Com cerca de 120 participantes, das diversas dioceses, congregações religiosas e institutos do Brasil, aconteceu o 13º Seminário de Comunicação, realizado no Centro de Estudos do Sumaré, onde discutiu os desafios da comunicação humana em meio à inteligência artificial, à desinformação e às novas tecnologias.
Durante quatro dias, comunicadores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas se reuniram no Centro de Estudos do Sumaré, para refletir o tema “Narrativas imersivas e confiança pública: desafios da comunicação humana entre transmídia, IA e desinformação”.
Idealizador do evento, o padre Arnaldo Rodrigues, presbítero da Arquidiocese do Rio de Janeiro, assessor de Comunicação da CNBB e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, destacou que o Seminário mantém a tradição de promover um espaço de formação, encontro e partilha entre comunicadores de diferentes partes do país.
“O Seminário de Comunicação mantém a tradição de reunir responsáveis pela comunicação de dioceses, congregações religiosas e instituições de todo o Brasil. A cada edição, convidamos profissionais, pesquisadores e especialistas do Brasil e do exterior para contribuir com a formação dos nossos comunicadores. Mas o Seminário vai além do conteúdo e da capacitação: é também uma experiência de encontro, fraternidade e comunhão, na qual podemos estar juntos, refletir sobre os desafios da comunicação e compartilhar experiências e ideias”, afirmou.
A interdisciplinaridade dos temas e a diversidade de áreas representadas pelos profissionais convidados marcaram a programação do Seminário. Participaram professores da PUC-Rio e da Universidade de Coimbra, representantes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Ministério Público, além de especialistas em inteligência artificial, comunicação, segurança digital, moda, samba e representantes da Igreja. Embora provenientes de diferentes campos do conhecimento e da sociedade, as contribuições convergiram para questões comuns e cada vez mais urgentes: como construir e fortalecer a confiança em uma sociedade marcada por profundas transformações? Como incorporar as novas tecnologias sem abrir mão das relações humanas? E o que significa evangelizar em um ambiente cada vez mais digital?
Viralização e evangelização
A abertura do Seminário contou com a presença do arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Dom Orani João Tempesta, e do idealizador e organizador do evento, padre Arnaldo Rodrigues.
Ao acolher os participantes, Dom Orani destacou a importância de refletir sobre a relação da Igreja com as novas tecnologias e sobre os desafios e as possibilidades que elas apresentam para a missão evangelizadora: “A Igreja sempre procurou dialogar com as linguagens de seu tempo. A arte, a música, a arquitetura, a imprensa, o rádio, a televisão e, agora, as redes digitais foram e continuam sendo instrumentos por meio dos quais o Evangelho encontra a cultura. Não devemos, portanto, olhar para as novas tecnologias apenas como uma ameaça. Elas são também espaços onde a vida acontece. E se queremos estar próximos das pessoas, precisamos estar presentes também nesses novos ambientes”.
A observação trouxe para o centro do debate uma questão cada vez mais presente no cotidiano das redes sociais: alcance e engajamento são importantes, mas não são suficientes para medir a qualidade e a efetividade da comunicação. Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas e gerar inúmeras interações e, ainda assim, não produzir proximidade, fortalecer vínculos ou provocar uma transformação significativa.
Para aprofundar essas e outras questões ao longo do Seminário, participaram como conferencistas:
- Prof. Arthur Ituassu – Diretor do departamento de comunicação da PUC-Rio;
- Prof. Gilberto Mendes – Depto. de Artes e Design da PUC-Rio;
- Prof. Luís Fernando – Secretário executivo do Ministério de Ciência e Inovação;
- Prof. Luís Rodrigues – Dept. de Inteligência Artificial –
Instituto Bhering e PUC-Rio;
- Prof. Pe. Alexandre Favretto – Coordenador do Dept de Teologia da PUC Campinas;
- Prof. Pe. Márcio Santos – Mestre em espiritualidade;
- Profa. Iolanda Rodrigues – Prof. da Universidade de Coimbra, Portugal;
- Profa. Mariana Palmeira – Depto de Direito e Comunicação da PUC-Rio;
- Sra Natalia Louise – Diretora da comunicação da Liga das Escolas Independentes de Samba do Rio de Janeiro;
- Sra. Gislene Isquierdo – Psicóloga e especialista em neurociência;
- Sra. Patrícia Vieira – Estilista e empresária;
- Sro. Welintom Rodrigues – Especialista em IA e segurança estratégica do Ministério Público do Rio de Janeiro;
- Profa. Luciana Pereira – Depto. Comunicação da PUC-Rio;
Confiança não se automatiza
O paradoxo apareceu na conferência do professor Luís Rodrigues: “Eu não confio, mas eu uso”. A frase resumiu a relação de muitas pessoas com as ferramentas de inteligência artificial.
