Na Ilha do Marajó, faltam habitações dignas

E sobressai a arquitetura do descaso

As famílias sobrevivem sobre palafitas em decomposição e sofrem com o isolamento geográfico e seus custos materiais e psicológicos
As famílias sobrevivem sobre palafitas em decomposição e sofrem com o isolamento geográfico e seus custos materiais e psicológicos

A tábua range sob o peso de cinco crianças, mas o som que realmente assusta Maria de Fátima não é o da madeira, é o da chuva. Em Chaves, no arquipélago do Marajó, estado do Pará, a “casa” é um organismo em suspensão que luta contra a gravida­de sobre estacas de madeira apodre­cida. Ali, o Índice de Desenvolvimen­to Humano (IDH) de 0,453, um dos mais baixos do Brasil, não é um nú­mero estatístico, é o cheiro do esgoto que se mistura à lama sob o assoalho e a visão do horizonte onde o teto de ripas envelhecidas parece pedir licen­ça para cair a cada temporal.

Quando a maré sobe ou o in­verno amazônico castiga, a lama não apenas circunda as estacas: ela invade o espaço do descanso, ig­norando a altura do assoalho. En­quanto a Campanha da Fraterni­dade de 2026 ecoa nas paróquias o lema “Ele veio morar entre nós”, em Chaves, o sagrado parece habitar o improviso.

A crise da moradia não se resolve com tijolos, que raramente chegam aos portos locais a preços justos. Tra­ta-se de uma patologia do isolamento que mantém 69% da população em pobreza extrema. O direito constitu­cional à habitação é uma promessa que, como as águas barrentas do Rio Amazonas, passa, mas nunca fica.

Cômodo único: onde a intimidade é naufrágio

A proposta lançada pela Confe­rência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre a moradia como “san­tuário da vida” encontra nestas pa­lafitas um desafio teológico e social. A arquitetura da pobreza no Marajó desconhece o que a planta baixa de um projeto habitacional chamaria de “cômodos”. Ali, a casa se resume a um vão único de madeira porosa e impõe uma transparência forçada. Sem pa­redes internas, o casal, as crianças, o sono e a vida doméstica ocupam o mesmo quadrado de poucos metros. A privacidade, pilar da dignidade hu­mana, é um artigo de luxo inacessível.

Nesse ecossistema de sobrevivên­cia, a rede de dormir deixa de ser apenas um símbolo cultural de des­canso para se tornar a única forma de repouso possível. É nela que três ou até quatro pessoas se comprimem para atravessar a noite. O conceito de “quarto”, basilar para a formação da individualidade e a proteção da in­fância, torna-se uma abstração diante da urgência de manter todos sob o mesmo teto. “A gente se ajeita como pode”, desabafa Maria de Fátima, mãe de 21 filhos, dos quais nove, entre adultos e crianças, moram com ela. A falta de divisórias não é uma escolha de convivência, mas uma sequela da exclusão habitacional que vulnerabi­liza os mais jovens, expondo-os pre­cocemente à complexidade da vida adulta.

Erosão do tempo

Para compreender a casa de Maria de Fátima é preciso entender Cha­ves. Conhecida historicamente como uma cidade plana, de ventos constan­tes, o município paraense enfrenta uma batalha perdida contra a geo­grafia. Chaves fica na “costa de fora”, onde o Rio Amazonas se funde com o Oceano Atlântico em uma dança de marés brutais. Nos últimos anos, a erosão costeira, o fenômeno das “ter­ras caídas”, tem redesenhado o mapa da cidade.

Onde antes havia ruas, hoje há passarelas de madeira. O avanço das águas empurra as famílias para áre­as cada vez mais baixas e alagadiças. Para quem vive nessas zonas de vár­zea, o solo é uma entidade instável. A lama, que em Chaves ganha uma consistência de argila pesada, não é apenas o chão: é o destino. Ela engole as estacas de madeira que deveriam durar décadas, mas que apodrecem em cinco anos sob a acidez do am­biente e o descaso do saneamento.

O diagnóstico da lama

A crise sanitária no Marajó é uma extensão direta da crise habitacional. Onde a moradia falha em isolar o mo­rador do ambiente insalubre, o corpo se torna o depósito das negligências públicas. Nas crianças marajoaras, a saúde se lê nas pernas. As dermatites e as infecções fúngicas são tatuagens do descaso, frutos do contato inevitá­vel com a lama.

