Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Não falarei de Maria no Evangelho de São Marcos, porque o texto que nos interessava já foi objeto de um artigo dias passados, nem de Maria no quarto Evangelho. Passo então para São Lucas, o evangelista mais mariano dos quatro. A Mãe de Jesus está presente no terceiro Evangelho de modo muito especial. São Lucas parece “pintar” a imagem da Virgem Maria com traços delicados como os conhecemos. Todo o relato da infância de Jesus é retratado a partir do olhar de Maria. É Maria quem recebe a visita do Anjo Gabriel; após a anunciação, ela parte em viagem para visitar e ajudar sua prima Isabel, que morava em AinKarim, distante aproximadamente 120 km de Nazaré e 6 da cidade de Jerusalém. Maria impõe o nome a Jesus, o seu Filho. Ela cuida dele, envolve-o em panos e o põe na manjedoura. São relatos bem presentes no coração de todo fiel.
Se olharmos o paralelo que São Lucas faz dos nascimentos de João Batista e Jesus, Maria é superior a Zacarias, porque não duvida da palavra do mensageiro celeste; ela será modelo de todos os que acreditam em Jesus. Na anunciação, Maria é saudada pelo Anjo de maneira única e inusitada: ele a convida à alegria messiânica, a exultar de júbilo com a chegada do Messias, pois chegou o tempo da restauração. Para Maria convergem outros convites feitos no passado, como promessa, mas agora essa promessa se cumpre; pensamos, por exemplo, no famoso texto do profeta Sofonias, que diz: “Rejubila, filha de Sião, solta gritos de alegria, Israel! Alegra-te e exulta de todo coração, filha de Jerusalém! O Senhor revogou a tua sentença, eliminou o teu inimigo. O Senhor, o rei de Israel, está no meio de ti, não verás mais a desgraça. Naquele dia, será dito a Jerusalém: Não temas, Sião! Não desfaleçam as tuas mãos! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, um herói que salva! Ele exulta de alegria por tua causa, estremece em seu amor, ele se regozija por tua causa com gritos de alegria” (Sf 3,14-17). São Lucas olha para Maria e a vê como a “Filha de Sião”, a qual se aplicam estas palavras. É esta Mulher, a Filha de Sião, que é saudada pelo Anjo do Senhor como a “Cheia de graça”, a eleita do Senhor, cheia, repleta do favor divino, à qual o Senhor Deus deu todas as qualidades e disposições para cumprir bem sua missão de Mãe do Salvador.
Maria não guarda para si as qualidades que recebeu do Senhor; ela dispõe tudo em favor dos filhos que lhe foram confiados e por ela gerados espiritualmente aos pés da cruz. Dom Vicente Zico gostava de dizer, citando um santo medieval, que Deus dispôs que tudo tivéssemos pelas mãos de Maria; o Tudo não é outro senão o próprio Cristo, fonte de todas as bênçãos e graças divinas.
Um tema hoje muito sensível, mas tratado de modo muito simples por São Lucas, é quando o Anjo do Senhor diz à Maria: “O Senhor está contigo”, e depois: “Não temas”. Maria sabe que é pequena neste mundo, frágil, e o mundo parece exigir pessoas fortes. O Senhor lhe diz, de maneira paternal, que apesar de sua pequenez ela participará de maneira ativa no plano traçado por ele em vista da nossa salvação, e que nesta sua missão ela não estará sozinha, mas Ele, o Senhor, estará com ela. Na verdade, Deus quis Maria participando, ou atuando, com o seu Filho Jesus na obra da salvação.
São Lucas falará muito mais da Mãe do Senhor: conservou o hino que ela cantou na casa de Zacarias e Isabel, o Magnificat; realçará sua obediência a Deus e aos preceitos da fé em sua ida ao templo para a apresentação de Jesus e sua purificação, como ordenava a Lei, e mostrará a mãe devotada ao seu filho, na busca por ele em Jerusalém, até encontrá-lo no templo entre os doutores e escribas.
Na segunda parte de seus escritos, o livro dos Atos dos Apóstolos, São Lucas ainda mostrará a Mãe de Jesus como figura importante na Igreja de Jerusalém, a Igreja Mãe. Somente no prólogo dos Atos é registrada a presença de Maria, o que é significativo, pois esta presença singular da “Mãe de Jesus” é a condensação e o coroamento de toda a vida da Mãe do Senhor, desde a anunciação ao início da missão temporal da Igreja. São Lucas apresenta Maria, do Evangelho ao livro dos Atos, como a mulher que crê e que reza. Recordo as palavras de Isabel ao receber Maria em sua casa: “Feliz aquela que acreditou”. Essa é Maria, a que acreditou. Agora, após a ascensão de Jesus, Maria é aquela que se junta aos discípulos do Seu Filho para rezar com eles. E não me parece que não o faça mais, isto é, que deixou de estar conosco em oração.



