Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo auxiliar de Belém
Caríssimos leitores, estamos no 5º Domingo do Tempo Comum e seguimos com nossa dinâmica semanal de refletirmos sobre a liturgia dominical, trazendo como tema inspirador: “Ser sal da terra e luz do mundo: um chamado atual para a Igreja”. E para este momento, conto com as contribuições de Ir. Maria Rejiane da Mata Dias, Filha da Caridade.
NesteDomingo, o Evangelho de Mateus (5,13-16) apresenta palavras diretas e exigentes de Jesus: “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo”. Não é um convite opcional, mas uma afirmação de identidade. Jesus não diz “vocês devem ser”, mas “vocês são”. Isso revela a missão confiada a todo cristão: transformar o mundo a partir do Evangelho, com simplicidade, coerência e compromisso com a vida. Essas palavras simples, ditas por Jesus no início do Sermão da Montanha, continuam profundamente atuais, especialmente, quando ecoam no coração da Amazônia, território marcado por contrastes, desafios e sinais de esperança.
O sal, na cultura bíblica, não serve para aparecer, mas para dar sabor e conservar. Quando perde sua função, torna-se inútil. O mesmo vale para a fé cristã quando se fecha em si mesma e deixa de dialogar com a realidade. Na Amazônia, ser sal da terra é comprometer-se com a vida ameaçada, com os povos indígenas, ribeirinhos e comunidades urbanas esquecidas que lutam, diariamente, por dignidade.
Na época de Jesus, o sal tinha a função de dar sabor e conservar os alimentos. Quando perde sua força, deixa de cumprir sua finalidade. O Papa Francisco recordava que uma fé sem compromisso concreto corre o risco de se tornar “insípida”, fechada em práticas religiosas que não tocam a realidade. Em diversas homilias, ele insistia que o cristão não pode viver uma fé “de sacristia”, distante das dores e das esperanças do povo. Ser sal da terra é estar presente onde a vida clama por cuidado, justiça e solidariedade.
A imagem da luz complementa a do sal. A luz não chama atenção para si, mas ilumina o caminho. Segundo o Papa Bento XVI, a luz do cristão nasce do encontro verdadeiro com Cristo e se expressa no testemunho cotidiano. Não se trata de discursos grandiosos, mas de gestos simples que revelam valores como a verdade, a honestidade, o respeito e o amor ao próximo. Uma luz escondida perde o sentido; uma fé vivida apenas no âmbito privado deixa de cumprir sua missão.
A luz não existe para ser escondida. Ela ilumina caminhos, revela obstáculos e permite enxergar o outro. Em uma região onde tantas sombras se projetam, a Igreja é chamada a ser luz que denuncia injustiças, mas também anuncia possibilidades. Não se trata de impor verdades e, sim, de testemunhar, com gestos e palavras, que outro modo de viver é possível.
São João Paulo II, ao falar da missão dos leigos, lembrava que o mundo precisa de “testemunhas mais do que mestres”. Essa afirmação dialoga, diretamente, com o Evangelho deste domingo, quando Jesus diz que as boas obras devem ser vistas, não para a glória pessoal, mas para que todos glorifiquem o Pai. A coerência entre fé e vida é o que torna o cristão credível em meio a uma sociedade marcada por crises éticas, sociais e ambientais.
No contexto atual, ser sal e luz significa também assumir responsabilidade social. O Papa Francisco, na encíclica Laudato Si’, reforça que cuidar da Casa Comum faz parte da vivência da fé. A degradação ambiental e a exclusão social caminham juntas, e o cristão é chamado a agir com consciência e solidariedade. Pequenas atitudes, quando somadas, podem iluminar realidades marcadas pela indiferença.
Caros leitores, este 5º Domingo do Tempo Comum nos convida, portanto, a uma revisão de vida. Que tipo de sal estamos sendo? Que luz oferecemos ao mundo? A resposta não está apenas nas palavras, mas nas escolhas diárias. À luz do ensinamento dos Papas e do Evangelho, fica claro: ser cristão é dar sabor à vida e iluminar caminhos, com humildade, esperança e compromisso com o bem comum.
Peçamos ao Senhor que todas as comunidades cristãsrenovem seu compromisso de ser sal que transforma e luz que orienta. Em tempos de tantas incertezas, o testemunho simples, fiel e corajoso do Evangelho continua sendo uma das maiores contribuições que podemos oferecer ao mundo.