Usamos sistemas que nem sempre compreendemos completamente, aceitamos termos e condições que raramente lemos e fornecemos informações sem saber exatamente como serão utilizadas. O uso dessas tecnologias cresce rapidamente, enquanto a confiança nem sempre acompanha esse avanço. A discussão, porém, não se limitou aos riscos tecnológicos. A questão central foi compreender a diferença entre utilizar uma ferramenta e delegar a ela aquilo que pertence propriamente à humanidade.
A confiança se constrói com o tempo. Nasce do convívio, da proximidade, da escuta e da experiência de conhecer o outro. Nenhuma resposta automática, por mais bem elaborada que seja, é capaz de substituir, por si só, esse processo essencialmente humano.
O professor Gilberto Mendes, do Departamento de Design da PUC-Rio, aprofundou essa reflexão a partir das narrativas imersivas e da comunicação multissensorial. Comunicar, nessa perspectiva, não significa apenas transmitir uma informação. É preciso considerar a realidade de quem recebe a mensagem, compreender seus contextos e criar condições para que a comunicação se transforme em uma verdadeira experiência de encontro.
Gislene Isquierdo abordou a comunicação de impacto e os recursos da oratória. Welinton Rodrigues apresentou ferramentas e cuidados relacionados à pesquisa, à segurança digital e ao enfrentamento da desinformação. Já a professora Luciana Pereira tratou da identidade, da imagem e da preparação necessária para aqueles que assumem a responsabilidade de falar em nome de uma instituição.
Na conferência de Natalia Louise, da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), os participantes foram conduzidos aos bastidores da construção da narrativa do Carnaval. Por trás de um desfile que dura poucas horas, existe um trabalho desenvolvido ao longo de todo o ano, envolvendo comunidades, artistas e inúmeros profissionais. Também nesse universo, a comunicação nasce de pessoas, vínculos e histórias que nem sempre são percebidos quando o espetáculo finalmente chega à Avenida.
Criar e reconhecer os limites
A mesa-redonda de encerramento ampliou o debate, conduzindo a reflexão para uma dimensão mais antropológica, teológica e espiritual. Entre os temas abordados, destacou-se a capacidade humana de criar, compreendida como uma das características que revelam a singularidade da pessoa e sua condição de imagem e semelhança de Deus.
O ato de criar, o “eu crio”, não pode ser simplesmente substituído. A tecnologia pode auxiliar os processos criativos, ampliar possibilidades e oferecer novas ferramentas, mas permanece uma questão fundamental: qual é o lugar da pessoa diante daquilo que ela própria criou? Mais do que perguntar até onde a tecnologia pode chegar, é necessário refletir sobre quem estamos nos tornando à medida que ampliamos suas possibilidades.
Outro ponto importante foi a reflexão sobre os limites humanos. Eles não devem ser compreendidos apenas como deficiência, incapacidade ou algo a ser necessariamente corrigido pela tecnologia. O limite também pode ser lugar de revelação. É nele que a pessoa reconhece que não basta a si mesma, que necessita do outro e que permanece aberta à transcendência e a Deus. Essa perspectiva trouxe uma provocação importante para o debate sobre a tecnologia: se passamos a acreditar que tudo pode ser resolvido por uma ferramenta, corremos o risco de imaginar que já não precisamos de ninguém. A busca por uma autonomia absoluta pode, paradoxalmente, conduzir ao isolamento.
Para os comunicadores da Igreja, a conclusão apresentada durante a mesa foi clara: não basta estar presente nas plataformas; é preciso estar presente de maneira verdadeiramente humana e cristã. Isso significa comunicar a partir do testemunho, da interioridade, da escuta e de relações concretas. Afinal, para a Igreja, não se trata apenas de comunicar: trata-se de evangelizar.
Foi nesse contexto que o padre Arnaldo Rodrigues recorreu à imagem da Igreja como uma “casa de vidro”: uma casa que preserva uma luz em seu interior e, ao mesmo tempo, está permanentemente exposta ao olhar da sociedade. “Essa luz não existe simplesmente para recriminar, mas para redimir e iluminar”, afirmou. A imagem sintetizou um dos principais desafios apresentados ao longo do Seminário: “estar no ambiente digital não apenas para ocupar espaços ou ampliar alcance, mas para oferecer uma presença capaz de gerar confiança, encontro e esperança”, acrescentou.
