Dignidade do migrante e hospitalidade

Por Pe. Helio Fronczak

O fenômeno das migrações contemporâneas, forçadas por conflitos e fome ou motivadas pela busca de uma vida melhor, não é apenas um desafio logístico para os governos ou uma estatística para os telejornais. É, na verdade, uma questão ética que intercala a política, a religião e a consciência individual de cada cidadão. Diante de fronteiras cada vez mais vigiadas e discursos que alimentam a exclusão, a Doutrina Social da Igreja (DSI) e o Personalismo Cristão oferecem um caminho claro e urgente: a construção de uma ética da hospitalidade global.

O ensinamento da Igreja Católica sobre este tema é direto e não admite ambiguidades: a dignidade humana é intrínseca, universal e inalienável. Ela não depende de um passaporte, de um visto de permanência ou da nacionalidade de origem. O Personalismo Cristão de Emmanuel Mounier e outros autores reforça essa visão ao insistir que o migrante é sempre um “alguém”, um sujeito portador de uma história, de afetos e de uma dignidade que o Estado não cria, apenas reconhece. Quando a sociedade passa a tratar a migração apenas como um “problema a ser resolvido” ou uma “ameaça à segurança”, ocorre um processo perigoso de desumanização. Acolher o estrangeiro, portanto, não deve de ser um ato de benevolência opcional,mas deve se tornar uma exigência de justiça.

Para que essa hospitalidade não fique restrita ao campo das ideias, ela deve se traduzir em ações concretas que o Papa Francisco, de saudosa memória, sintetizava em quatro verbos fundamentais: acolher, proteger, promover e integrar. Acolher exige a abertura de espaços de segurança; proteger demanda a garantia de direitos contra a exploração e o tráfico humano; promover foca no acesso à educação e ao trabalho digno; e integrar permite que o migrante participe plenamente da vida da nova comunidade, construindo um futuro comum sem apagar sua identidade de origem.

Essa responsabilidade, no entanto, não deve ser delegada apenas aos governos e às grandes instituições internacionais. A ética da hospitalidade precisa acontecer no cotidiano e na atuação pessoal de cada um em seu próprio âmbito. No seio da família, o compromisso começa com o combate à xenofobia e a educação dos filhos para o respeito à diversidade, corrigindo preconceitos que muitas vezes se disfarçam de humor. No ambiente de trabalho, empresários e profissionais podem atuar oferecendo oportunidades justas, combatendo a exploração salarial e auxiliando na adaptação técnica daqueles que chegam com vontade de reconstruir suas vidas.No bairro e na convivência social, gestos simples possuem um impacto transformador. Por exemplo: orientar um recém-chegado para morar no bairro sobre os serviços públicos ali existentes, ajudá-loa superar as barreiras do idioma ou oferecer um cumprimento cordial são atitudes que quebram o isolamento e evitam que o migrante caia na marginalidade. No âmbito da vida religiosa, as comunidades cristãs (católicas e evangélicas) são chamadas a ser a “casa da hospitalidade”. Tal visão vai muito além da assistência material; pois procurará envolvere integrar o migrante no seu culto e sua liturgia, nos seus grupos de oração e na vida social, garantindo que ele se sinta parte do Corpo de Cristo e não um eterno visitante.

O grande desafio de nossa época é vencer a “globalização da indiferença”. A xenofobia, isto é, a desconfiança, antipatia e desprezo pelo diferente de nós, muitas vezes se apresenta sob o manto da prudência, mas o cristão verdadeiro, a exemplo o seu Mestre Jesus Cristo, é chamado a um amor concreto que não exclui nenhuma pessoa. Integrar o diferente certamente exige paciência e gera trabalho, mas o fechamento absoluto gera apenas violência e injustiça estrutural. A responsabilidade pessoal de se envolver com o acolhimento de migrantes e refugiados é o que define a maturidade moral de uma sociedade. A hospitalidade que oferecemos aos outros é a medida exata da nossa própria humanidade.

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