Domingo de Ramos e a Coleta da Solidariedade: fé que transforma-se em compromisso

Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém

Caríssimos leitores, eis que ao término desta Quaresma iniciamos hoje a Grande Semana ou Semana Santa. E para refletirmos sobre este Domingo de Ramos, conto com as contribuições de Ir. Maria Rejiane da Mata Dias, Filha da Caridade.

O Domingo de Ramos abre a Semana Santa e ocupa um lugar especial na vida da Igreja. Neste dia, os cristãos recordam a entrada de Jesus em Jerusalém, acolhido com ramos e aclamações, mas também iniciam o caminho que conduz à cruz. É uma celebração marcada por contrastes: a alegria do povo e o anúncio da paixão. Nesse contexto, a Igreja no Brasil também vivencia a Coleta da Solidariedade, ligada à Campanha da Fraternidade (CF-2026), como gesto concreto de partilha e compromisso com os mais pobres.

A liturgia de Ramos nos apresenta um Messias diferente. Jesus entra na cidade montado num jumento, sinal de humildade e serviço. Ele não vem como um rei poderoso, mas como aquele que se coloca ao lado dos pequenos e sofredores. O Papa Francisco lembrava que “Jesus não salva a partir de um trono, mas da cruz”, ensinando que o verdadeiro poder está no amor que se doa. Essa atitude de Cristo é a base da solidariedade cristã.

A Coleta da Solidariedade realizada, tradicionalmente, neste domingo, expressa de forma prática o sentido do Evangelho. Ela não é apenas uma arrecadação financeira, mas um gesto de comunhão. Os recursos arrecadados apoiam projetos sociais em todo o país, especialmente, aqueles voltados às populações mais vulneráveis. Assim, a celebração litúrgica se prolonga em ação concreta, unindo fé e vida.

São João Paulo II afirmava que a solidariedade não é um sentimento vago, mas “a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum”. Essa definição ajuda a compreender o sentido profundo da coleta. Contribuir é reconhecer que somos responsáveis uns pelos outros e que a fé cristã exige compromisso com a justiça social. Não se trata de assistencialismo, mas de promover dignidade e esperança.

O Papa Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est, recorda que a caridade é parte essencial da missão da Igreja, tanto quanto o anúncio da Palavra e a celebração dos sacramentos. Para ele, a caridade organizada é uma resposta concreta às necessidades do mundo. A Coleta da Solidariedade se insere nessa visão: é a Igreja colocando em prática o mandamento do amor, de forma organizada e responsável.

No contexto da Campanha da Fraternidade 2026, a coleta ganha ainda mais sentido, pois reforça o chamado à conversão pessoal e social. A CF sempre convida a olhar para uma realidade concreta do país e a responder a ela à luz do Evangelho. O gesto de partilhar, mesmo com pouco, educa o coração e ajuda a construir uma sociedade mais fraterna.

O Papa Francisco insistia que não pode haver verdadeira espiritualidade cristã sem atenção aos pobres. Em várias ocasiões, ele alertou contra o risco de uma fé “fechada em si mesma”, que não se deixa tocar pelo sofrimento alheio. Para o Papa, a solidariedade é um caminho de conversão, pois nos tira do comodismo e nos aproxima do estilo de vida de Jesus.

Portanto, o Domingo de Ramos não é apenas memória de um fato do passado. Ele nos provoca no presente. Ao segurar os ramos e participar da Coleta da Solidariedade, cada cristão é convidado a se perguntar: Que tipo de discípulo eu quero ser? Aquele que apenas aclama Jesus com palavras ou aquele que O segue no caminho do serviço e da doação?

Ao iniciar a Semana Santa, a Igreja convida cada fiel a unir celebração e vida. Os ramos levados para casa não devem ser apenas símbolos externos, mas lembranças de um compromisso assumido: viver segundo o Evangelho. A Coleta da Solidariedade da CF-2026 reforça esse chamado, mostrando que a fé cristã se expressa também na ação concreta da partilha.

Assim, o Domingo de Ramos não termina na celebração litúrgica. Ele continua na vida cotidiana, nas escolhas que fazemos e na forma como nos relacionamos com os outros. Inspirados pelos ensinamentos dos Papas e pelo testemunho de Jesus, somos convidados a passar da aclamação à ação, da palavra ao gesto, da fé professada à fé vivida. É esse caminho que dá sentido à Semana Santa e renova a esperança de um mundo mais solidário.

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