conto com a colaboração do seminarista Eduardo Augusto Rosa de Matos.

Na tradição bíblica, Pentecostes era, inicialmente, a festa das primícias da terra, quando os primeiros frutos do trigo e da cevada eram oferecidos no Templo de Jerusalém. Também celebrava a Aliança divina, o pacto de amor entre Deus e seu povo, marcado pela entrega das tábuas da Lei.

Pentecostes estava entre as três grandes festas de peregrinação do povo judeu. Por isso, Jerusalém recebia pessoas de muitos lugares, com diferentes culturas e idiomas. Era um encontro marcado pela diversidade, mas também pela dificuldade de compreensão entre os povos. Podemos imaginar uma cidade cheia, movimentada, semelhante ao trânsito em horário de pico ou à grande concentração de pessoas conectadas ao mesmo tempo.

Nesse contexto, surpreende a reação narrada nos Atos dos Apóstolos: “Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?” (At 2, 7b-8a). Algo novo havia acontecido. Uma nova forma de comunicação surgia pela força do Espírito Santo. A Boa-Nova tornava-se compreensível a todos, inclusive aos estrangeiros.

Também nós somos convidados a refletir: O que a ressurreição de Jesus fez brotar de novo em nossa vida? Quais são os frutos pascais presentes em nossa história? Somos capazes de acolher o diferente? Reconhecemos os sinais de Deus em nossa caminhada?

Na 2ª Leitura, São Paulo apresenta o maior dom pascal: “Ninguém pode dizer: ‘Jesus é o Senhor’, a não ser pelo Espírito Santo” (1Cor 12, 3b). É o Espírito quem transforma a diversidade em unidade, sem apagar as diferenças. Assim como um jardim revela sua beleza na variedade das flores, cores e formas de vida, também a Igreja se fortalece na diversidade dos dons e ministérios.

São Paulo recorda: “Há diversidade de dons, mas um mesmo Espírito; diversidade de ministérios, mas um mesmo Senhor; diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza tudo em todos” (1Cor 12, 4-6).

O Espírito Santo faz da diversidade um caminho de comunhão. Em toda a criação existem sinais da bondade e da presença de Deus, como pequenas marcas deixadas pelo Criador. Tudo aponta para Ele, reflete sua ação e manifesta sua presença. Existe uma verdadeira “linguagem divina” na obra criada, pois fomos formados pela Palavra de Deus e recriados pela entrega amorosa de Cristo.

Por isso, não existem portas fechadas ou medos capazes de impedir a ação de Deus. Corações feridos, situações difíceis e realidades marcadas pelo sofrimento podem ser transformados pelo sopro do Espírito Santo, que o Ressuscitado oferece aos seus discípulos. O ambiente de medo e desentendimento vivido pelos apóstolos dá lugar ao perdão e à paz quando Jesus lhes diz: “A paz esteja convosco”.

Jesus não esconde suas chagas; ao contrário, mostra-as aos discípulos, revelando que a verdade e o amor são os caminhos do Senhor. E aqueles que recebem o perdão de Deus tornam-se também chamados a perdoar: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles serão perdoados” (Jo 20, 23). Eis um dos mais belos frutos da Páscoa: o perdão vivido entre irmãos e irmãs.

É o Espírito Santo quem constrói a comunhão na diversidade. Ele distribui os dons para o bem comum. Foi o Espírito quem transformou homens medrosos em apóstolos corajosos para anunciar o Evangelho. Foi também pela ação do Espírito Santo que Maria Santíssima acolheu Jesus primeiro no coração e depois no ventre, como ensinava Santo Agostinho. Por isso, recorremos à sua intercessão como Mãe da graça e Auxiliadora dos Cristãos.

Em nós e em toda a criação, o Espírito Santo deseja realizar uma obra nova. Por isso, rezamos com o salmista: “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai” (Sl 103/104). Que os frutos da Páscoa sejam abundantes em nossa vida e que o Espírito Santo continue renovando nossos corações, nossas comunidades e toda a criação.

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