A Campanha da Fraternidade aponta que a falta de uma “casa sau­dável” é uma forma de violência si­lenciosa. Para a Igreja, o cuidado com a saúde é indissociável do cuidado com o habitat. No contexto de Cha­ves, a dignidade da pessoa humana é ferida cada vez que uma mãe precisa escolher entre comprar um quilo de feijão ou mais um sarrafo para re­mendar o piso. A rotina de “suspen­der a vida” recomeça sempre que as águas caem ininterruptas. O terreno, saturado, não absorve mais nada. Ele devolve uma lama densa que engole as bases da casa.

Os sacos de farinha, o ouro ama­relo da dieta marajoara, são os pri­meiros a ganhar o topo de caixotes improvisados. Depois vêm as roupas, o rádio a pilha e o caderno escolar. A casa se torna um arquipélago inter­no, no qual cada móvel é uma ilha seca cercada pelo avanço da umida­de. Esse estado de vigília permanen­te cobra um preço que os remédios do posto de saúde raramente alcan­çam: o esgotamento mental de quem nunca pode baixar a guarda para o próprio chão.

Fisiologia do improviso

Onde não existe encanamento, o banheiro é uma estrutura satélite, apartada do corpo principal da ha­bitação. São pequenos quadrados de quatro ripas de madeira, erguidos so­bre o lodo e acessados por passarelas instáveis, com um buraco aberto di­retamente sobre o solo. Ali, o banhei­ro não é um cômodo de asseio, mas um dispositivo de descarte. O banho segue a mesma lógica: feito a baldes, é uma operação de racionamento. Cada litro de água utilizado exige um esforço físico prévio de transporte do rio até os reservatórios domésticos.

A água que limpa o corpo é a mes­ma usada para cozinhar. Sem rede de abastecimento, a fonte é a água bar­renta do Rio Amazonas, uma mas­sa densa que carrega os sedimentos da floresta e os resíduos de embarcações. Para torná-la minimamente aceitável, a população recorre ao hi­poclorito de sódio. O agente químico, despejado nos baldes, atua como um decantador improvisado; depois, essa água “tratada” é despejada nos filtros para consumo.

A economia do isolamento 

Em Chaves, a matemática da sobrevivência esbarra em uma variável implacável: o frete. Para Maria de Fátima, o sonho da alvenaria, com tijolos que não apodrecem e cimento que sela a umidade, morre na beira do trapiche. O isolamento geográfico, banhado por águas que dificultam o acesso de grandes embarcações, cria uma inflação particular. Um saco de cimento, ao navegar de Belém até as ilhas, pode ter seu preço duplicado pelo custo do diesel e pela logística de transbordo manual.

Essa economia do isolamento torna qualquer reparo estrutural um luxo elitista. Quando uma estaca de madeira cede sob a palafita, o custo para substituí-la compete diretamente com o prato de comida. É um ciclo autossustentável de pobreza, no qual a renda da pesca e da venda do açaí são insuficientes para vencer a barreira logística, condenando as famílias a remendos perpétuos em estruturas que o tempo já reclamou.

‘Ele veio morar entre nós’

A Campanha da Fraternidade 2026 convoca a romper esse ciclo, mas a solução não reside apenas na importação de modelos urbanos. O debate da CNBB abre caminho para a arquitetura ribeirinha sustentável. Morar com dignidade no Marajó significa abraçar a sabedoria ancestral das águas com o suporte da tecnologia: madeira certificada, captação de água da chuva e energia solar. A habitação na Amazônia exige subsídios logísticos e respeito à cultura das águas.

Ao final do dia, enquanto o sol se põe sobre o horizonte imenso de Chaves, Maria de Fátima observa suas crianças dividindo o espaço seco que restou. A matéria da vida dela é feita de resistência, mas a resistência tem um limite de fadiga, assim como a madeira de suas estacas. 

A precariedade habitacional em Chaves apresenta-se menos como um fatalismo geográfico e mais como um resultado de métricas de investimento que não alcançam a todos. Ao propor o lema “Ele veio morar entre nós”, a Campanha da Fraternidade 2026 desloca o olhar do debate técnico para o campo da ética social, sugerindo que a ausência de um teto digno é a face visível de uma exclusão mais profunda e que Cristo continua ocupando as “estrebarias modernas”, nas quais a dignidade humana não é o fundamento da construção, mas uma ausência documentada.

Fonte: Jornal O São Paulo / Tatianna Porto

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