Em processo a criação da Pastoral da Moradia e Favela

No Regional Norte 2, CNBB

Na última quarta-feira, (6/5), a sede do Regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB N2), em Belém, foi o cenário de um passo fundamental para a justiça social na Amazônia. Lideranças de diversas pastorais, movimentos populares, religiosos, religiosas e diáconos se reuniram para fortalecer o processo de articulação da Pastoral da Moradia e Favela.

O encontro contou com a assessoria de Frei Marcelo Toyansk, coordenador nacional da pastoral, e teve como objetivo principal aproximar organizações e sensibilizar a Igreja local para a urgência da pauta habitacional. Embora ainda não esteja oficialmente estabelecida no Regional Norte 2, o movimento marca o começo de um esforço coletivo para enfrentar as profundas desigualdades urbanas.

Para Frei Marcelo Toyansk, a realidade das grandes concentrações urbanas na Amazônia, como Belém e Manaus, é alarmante. O coordenador destaca que cerca de metade da população dessas cidades vive em periferias, muitas vezes em áreas de risco e sujeitas a constantes alagamentos, um reflexo direto da falta de infraestrutura e da omissão política. “A moradia precisa ser considerada um direito e uma necessidade básica e sagrada para todos. Nosso objetivo é formar equipes qualificadas nas causas da negação da moradia digna, fundamentadas em uma espiritualidade comprometida que corrobore para o fortalecimento da vida comunitária e a garantia de políticas públicas”, afirmou Frei Marcelo.

Erika Moreira, da União Nacional por Moradia Popular (UNMP), trouxe para o debate a voz de quem vive a resistência no cotidiano das baixadas paraenses. Ela identificou quatro frentes críticas que a futura pastoral deve enfrentar. O ‘Saneamento’ que é uma luta histórica contra as cheias que castigam a periferia enquanto o centro é priorizado; a ‘Insegurança Fundiária’ que possui a falta de regularização das terras como forma de exclusão e ameaça de despejo; a ”Gentrificação, que são os processos de “modernização” para grandes eventos que empurram os pobres para as margens, rompendo laços comunitários, e o ”Racismo Ambiental’, onde a constatação de que as populações periféricas são as que mais sofrem com a crise climática.

Segundo Erika, a Pastoral da Moradia e Favela atuará como um elo entre a fé e a justiça social, servindo de suporte técnico e espiritual, além de agir como um escudo jurídico contra violações de direitos humanos.

Para o diácono Francisco Euvrágio, a realidade das periferias exige que a Igreja vá além do discurso e assuma um papel ativo na defesa da dignidade humana. Segundo ele, a negação de uma moradia digna fere a condição de filhos de Deus e convoca a comunidade a uma conversão que é, ao mesmo tempo, pessoal e social.

Baseado no método que norteia a ação pastoral, Euvrágio aponta três atitudes fundamentais para enfrentar o déficit habitacional e a especulação imobiliária. O primeiro passo é o ‘Ver’ para denunciar as desigualdades e evitar a armadilha de culpar os pobres por sua própria exclusão.

O segundo momento é o ‘Iluminar’ (Julgar), onde se anuncia que Cristo habita nas periferias. Por fim, o ‘Agir’ traduz-se no compromisso com os vulneráveis, sendo uma “voz profética” que promove políticas públicas e organiza as comunidades. “O papel da Igreja é não naturalizar a falta de moradia”, enfatiza o diácono.

Em uma capital marcada por desafios geográficos e sociais, como as áreas de baixadas, ocupações e favelas, a criação e o fortalecimento da ‘Pastoral da Moradia e Favela’ surge como uma necessidade urgente. Para Francisco Euvrágio, essa pastoral cumpre três funções vitais para a Igreja de Belém. A ‘Concretização do Discurso’ quando retira a Campanha da Fraternidade do campo teórico, transformando-a em ações que mudam a vida das comunidades. O ‘Protagonismo das Periferias’ que garante que a realidade local seja vista de dentro, tratando os moradores como sujeitos de direitos e combatendo o estigma da pobreza. E a ‘Encarnação Pastoral’ quando defende-se o teto.

A Igreja na área do Regional Norte 2 vive o mistério do Verbo Encarnado. “Se ‘Ele veio morar entre nós’, a Igreja precisa ‘morar’ pastoralmente nas periferias”, afirma Euvrágio, defendendo que a moradia é condição essencial para a vivência da “Igreja doméstica”.

O evento não se limitou ao diagnóstico. Na ocasião, foi apresentada a missão da Pastoral em outras regiões do Brasil e como ela pode ser adaptada à realidade paraense. Ao final da reunião, foi constituída uma equipe de articulação responsável por dar os próximos passos para a estruturação da pastoral em Belém.

O sentimento comum entre os participantes é de que a moradia digna deve estar no centro das decisões sobre o futuro da cidade. Com essa mobilização, a Igreja na Amazônia reafirma seu compromisso de estar presente onde a vida é mais ameaçada: nos territórios de favela e nas periferias urbanas.

Fonte: Regional Norte 2 / Por VívianMarler / Fotos Eduardo Soares

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