O encontro de Jesus com Nicodemos

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

São João é o único evangelista que relata um encontro entre Jesus e um dos notáveis do povo judeu, fariseu, membro do Sinédrio, o conselho supremo do judaísmo, chamado Nicodemos (Jo 3,1-21). Em duas outras ocasiões, Nicodemos será citado em São João, nas duas vezes sempre em defesa de Jesus (7,50 e 19,39). Na primeira, Nicodemos adverte seus colegas, que intentavam contra Jesus, lembrando-lhes que a Lei de Moisés não permitia condenar alguém sem antes ouvir a pessoa. A última menção é após a morte de Jesus, quando Nicodemos aparece para comprar perfumes para a unção do corpo de Jesus. O evangelista conta que atuaram no sepultamento de Jesus dois homens: José de Arimateia e Nicodemos; estavam de acordo no que se propuseram, pois chegaram preparados para o que iriam fazer. José de Arimateia, sabemos, era um homem rico, religioso e membro do sinédrio; não consentiu na trama para condenar e crucificar Jesus (Lc 23,51); era discípulo de Jesus às escondidas; antes medroso em mostrar-se discípulo, na morte de Jesus aparece como um homem corajoso e destemido. É nesta ação corajosa que aparece a figura não menos importante de Nicodemos (cf. Jo 3,1-21; 7,50-52), para auxiliar, levando as especiarias em grande quantidade (mais de trinta quilos), para a unção do corpo de Jesus.  

Nicodemos foi quem procurou Jesus à noite, quem sabe por escrúpulo, ou para não ser visto pelos outros do seu círculo. Reconhece perfeitamente que Jesus vem “da parte de Deus como mestre”. A resposta de Jesus é um enigma, pois lhe fala de um novo nascimento, sem o qual não se pode ver o Reino de Deus. A conversa entre os dois é fluida, como entre dois mestres, respeitosa, mas Nicodemos vai até Jesus com interesse de saber mais, ou mesmo de aprender. Jesus lhe propõe um enigma, ao lhe falar da necessidade de um novo nascimento, como critério para a graça do Reino dos céus. Nicodemos não compreende e pergunta a Jesus como será possível para uma pessoa nascer de novo. Estava evidentemente equivocado com a resposta de Jesus, por ter entendido um “voltar ao ventre materno”, enquanto Jesus se referia a um nascer do alto, não ao modo terreno, material, quando se sai do útero materno. Jesus falava de um nascer para a vida celeste, vida nova que procede do Espírito.

A explicação dada por Jesus a Nicodemos não foi de todo satisfatória. O motivo era que Jesus falava do que conhecia, do seu conhecimento eterno, porque só ele havia descido do céu. Nicodemos estava na terra e preso às coisas da terra. Por isso, Jesus lhe diz: “Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem”, uma referência à profecia de Daniel que agora nele, em Jesus, se cumpria. Este título utilizado tantas vezes por Jesus, “o Filho do Homem”, nós compreendemos seu sentido pleno a partir do relato do martírio de Estêvão no livro dos Atos dos Apóstolos. O relato diz o seguinte: “Estêvão, porém, repleto do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus, e Jesus, de pé, à direita de Deus. E disse: “Eu vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus” (At 7,55-56).

O título “Filho do Homem” se encontra em Daniel 7,13-14, que diz o seguinte: “Eu continuava contemplando, nas minhas visões noturnas, quando notei, vindo sobre as nuvens do céu, um como Filho do Homem. Ele adiantou-se até ao Ancião e foi introduzido à sua presença. A ele foi outorgado o poder, a honra e o reino, e todos os povos, nações e línguas o serviam. Seu império é império eterno que jamais passará, e seu reino jamais será destruído”. Jesus afirma ser este Filho do Homem neste texto de São Marcos: “E verão o Filho do Homem vindo entre nuvens com grande poder e glória” (Mc 13,26). Ensina então o Senhor sobre a manifestação de sua glória que, embora oculta aos homens, será vista por todos.

Outro ensinamento de Jesus é sobre o fato de ele ser levantado “como Moisés levantou a serpente no deserto”, referindo-se à serpente de bronze, relato que encontramos no livro dos Números 21. O povo havia se rebelado contra Moisés, ao enfrentar as agruras do deserto, e passou a culpar Moisés. Deus os castigou mandando serpentes venenosas, matando a muitos. Moisés intercedeu pelo povo, e Deus ouviu a oração de Moisés; o Senhor ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze. Os envenenados pela serpente, se olhassem para a serpente de bronze, ficavam curados, recuperando a saúde. Jesus, em sua conversa com Nicodemos, ensina que sua exaltação na cruz será também cura para todas as doenças e liberdade para todos os ludibriados pela serpente satânica. Ou seja, este diálogo era uma prefiguração da sua morte salvadora e a cura que todos nós encontraríamos em Cristo Jesus.

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