Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Começo este segundo artigo sobre o Sermão da Montanha tomando uma circunstância como referência. São Mateus nos informa que seguiam a Jesus “multidões numerosas vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia” (Mt 4,25). A Decápole era o agrupamento de 10 cidades situadas a leste e ao nordeste do rio Jordão até a cidade de Damasco. Jerusalém estava ao centro de todo o território. A Judeia era a província do Sul e a Transjordânia a região do outro lado do rio Jordão. Ou seja, pessoas de todo o antigo reino de Davi, de todo o Israel, estavam procurando, indo e vindo, ao encontro de Jesus. As multidões, todavia, não são um corpo de discípulos, mas aqueles que deixaram tudo para seguir o Senhor. São pessoas com interesses diversos, curiosas, com desejo de conhecer o que este pregador diferente está ensinando. As multidões vêm e vão, num movimento constante.
À continuação do relato, diz-nos São Mateus que Jesus “vendo ele as multidões, subiu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava” (Mt 5,1-2).
Embora São Mateus não diga em qual montanha Jesus subiu, o modo como fala dá a entender que todas as pessoas para as quais ele escreve sabiam a que montanha se referia. Uma antiga tradição identifica o monte com um específico ao qual todos chamam hoje de “Monte das Bem-aventuranças”, com uma igreja octogonal bastante visitada pelos peregrinos, circundada por um imenso, belo e bem cuidado jardim, de onde se tem uma bela visão do Mar da Galileia. Não é, portanto, um lugar simbólico. Mas se entende também a importância de ser um monte que o Senhor escolheu para este ensinamento tão especial. Se aceitamos que o Sermão da Montanha pode ser comparado à grande Lei que Moisés recebeu no Sinai, então podemos dizer que Jesus, ao subir a esse Monte específico, o lugar da manifestação da divindade ou da presença de Deus, sentou-se no seu lugar próprio, onde está a divindade, onde Deus pode ser encontrado, e aí se postou para ensinar a Nova Lei, Lei que sai da sua boca, da boca do próprio Deus encarnado, que se fez homem para estar bem próximo de todos os homens (Jo 1,14), podemos afirmar que Jesus promulga uma nova Lei, a lei do Amor, superior à lei antiga e definitiva.
Aludi acima ao Monte Sinai, lugar da promulgação da antiga aliança. Agora é Jesus quem promulga o código da Nova Aliança, as Bem-Aventuranças. Na Montanha do Sinai, Deus fala ao povo através de Moisés; no Monte das Bem-aventuranças é o próprio Deus que ensina ao seu povo, sem intermediário, o novo código e o caminho para o Reino definitivo.
Aqui, não me proponho interpretar o Sermão da Montanha. Há, desde Santo Agostinho, bons autores que se dedicaram a esta tarefa. Entretanto, é inegável que neste ensinamento de Jesus, amplo, encontram-se alguns requisitos para se entrar no Reino de Deus, pois aponta caminhos novos de comportamento que não devem ser ignorados pelos seguidores de Jesus. Considerando as circunstâncias, não será um caminho de fácil empreendimento. Alguém pode dizer que Jesus propõe o Sermão da Montanha como ideal que só pode ser vivido por uma classe de discípulos bem específica, isto é, não seria para todos os discípulos, o que não pode ser verdade, porque o caminho para o discipulado está aberto a todos e é acessível a todos.
Dizia um antigo professor de Sagrada Escritura, Frei Rogério Beltrami, que não se pode ler a Bíblia em “tirinhas”, mas no seu conjunto. Assim, penso que o Sermão da Montanha, os capítulos 5-7, devem ser lidos no conjunto do Evangelho de São Mateus. Jesus, de fato, se apresenta como o Mestre, que ensina, delineando um caminho de salvação, dedicando algum tempo a mais aos discípulos, e curando as pessoas de toda doença e enfermidade. Este grande Sermão também deve ser compreendido na mesma linha de ensino dos outros quatro relatados por São Mateus nos capítulos 10; 13; 18 e 23-25.
Alguns elementos, entretanto, devemos distinguir, para compreendermos a intenção de Jesus, que o próprio relato nos fornece; assim, vejamos os seguintes: a) Jesus sobe à montanha e se senta, como numa cátedra, de onde ensina; b) Jesus contempla as multidões que o seguem, não como discípulos, mas como as ovelhas perdidas da casa de Israel, tanto que não se menciona o grupo dos samaritanos, que não se consideravam israelitas (cf. Mt 10,5-6); c) alguns querem “ver” essa Montanha como símbolo da Montanha do Sinai, mas Jesus sempre busca os lugares altos para seus grandes eventos – o Monte Tabor, o Monte das Oliveiras e a Montanha da última aparição de Jesus aos discípulos antes de sua subida ao céu (Mt 28,16-20); d) os discípulos se aproximaram de Jesus: quais? Os primeiros quatro? Todos os Doze, que só aparecerão mais tarde (cf. Mt 10,1-2), que já estariam com o Senhor? Podemos supor que sim, isto é, os Doze, pois seria um grupo conhecido por todos. Então o Senhor Jesus se reúne com seus discípulos, a fim de prepará-los para uma missão universal, que definirá o destino da humanidade, que passará pela Igreja, isto é, terá como instrumentos eficazes os discípulos do Senhor de todos os tempos.
Por fim, apresento uma divisão simples do Sermão da Montanha, para uma visão de conjunto e de fácil assimilação:
- As Bem-aventuranças (5,3-12);
- A justiça perfeita como expressão do Reino de Deus (5,13-20);
- As 6 antíteses (5,21-48);
- As três obras de justiça (6,1-18), uma bela catequese sobre a esmola, o jejum e oração;
- O ensino sobre a riqueza (6,19-34);
- O dever de não julgar os outros (7,1-14);
- A cautela com os falsos profetas (7,15-28).
No próximo artigo, farei uma breve exposição sobre as bem-aventuranças e outros ensinos de Jesus constantes neste primeiro grande Sermão do Senhor.




