Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém
Meus irmãos e minhas irmãs, neste mês dedicado à Bíblia, temos uma boa oportunidade para recordar algo muito simples, mas fundamental: a Palavra de Deus não foi feita apenas para ser ouvida; ela precisa ser colocada em prática.
As leituras deste 26º Domingo do Tempo Comum nos ajudam a compreender isso. O profeta Ezequiel (Ez 18,25-28) nos lembra que Deus olha para a mudança de vida: quem se afasta do caminho errado e passa a praticar o bem encontra a vida. No Evangelho (Mt 21,28-32), Jesus conta a parábola dos dois filhos. Um diz “não”, mas depois vai trabalhar na vinha; o outro diz “sim”, mas não vai. No final, Jesus deixa claro que fazer a vontade do Pai é mais importante do que simplesmente dizer que acreditamos.
É justamente aqui que a 2ª Leitura (Fl 2,1-11) nos oferece uma palavra muito forte: “Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. Essa frase pode ser um verdadeiro programa para a nossa vida cristã.
Ter os sentimentos de Cristo significa aprender a olhar as pessoas como Ele olhava; aproximar-nos de quem sofre; colocar-nos a serviço; e procurar não apenas os nossos próprios interesses, mas também os interesses dos outros. São Paulo apresenta Jesus como aquele que se fez servo e se entregou por amor.
Por isso, todos os domingos somos convidados a nos reunir como comunidade cristã ao redor da Palavra e da Eucaristia. Não nos reunimos simplesmente porque isso é um costume ou porque precisamos cumprir uma obrigação religiosa. Reunimo-nos para escutar o Senhor, alimentar a nossa fé e discernir juntos o que Deus espera de nós. A Palavra ilumina a nossa vida e também a realidade onde vivemos.
Quando uma comunidade escuta, verdadeiramente, a Palavra, começa também a perceber melhor o que acontece ao seu redor. Quem são as pessoas que precisam de nós? Quem está sofrendo? Quem está sozinho? Quem está passando necessidade? Quem se afastou da Igreja? Que situações de pobreza, violência, abandono ou falta de esperança existem em nosso território?
Essas perguntas fazem parte da missão da comunidade cristã. Não podemos celebrar a Eucaristia e permanecer indiferentes diante da vida das pessoas. A mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia nos enviam para as ruas, para as casas, para as famílias e para os lugares onde a vida está mais fragilizada.
O Concílio Vaticano II nos recorda, na Lumen gentium, que a Igreja, em Cristo, é como que “sacramento, ou sinal, e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1). Isso significa que a Igreja não existe para si mesma. Ela existe para tornar visível Cristo e o seu amor no meio do mundo. É uma comunidade chamada a ser sinal do Reino de Deus e instrumento de comunhão, fraternidade e esperança.
Por isso, a comunidade cristã é o primeiro sujeito da missão. A missão não pertence somente ao padre, ao bispo ou a algumas lideranças. É responsabilidade de todos os batizados. Quando a comunidade se reúne, escuta a Palavra, celebra a Eucaristia, reconhece as necessidades do território e procura responder a elas, essa comunidade está vivendo a sua vocação missionária.
Neste mês da Bíblia, portanto, vale a pena fazer uma pergunta muito simples: O que a Palavra de Deus está pedindo de nós?
Não basta dizer “sim” com os lábios. É preciso colocar a Palavra em prática.
Ter os mesmos sentimentos de Cristo é deixar que a Palavra transforme o nosso coração e as nossas atitudes. É olhar para os mais necessitados com os olhos de Jesus, aproximar-nos de todos com misericórdia e sair ao encontro daqueles que precisam de esperança.
Uma Igreja que escuta a Palavra e celebra a Eucaristia é uma Igreja que sai em missão. Uma comunidade que tem os sentimentos de Cristo não fica fechada em si mesma: vai ao encontro de todos para testemunhar, com palavras e com a própria vida, a novidade do Reino de Deus.
Que este final do Mês da Bíblia nos ajude a compreender que a Palavra de Deus não pode permanecer apenas em suas páginasou emnossos lábios. Ela precisa ganhar vida em nossas escolhas, em nossos relacionamentos, em nossa comunidade e em nosso compromisso com aqueles que mais precisam.
Desejo a todos um bom final do Mês da Bíblia e um bom início do Mês Missionário. À luz do Círio de Nazaré, caminhemos com Maria e, com ela, aprendamos a ser uma Igreja, verdadeiramente, missionária, que acolhe, vive e leva Jesus a todos.