Um mosaicom que não exclui
A sexta-feira começou com a celebração da Santa Missa, presidida pelo arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Dom Orani João Tempesta. Em sua homilia, ele refletiu sobre os desafios de uma sociedade marcada por divisões, dispersões e conflitos, recordando a responsabilidade da comunicação cristã na construção da unidade e da comunhão.
Na conclusão do Seminário, Dom Orani retomou uma imagem utilizada durante a manhã: pedras de diferentes cores e formas podem ser reunidas para formar um mosaico; da mesma maneira, pedaços distintos de vidro, quando colocados juntos, dão origem a um vitral. A imagem ajudou a sintetizar a mensagem deixada aos participantes: a diversidade não precisa produzir divisão, mas pode contribuir para a construção da unidade. “A nossa missão é unir e não segregar”, destacou.
Prêmio reconhece trajetórias
A programação do Seminário incluiu também a entrega da terceira edição do Prêmio São Paulo VI de Comunicação, concedido, neste ano, à irmã M. Nilza Pereira da Silva e ao jornalista Fabiano Fachini. A premiação busca reconhecer profissionais do jornalismo, das tecnologias emergentes e de outras áreas da comunicação que se destacam pelo compromisso com a promoção da dignidade humana, da verdade e do bem comum.
Irmã Nilza é consagrada do Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt, graduada em Pedagogia, Teologia e Jornalismo, mestre em Filosofia da Linguagem e doutoranda em Teologia. Sua trajetória inclui a atuação na assessoria nacional de comunicação do Movimento Apostólico de Schoenstatt, além de trabalhos de formação, comunicação e espiritualidade junto à Pastoral da Comunicação. É autora do livro A Vocação do Comunicador Católico – Teologia, Espiritualidade e Missão.
Fabiano Fachini é jornalista e atua há mais de 20 anos em diferentes áreas da comunicação. Com experiência em assessoria de imprensa, jornalismo, rádio, televisão e mídias digitais, trabalha atualmente como consultor de marketing e estrategista digital, além de dedicar-se à formação de equipes e a projetos ligados à comunicação católica.
Cristo Redentor e Monsenhor Marco Frisina
O Seminário de Comunicação também proporcionou momentos especiais de convivência, espiritualidade e cultura. Na noite de quinta-feira, os participantes visitaram o Santuário Cristo Redentor. Para alguns, foi a primeira oportunidade de conhecer um dos principais símbolos do Rio de Janeiro e do Brasil. A visita tornou-se também um momento de fraternidade, entusiasmo, contemplação e paz, fortalecendo os vínculos construídos durante os dias de encontro.
Para encerrar a programação, foi realizado o Concerto pela Paz, conduzido por Monsenhor Marco Frisina, um dos mais reconhecidos compositores e regentes de música sacra contemporânea. O concerto aconteceu na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na PUC-Rio, e reuniu o grão-chanceler da Universidade e arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Dom Orani João Tempesta; o reitor da PUC-Rio, padre Anderson Pedroso, SJ; os participantes do Seminário; além de mais de 1.200 convidados.
A apresentação contou com a participação da Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro, residente na PUC-Rio, e de um grande coro formado especialmente para a ocasião, reunindo coralistas e alunos da Universidade. Mais do que uma apresentação musical, o concerto tornou-se o gesto final de uma programação dedicada à reflexão sobre comunicação, tecnologia, relações humanas e evangelização: uma experiência em que música, fé e encontro se uniram em uma mensagem de paz e esperança.
Monsenhor Frisina apresentou, pela primeira vez durante o concerto, o hino dedicado ao Cristo Redentor, “Luz da Minha Vida”, tornando a noite ainda mais significativa para os participantes.
Para Padre Arnaldo Rodrigues, a música ajudou a traduzir, de maneira concreta e sensível, a proposta que atravessou os quatro dias do encontro: “Vivemos muitos momentos importantes ao longo do Seminário. O Concerto pela Paz, com Monsenhor Marco Frisina, a orquestra e o coro, mostrou como a música é capaz de agregar, gerar sentido, despertar esperança e promover a paz. Encerrar o Seminário de Comunicação com esse concerto nos recorda que a verdadeira experiência humana passa pela unidade e pela capacidade de nos relacionarmos com o outro. Assim como um instrumento ou uma voz, isoladamente, não são capazes de produzir uma grande sinfonia, é quando diferentes instrumentos e vozes se encontram, se escutam e se harmonizam que algo maior acontece. Isso também é comunicação: reconhecer o outro, construir comunhão e permanecer plenamente humanos”, destacou.
Fonte: CNBB / Por Emanuell Barroso – Seminário de Comunicação da Arquidiocese do Rio




