Em 1626, nascia a primeira redução jesuítico-guarani, dando início a uma das experiências mais marcantes da história da educação, da evangelização e da organização social na América Latina. Quatro séculos depois, as Missões Jesuítico-Guarani continuam despertando reflexões sobre formação humana, convivência comunitária e construção do bem comum. Mais do que um capítulo do passado, a experiência missioneira permanece inspirando práticas educativas que valorizam o diálogo entre culturas, a aprendizagem coletiva e a formação integral da pessoa. Em 2026, quando se celebram os 400 anos das Missões, unidades da Rede Jesuíta de Educação (RJE) renovam o olhar sobre esse legado e sua relevância para os desafios do presente.
Para o Pe. Felipe de Assunção Soriano, SJ, coordenador e curador do Memorial Jesuíta da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), as reduções revelam a força transformadora da educação quando ela promove vínculos e valorização das pessoas. “As reduções manifestam claramente como a educação pode favorecer a construção de vínculos, a troca de saberes, a valorização das pessoas e a promoção de uma cultura de paz. Aquilo que jesuítas e guaranis construíram juntos permanece como uma experiência histórica singular, marcada pela colaboração, pela aprendizagem mútua e pela busca de um projeto comum de vida”, destaca.
Segundo ele, mesmo considerando as limitações e tensões próprias do contexto histórico, a experiência missioneira continua provocando reflexões importantes para a educação contemporânea. “O legado das Missões não pertence apenas ao passado. Ele continua provocando reflexões sobre o papel da educação na formação integral da pessoa, no cuidado com o outro e na construção de uma sociedade orientada pelo bem comum. A experiência missioneira oferece à educação contemporânea a compreensão de que o processo educativo não se reduz à transmissão de conteúdos, mas envolve a formação integral da pessoa e sua inserção comunitária”, afirma o jesuíta.
Em um contexto marcado pelo individualismo e pela fragmentação social, ele destaca que a memória das Missões convida a repensar a educação como experiência de comunidade, cooperação e corresponsabilidade. “Aquilo que as reduções produziram foi uma educação que nasce do coletivo e se orienta para o bem comum da sociedade.” Além disso, as Missões Jesuítico-Guarani também oferecem elementos para refletir sobre questões contemporâneas, como justiça social, interculturalidade e cuidado com a Casa Comum. “A experiência missioneira buscou, em muitos momentos, proteger populações indígenas contra a escravidão, promover formas comunitárias de organização e criar espaços de convivência intercultural entre europeus e guaranis. Hoje, mais do que nunca, precisamos fortalecer o diálogo entre fé e cultura, o compromisso com a justiça, a excelência acadêmica, o cuidado com a pessoa inteira e a responsabilidade social”, observa o Pe. Felipe.
Ao comemorar os 400 anos das Missões, o jesuíta destaca ainda a importância de pensar o futuro diante das rápidas transformações tecnológicas e culturais. “Em um tempo marcado por profundas transformações tecnológicas e culturais, especialmente pelos desafios colocados pela inteligência artificial, torna-se indispensável perguntar não apenas o que a humanidade é capaz de produzir, mas sobretudo que tipo de humanidade desejamos construir.”
Aprender a história onde ela aconteceu
Manter viva a memória das Missões também significa proporcionar experiências que aproximem as novas gerações desse patrimônio histórico e cultural. É o que acontece há mais de 25 anos no Colégio Anchieta, de Porto Alegre (RS), por meio do Projeto Missões. A iniciativa integra a jornada de estudos dos estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental e promove uma imersão na história e na cultura do Rio Grande do Sul. Durante o percurso, os alunos estudam a constituição do povo gaúcho, seus costumes, tradições e diferentes influências culturais. “Estar in loco nos ambientes onde os fatos históricos ocorreram, visitar as ruínas, os espaços e ambientes culturais privilegia ter um contato direto com a herança jesuítico-guarani e seus legados”, explica Tatiane Ayala Waldow, coordenadora da Unidade de Ensino Fundamental I.
