Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém
Caros leitores, neste4º Domingo da Quaresma, a liturgia nos convida a viver um momento especial do caminho quaresmal: o Domingo da Alegria (Laetare), marcado pela cor rósea, que aparece nos paramentos litúrgicos. Essa cor, em meio ao tempo penitencial da Quaresma, é como um sinal de esperança: ela antecipa a alegria da Páscoa que se aproxima e recorda que o caminho de conversão sempre conduz à vida nova em Cristo.
Este domingo possui um forte caráter de catequese batismal. Em muitas comunidades, os catecúmenos – homens e mulheres que se preparam para receber o Batismo na Vigília Pascal – vivem etapas importantes de sua caminhada. Por isso, toda a comunidade cristã é convidada a caminhar em comunhão com eles, redescobrindo a beleza do próprio Batismo e renovando o compromisso de viver como filhos e filhas de Deus.
Na liturgia dos últimos domingos, os Evangelhos têm apresentado imagens muito fortes da identidade de Jesus. No domingo passado, contemplamos o encontro de Jesus com a mulher samaritana, junto ao poço. Ali, Ele se revelou como a água viva, aquela que sacia a sede mais profunda do coração humano. Hoje, o Evangelho nos apresenta outra grande revelação: Jesus é a luz que ilumina a vida e abre os olhos de quem vive na escuridão.
O Evangelho (Jo 9,1-41) nos mostra que a cura do cego não aconteceu apenas em seus olhos, mas também em seu coração. À medida que sua visão se abre, cresce sua fé. Ele passa de alguém que pouco sabe sobre Jesus para alguém que reconhece Nele o Filho de Deus e se prostra em atitude de adoração. Assim também acontece na vida cristã: encontrar Cristo é iniciar um caminho de iluminação interior que transforma a maneira de ver a si mesmo, aos outros e ao mundo.
Quantas vezes encontramos situações semelhantes a do cego do Evangelho. Há muitas formas de cegueira que atingem o coração humano. Muitas pessoas não conseguem reconhecer a Deus como um Pai misericordioso, que ama a todos, sem distinção. Outras não conseguem reconhecer no próximo – especialmente nos mais pobres e fragilizados – um irmão que merece dignidade, respeito e cuidado. Outras ainda não percebem que a natureza é um dom de Deus, confiado à nossa responsabilidade para ser protegido e cuidado.
Por isso, a mensagem desta liturgia se une ao caminho que a Igreja no Brasil vive através da Campanha da Fraternidade 2026, que traz como tema “Fraternidade e moradia” e como lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Esta expressão recorda o grande mistério da encarnação: o Filho de Deus não permaneceu distante da humanidade, mas quis habitar no meio de nós, compartilhar nossa história, nossas alegrias e também nossas fragilidades.
Ao vir morar entre nós, Jesus veio abrir os olhos da humanidade. Ele nos ensina a enxergar a realidade com o olhar de Deus. O Filho de Deus não se deixou guiar pelas aparências humanas. Ele não veio para condenar, mas para salvar. Veio mostrar que, mesmo marcado pelo pecado e pelas limitações, todo ser humano continua sendo imagem de Deus e, por isso, merece ser acolhido com amor.
Jesus é o novo templo, a verdadeira casa de Deus entre os homens. Ao assumir nossa humanidade, Ele revelou que o coração humano pode tornar-se morada de Deus. Assim como o Pai misericordioso acolhe cada filho que retorna, também Cristo, como Bom Pastor, vai ao encontro de cada ovelha perdida para reconduzi-la ao redil, à casa de Deus, onde todos encontram vida e comunhão.
A luz que vem de Cristo não apenas ilumina, mas também transforma. Quem encontra Jesus começa a aprender a viver de uma maneira nova, como filho da luz. São Paulo (Ef 5,8-14) recorda que a vida de quem caminha na luz produz frutos concretos: bondade, justiça e verdade. Estes são os sinais de uma vida verdadeiramente iluminada pelo Evangelho.
Peçamos ao Senhor que também abra os nossos olhos. Que possamos enxergar com mais clareza a presença de Deus em nossa vida, reconhecer no próximo um irmão e cuidar com responsabilidade da Casa comum que Ele nos confiou.
Que esta caminhada quaresmal, vivida em comunhão com os catecúmenos que se preparam para o Batismo, nos ajude a redescobrir a alegria de viver como filhos da luz. E que Cristo, luz do mundo, continue iluminando nossos caminhos, conduzindo-nos à grande alegria da Páscoa.



