Chamados à Misericórdia: a força da fé que transforma o mundo

Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém

Caros leitores, neste Domingo na Oitava da Páscoa, também conhecido como Domingo da Divina Misericórdia, encerramos a primeira semana do tempo pascal com uma mensagem clara e atual: Jesus ressuscitado está vivo e continua oferecendo paz, perdão e esperança à humanidade. Assim, a liturgia do 2º Domingo da Páscoa mostra que a misericórdia é o coração da vida cristã e a missão da Igreja no mundo.Para esta ocasião, conto com a colaboração de Ir. Maria Rejiane da Mata Dias, Filha da Caridade.

No Evangelho de João (Jo 20,19-31), vemos os discípulos reunidos com medo, portas fechadas, inseguros quanto ao futuro. Eles tinham visto Jesus morrer na cruz. Mesmo com o anúncio da ressurreição, o coração ainda estava marcado pela dor. É nesse cenário que Jesus aparece no meio deles e diz: “A paz esteja convosco!”. Não é uma saudação qualquer. É um dom. Ele sopra sobre os discípulos e lhes confia o poder de perdoar os pecados. Ali nasce, de modo visível, a missão da Igreja: ser instrumento da misericórdia de Deus.

O texto também apresenta a figura de Tomé. Ele não estava presente na primeira aparição e teve dificuldade para acreditar. Queria ver, tocar, ter provas. Quando Jesus aparece novamente e o convida a tocar suas chagas, Tomé faz uma das mais belas profissões de fé do Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus!”. Jesus, então, afirma: “Felizes os que creram sem terem visto”. Essa bem-aventurança alcança cada cristão de hoje. Nós não vimos Jesus, fisicamente, mas somos chamados a crer e testemunhar sua presença viva.

A 1ª Leitura, dos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47), mostra como era a vida da comunidade cristã nascente. Os fiéis eram perseverantes na oração, na fração do pão, no ensinamento dos apóstolos e na comunhão fraterna. Partilhavam seus bens, ajudavam os necessitados e viviam unidos. O texto diz que “eram estimados por todo o povo”. A Igreja crescia porque o amor era visível. A misericórdia não era teoria, mas prática concreta.

O Salmo 117(118) reforça esse clima de gratidão e confiança: “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom; eterna é a sua misericórdia!”. Essa afirmativa recorda que a misericórdia não é um gesto isolado de Deus, mas sua maneira constante de agir. Mesmo quando o ser humano falha, Deus permanece fiel.

Na 2ªLeitura, a Primeira Carta de Pedro (1Pd 1,3-9), encontramos uma mensagem de esperança. O apóstolo fala de uma “esperança viva”, fundada na ressurreição de Jesus. Ele reconhece que os cristãos enfrentam provações, mas lembra que a fé, provada no sofrimento, torna-se mais preciosa que o ouro. A misericórdia de Deus sustenta o fiel nas dificuldades e lhe dá força para continuar.

Diante dessas leituras, o Domingo da Divina Misericórdia nos convida a olhar para a Igreja não apenas como Instituição, mas como comunidade de pessoas transformadas pelo amor de Cristo. A Igreja nasce do coração aberto de Jesus e recebe a missão de levar esse amor ao mundo. Cada cristão é parte dessa missão.

Ser presença de misericórdia significa, antes de tudo, acolher a paz que vem de Cristo. Muitas vezes também vivemos com “portas fechadas”: medo da violência, da crise econômica, das doenças, das incertezas do futuro. Jesus continua entrando em nossos ambientes e repetindo: “A paz esteja convosco!”. Quem experimenta essa paz é chamado a compartilhá-la.

A misericórdia se expressa em gestos simples. É saber ouvir quem sofre, visitar um doente, perdoar uma ofensa, ajudar uma família necessitada, respeitar quem pensa diferente. Em um mundo marcado por divisões e julgamentos rápidos, a atitude misericordiosa se torna um testemunho forte.

O Domingo da Divina Misericórdia recorda que todos precisamos da misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo, somos chamados a oferecê-la. Não existe cristão que possa dizer: “Isso não é comigo”. Cada um, em sua realidade, pode ser sinal do amor de Cristo.

Que neste Domingo na Oitava da Páscoa cada cristão se deixe tocar pela paz do Ressuscitado e se torne presença concreta de misericórdia no mundo. Assim, a alegria da Páscoa não será apenas uma data no calendário, mas uma força transformadora capaz de iluminar a vida pessoal, familiar e social. Afinal, como canta o salmo, eterna é a sua misericórdia.

Para concluir, recordo com alegria que, exatamente, há três anos, no sábado às vésperas do 2º Domingo da Páscoa, como este em que estamos celebrando, fui ordenado bispo na Catedral de Belém, não por merecimento, mas por pura graça divina. Por isso, conto com as orações de cada um dos leitores, para que seja fiel a meu lema episcopal: “Corações ardentes, pés a caminho!”.

Ordenação Episcopal de Dom Paulo Andreolli - 15/04/2023 
Foto: Luiz Estumano (Rede Nazaré/Voz de Nazaré Online)
Ordenação Episcopal de Dom Paulo Andreolli – 15/04/2023 Foto: Luiz Estumano (Rede Nazaré/Voz de Nazaré Online)

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