Neste ano, um grupo de estudantes já participou da viagem pedagógica à Região Missioneira e outros irão ao longo do mês de junho. Entre as atividades, estiveram visitas ao Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, ao Museu das Missões, ao Santuário do Caaró, em Caibaté, e a espaços históricos de Santo Ângelo.
O contato com o patrimônio material e imaterial da região também inclui a aproximação com a cultura guarani por meio do artesanato e das narrativas preservadas nos museus e centros culturais. Para Tatiane, conhecer presencialmente a Região Missioneira amplia a compreensão dos estudantes sobre a história e suas conexões com o presente. “É importante estar na região missioneira, pois é onde a história aconteceu e passar pela experiência dos povos originários e os desafios que viveram com os jesuítas, suas aprendizagens, modo de vida e o quanto tudo isso conversa com a nossa vida da atualidade contribuem para que os estudantes reflitam, ativamente, numa perspectiva temporal, o que foi positivo e o que não podemos descuidar para com os nossos semelhantes e o ambiente social”, analisa. “A viagem à região missioneira proporciona uma imersão experiencial na história, pois estar nos locais onde os fatos aconteceram contribui significativamente para a compreensão do passado e do presente”, completa a orientadora pedagógica do 4º ano, Aline Pedroso.
Antes da viagem, os estudantes realizam pesquisas, leituras e atividades preparatórias. Depois, os conhecimentos são aprofundados em sala de aula por meio de reflexões, debates e produções que conectam passado e presente. “O tema histórico é revisitado e atualizado através do diálogo crítico e reflexivo que se dá entre colegas, professores e educadores. Desta forma, vamos criando um ambiente onde eles se sentem inseridos e pertencentes à cultura de seu povo”, afirma Tatiane.
Em um ano comemorativo, o projeto ganhou ainda mais significado. “Esta oportunidade trouxe um novo fôlego para algo que sempre fez sentido e foi ponto de partida para nossos estudantes do 4º ano”, destaca a coordenadora. Entre as iniciativas previstas está a produção de um livro de poesias inspirado na temática missioneira, com lançamento previsto para 2027.
Reflexões para os desafios do presente
No Colégio São Luís, em São Paulo (SP), os alunos do Ensino Médio participam do Estudo de Campo na Tríplice Fronteira. A proposta busca promover experiências que estimulem o diálogo intercultural, a consciência histórica e o compromisso com a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva, a partir da visita à Foz do Iguaçu (Brasil), Puerto Iguazú (Argentina) e às Missões Jesuíticas (Paraguai). “Os valores inacianos estão presentes em toda a concepção e execução do estudo de campo, especialmente na perspectiva de formação integral dos estudantes. A experiência busca concretizar o princípio de ‘ser mais para os demais e com os demais’, incentivando a construção coletiva do conhecimento, a empatia e o compromisso com a realidade social”, explica Thiago Vicente de Camargo, orientador educacional da instituição.
Ao abordar a experiência missioneira, o estudo de campo também estabelece conexões com debates contemporâneos relacionados ao território, à diversidade cultural e aos direitos dos povos originários. “A experiência missioneira evidencia as complexidades e contradições do processo colonial, que, ao mesmo tempo em que esteve inserido na lógica de ocupação europeia da América, também promoveu iniciativas de proteção e valorização de aspectos culturais indígenas.”
Para Thiago, essa herança histórica dialoga diretamente com discussões atuais sobre demarcação de terras indígenas, marco temporal e reconhecimento dos direitos territoriais dos povos originários, além de evidenciar o potencial do diálogo intercultural na construção de formas de convivência entre diferentes grupos. Os aprendizados levados pelos estudantes ultrapassam os conteúdos curriculares. “Essas iniciativas contribuem para ampliar a compreensão histórica dos processos de formação da América Latina e fortalecem práticas de respeito, escuta e colaboração intercultural. Ao aproximar os estudantes de diferentes perspectivas culturais, essas experiências ajudam a combater preconceitos, discriminações e manifestações de racismo, favorecendo a construção de uma sociedade mais plural, justa e comprometida com a valorização da diversidade humana.”
Fonte: Portal Jesuítas Brasil




