Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo auxiliar de Belém
Caros leitores, mais uma vez nos encontramos para refletir sobre a mensagem que as Sagradas Escrituras nos apresentam neste 17º Domingo do Tempo Comum, especialmente a partir do Evangelho proclamado na liturgia.
O título deste artigo nos conduz a uma verdade fundamental da fé cristã: Deus se revela aos humildes de coração. Trata-se de uma humildade que não se limita à aparência ou a gestos exteriores, mas nasce do interior da pessoa. Ser humilde é reconhecer-se como alguém em constante processo de crescimento, consciente de suas limitações, mas também dos dons recebidos de Deus. É saber que ninguém é autossuficiente e que todos necessitam da graça divina para caminhar com sabedoria.
A Liturgia da Palavra deste domingo apresenta o exemplo do rei Salomão. Apesar de sua posição e autoridade, ele reconhece que precisa da ajuda de Deus para governar o povo. Por isso, faz uma oração sincera e humilde: “Dá, pois, ao teu servo um coração compreensivo, capaz de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este povo tão numeroso?” (1Rs 3,9). Esse pedido agrada ao Senhor, porque Salomão não busca riquezas, poder ou prestígio, mas a sabedoria necessária para servir ao próximo. Sua atitude revela que Deus se alegra com aqueles que reconhecem suas limitações e colocam sua confiança Nele.
O salmista reforça essa mesma verdade ao afirmar: “Vossa palavra, ao revelar-se, me ilumina; ela dá sabedoria aos pequeninos” (Sl 119,130). A sabedoria divina não é fruto apenas da inteligência humana, mas um dom concedido àqueles que acolhem a Palavra com simplicidade e abertura de coração.
Na Segunda Leitura, São Paulo recorda uma das maiores certezas da vida cristã: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). Amara Deus é uma atitude própria de quem reconhece sua pequenez diante da grandeza doamor e da misericórdia divinos. A humildade leva a compreender que existe um bem maior e verdadeiramente necessário: Deus e o seu Reino, revelado plenamente em Jesus Cristo.
No Evangelho, Jesus compara o Reino de Deus a um tesouro escondido no campo. Quem o encontra vende tudo o que possui para adquirir aquele campo (Mt 13,44). Essa imagem revela que o encontro com Deus transforma completamente a vida. Vender tudo simboliza o desprendimento das falsas seguranças, do apego excessivo aos bens materiais e da busca por interesses passageiros. Quem encontra o verdadeiro tesouro descobre que nenhuma riqueza deste mundo pode substituir a alegria de viver em comunhão com Deus.
Essa mensagem permanece profundamente atual. Em uma sociedade marcada pela competição, pelo individualismo e pela busca incessante por sucesso e reconhecimento, o Evangelho propõe um caminho diferente: o da simplicidade, do serviço e da confiança em Deus. A verdadeira grandeza não está em acumular bens ou conquistar prestígio, mas em cultivar um coração disponível para ouvir a voz do Senhor e colocar seus ensinamentos em prática.
A humildade também nos torna capazes de enxergar Deus na vida cotidiana. Muitas vezes, esperamos manifestações extraordinárias, enquanto o Senhor continua se revelando nos pequenos gestos de amor, no perdão oferecido, na solidariedade para com quem sofre e na fidelidade silenciosa daqueles que vivem a fé com sinceridade. É no coração humilde que Deus encontra espaço para agir e transformar a existência humana.
Hoje, a Igreja celebra também o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, ocasião em que somos convidados a reconhecer nesses homens e mulheres um verdadeiro tesouro para nossas famílias, comunidades e para toda a Igreja. Em sua mensagem para esta celebração, o Papa Leão destaca que os idosos são testemunhas da esperança e da fidelidade de Deus, chamados a transmitir às novas gerações a riqueza da fé, da sabedoria e da memória viva do amor do Senhor.
Inspirados por esse convite, renovemos nosso compromisso de acolher, respeitar e valorizar os idosos, fortalecendo os laços entre as gerações e aprendendo com o testemunho de suas vidas. Que sua perseverança na fé nos ajude a cultivar um coração humilde e sábio, capaz de buscar, acima de tudo, o Reino de Deus e de testemunhar, com alegria, o seu amor no mundo.




