Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
O Evangelho de São João não narra nem o batismo de Jesus nem as tentações que, segundo os Sinóticos, aconteceram logo depois do Batismo. Ele começa como São Marcos, com a pregação e o testemunho de João Batista (Jo 1,19-23). Logo no início do seu relato, há um detalhe que, geralmente, passa despercebido; João qualifica de “judeus” aqueles que, durante todo o ministério de Jesus, serão seus oponentes e até inimigos, um grupo formado por sacerdotes, levitas e fariseus. Devemos distinguir este grupo específico daqueles outros judeus que, segundo São Mateus, se aproximavam de João para receber o batismo (Mt 3,7).
Os fariseus, ou “separados”, constituam um grupo de pessoas observantes da lei; eles imaginavam que, por este caminho, chegariam à perfeição; fixavam-se, para isto, na Torá, isto é, a lei escrita de Moisés, e na Mishná, na tradição deixada pelos escribas. Eram muito rigorosos. Os levitas, descendestes da tribo de Levi, prestavam algum serviço religioso no templo de Jerusalém.
Como introdução para o relato do chamado dos primeiros discípulos, João usa uma expressão, aparentemente, enigmática; ele diz: “No dia seguinte”, e começa sua narrativa. A que se refere esta expressão? Este “dia seguinte” é o terceiro dos quatro comentados em 1,19-51. João Batista continua às proximidades do rio Jordão dando seu testemunho pessoal acerca de Jesus; fala não às multidões, mas a dois de seus discípulos, André e outro discípulo, talvez o próprio João; olhou Jesus, que passava por ali e disse de Jesus: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Depois de “Filho amado”, este é o segundo título dado a Jesus. O primeiro, no batismo, o segundo, o testemunho de João, já uma indicação do que acontecerá com Jesus ao final de sua vida, quando ele se deixará imolar como um cordeiro e sofrerá como o Servo Sofredor, imagem extraída do profeta Isaías (Is 52,13-53,12), que a cada ano retomamos, especialmente, na Grande Semana.
Ainda seguindo São João, após esta declaração, esses dois discípulos seguiram a Jesus. São João gosta de demarcar as horas: ele diz que “era a hora décima, aproximadamente”, ou seja, por volta das 16 horas, ou às quatro horas da tarde. Os discípulos se dirigem a Jesus como “Rabi”, Mestre. Quem eram esses discípulos de João? Um deles se chamava “André”, irmão de Simão Pedro. Cativado por Jesus, André falou ao seu irmão que havia encontrado o Messias, e o apresentou a Jesus. Jesus, “fitando-o, disse-lhe: “Tu és Simão, filho de João; chamar-te-ás Cefas (que quer dizer Pedra)”, uma forma de dizer o quanto aquela mudança era concreta, sólida, a ponto de, no futuro, Pedro ser de fato a rocha sobre a qual o Senhor constituiria a sua Igreja (Jo 1,40-42; cf. Mt 16,18). O termo “Messias” usado por André para comunicar o seu encontro com Jesus é cheio de significados. Nele está toda a esperança de Israel, a esperança dos justos do povo de Deus. Será o mesmo termo utilizado pela mulher samaritana no poço de Jacó.
No quarto dia, Jesus decide ir para a Galileia. No caminho, encontra Filipe e lhe diz, secamente: “Segue-me”. E Filipe o segue, sem titubear. Filipe era da mesma vila de André e Pedro, Betsaida, situada às margens do lago de Genesaré. O próximo a ser chamado será Natanael, oriundo de Caná da Galileia, um vilarejo não muito distante de Nazaré. O diálogo entre Filipe e Natanael é muito interessante, mas a proclamação de fé do jovem Natanael é muito mais profunda. A resposta de Jesus a Natanael é de amplitude da visão deste jovem, que verá, como Jacó, o céu aberto e a antiga escada restabelecida como comunicação entre o céu e a terra. São, portanto, cinco os primeiros discípulos: dois da escola de João Batista (André e João); os outros três (Pedro, Filipe e Natanael) são seus conhecidos: Pedro era irmão de André, e os outros dois ou amigos, ou vizinhos, ou trabalhavam no mesmo ofício de pesca. Um chama o outro e apresenta Jesus, que acabou de conhecer, pelo qual se sentiu atraído e o descobriu como a resposta de Deus ao clamor do seu povo.
Entre os Sinóticos e São João, há uma notável diferença quanto a escolha dos primeiros discípulos. Os Evangelhos Sinóticos – Mateus, Marcos e Lucas trazem Pedro, André, Tiago e João como os primeiros a serem chamados ao ministério com Jesus. São João, como vimos acima, traz André e o outro discípulo (João), Pedro, Filipe e Natanael.
De Natanael, não sabemos muita coisa, apenas sua identificação com Bartolomeu (como nos Sinóticos); era natural de Caná, onde existe uma pequena capela em sua memória, um pouco antes do santuário da Virgem Maria, lugar da transformação da água em vinho, por Jesus. Não se pode afirmar que este, como os outros, era também pescador.
Já que estamos em São João, no próximo artigo vamos abordar brevemente o milagre das bodas de Caná, o primeiro grande sinal realizado por Jesus. Hoje esta cidade é lugar de intensa peregrinação de católicos; na pequena e aconchegante igreja, muitos casais aproveitam para renovar seus compromissos matrimoniais. O próximo artigo, porém.




