A manhã desta quarta-feira, 25 de março de 2026, foi marcada por um misto de saudade e esperança na sede do Regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB N2). Em uma celebração eucarística carregada de simbolismo, colaboradores, religiosos e amigos reuniram-se para agradecer o pastoreio de Dom Teodoro Mendes Tavares, que deixa a Amazônia para assumir uma nova missão como Bispo de Santiago de Cabo Verde, na África, após sua nomeação pelo Papa Leão XIV.
Cabo-verdiano de nascimento, Dom Teodoro fecha um ciclo de entrega profunda à Igreja no Brasil, onde atuou como Bispo de Ponta de Pedras e Bispo Auxiliar de Belém. Agora, retorna às suas raízes, levando consigo o “cheiro das águas” do Pará para as ilhas do Atlântico.
Durante a celebração, que coincidiu com a Solenidade da Anunciação do Senhor, Dom Teodoro proferiu uma homilia que serviu como um testemunho de sua própria caminhada vocacional. Refletindo sobre o “Sim” de Maria e a escolha de Nazaré — um lugar que, aos olhos do mundo, parecia sem valor, o Bispo traçou um paralelo com a missão na Amazônia. “Deus escolhe o que parece fraco para construir um governo forte. Maria, em sua casa em Nazaré, ensina-nos que a alegria profunda vem de acreditar no impossível para Deus”, afirmou Dom Teodoro.
O bispo destacou que a vocação exige despojamento “para que aconteça a vocação, é preciso deixar que as vozes que nos precederam ecoem em nós. Eu vi nesta terra a graça de Deus se manifestar na simplicidade. A resposta deve ser sempre o caráter de serviço ‘Faça-se em mim segundo a Vossa Palavra”.
A trajetória de Dom Teodoro é marcada pela travessia entre dois mundos que, embora distantes no mapa, compartilham a alma das “Igrejas de Fronteira”. *A Diocese de Ponta de Pedras*, no coração do arquipélago do Marajó, é uma realidade fluvial e florestal. Ali, Dom Teodoro enfrentou os desafios geográficos das marés e a luta por justiça social em uma região marcada pela vulnerabilidade das populações ribeirinhas — contexto intimamente ligado ao movimento do “Grito dos Excluídos”, que o bispo sempre acompanhou de perto.
A Diocese de Santiago de Cabo Verde, para onde segue agora, é a mais antiga da África (fundada em 1533). Se no Marajó o desafio era a abundância e a logística das águas, em Santiago a realidade é a de um arquipélago vulcânico, onde a escassez de recursos hídricos e a resiliência do povo africano definem a fé.
O “paralelo de realidades” é claro, em ambas as dioceses, a Igreja atua como porto seguro. Enquanto em Ponta de Pedras a missão é navegar os furos e igarapés para levar o Evangelho, em Santiago a missão é ser ponte entre os continentes, mantendo viva a identidade de um povo que, assim como o amazônida, encontra na fé a força para resistir às adversidades.
O Regional Norte 2 despede-se de um pastor que não apenas administrou, mas caminhou junto. O ato de amizade e gratidão realizado em Belém reafirma que Dom Teodoro deixa em solo paraense um rastro de diálogo inter-religioso, formação de leigos e um olhar atento às juventudes.
Ao retornar para Cabo Verde, ele não volta apenas para casa; ele leva a experiência da Igreja com rosto amazônico, pronta para florescer nas ilhas de Santiago sob a proteção de Nossa Senhora de Nazaré, a quem os fiéis rogaram bênçãos para sua nova jornada.
Fonte: Regional Norte 2 / Por VívianMarler













