Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
No último artigo, falei das quatro mulheres presentes na genealogia de Jesus: Tamar, Raab, Rute e Betsabé. Mas há outra, a Mulher que gerou o Filho de Deus, a Virgem Maria, a jovem à qual se referia a profecia de Isaías ao rei Acaz, e que São Mateus dá por cumprida, pois afirma, no seu relato da “origem de Jesus Cristo”, que “tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel” (Mt 1,18-23; Is 7,14).
O nome da Mãe de Jesus aparece no terceiro grupo da genealogia, no versículo 16, onde São Mateus diz o seguinte: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo”. Você que está lendo o texto da genealogia percebeu o uso do verbo “gerar” na linha ascendente de Jesus. Assim, “Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou…” até Matã, que gerou outro Jacó. Quando a sucessão chega a este Jacó, São Mateus diz que “Jacó gerou José”, explicando que José era o “esposo de Maria, da qual nasceu Jesus”. Ou seja, José não gerou Jesus. Jesus nasceu de Maria sem a participação de homem. Mais adiante, São Mateus irá relatar o sonho de José, o Anjo do Senhor lhe explicando que a gestação de Maria foi um ato divino, pois Maria “achou-se grávida pelo Espírito Santo”. E a José, diz o Anjo: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo”. Em outras palavras, Deus mesmo é a causa da gravidez de Maria. Jesus, no seu ministério público, terá e demonstrará consciência de sua condição de Filho de Deus, pois o chamará de Pai, sem nenhuma dúvida.
No relato de São Mateus, o evangelista não hesita em afirmar que José é esposo de Maria e Maria é esposa de José, mas em nenhum lugar sequer sugere que José seja o pai de Jesus. Fica, ao contrário, claríssimo sua paternidade legal e sua função nesse evento. No tempo de estudante, estudamos a opinião de alguns especialistas para os quais Jesus se comparava ao novo Moisés e apontavam em sua defesa a estrutura do Evangelho de São Mateus. Para referendar sua opinião, diziam, por exemplo, que havia, inclusive, algumas passagens semelhantes comparadas as duas vidas, a de Moisés e a de Jesus. Na história do Êxodo, de fato, diz-se que Moisés resolveu deixar Madiã e retornar ao Egito, levando consigo sua mulher e seus filhos (Ex 4,19-20). E comparam este texto com a fuga da Sagrada Família para o Egito, no relato de São Mateus. Porém, esta comparação não é de todo feliz. No relato de São Mateus, quatro vezes o evangelista afirma que José, diferentemente de Moisés, tomou “o menino e sua mãe” (versículos 13.14.20.21) e, à ordem do Anjo, partiu para o Egito, retornando para Israel após a morte dos que desejavam matar o Menino Jesus.
No relato da infância de Jesus, na versão de São Mateus, José é a figura central. Ele é o homem da escuta, modelo de obediência e de ação. Além de cuidar e de proteger Maria e Jesus, José prima pela prudência. Deve ter sabido dos distúrbios que se seguiram à morte de Herodes e não desconhece a conduta violenta, arbitrária e cruel de Arquelau, o etnarca que sucedeu a Herodes, o Grande. Evitando o perigo de nova perseguição e orientado por Deus, toma o caminho para Nazaré, onde se estabelece com “o menino e sua mãe”. É nesse ambiente familiar e seguro que Jesus cresce. Em Nazaré, uma pequena aldeia de não mais de duzentas pessoas, jamais mencionada em nenhum livro do Antigo Testamento dada a sua pouca importância, Jesus permanece até a idade de 30 anos. Com essa idade, Jesus sai da sua terra para ser batizado por João, no rio Jordão, e inicia seu ministério público.




