Dizem que o Evangelho não se lê apenas nos livros, mas se escreve com os pés. Entre os dias 8 e 12 de julho, as estradas de terra e as águas da Área Pastoral Santa Clara, em Monte Alegre (PA), foram testemunhas de uma escrita sagrada. A ‘9ª edição das Missões Angelinas’ reuniu 115 jovens entre missionários da região de Santarém e do Paraná que, decidiram trocar o conforto de casa pelo “aperreio” abençoado de ser uma Igreja em saída.
Nascidas no Ano da Misericórdia por iniciativa das Irmãs Franciscanas Angelinas, as missões deste ano carregavam um peso espiritual ainda mais profundo. Celebravam-se os 800 anos da Páscoa de São Francisco de Assis, o “Poverello” que gritava ao mundo “Meu Deus e Meu Tudo”, e os 125 anos de partida da fundadora da congregação, Madre Clara Ricci.
Para quem olha de fora, pode parecer apenas um encontro religioso. Para quem vive, é um “nascimento”. Entre os depoimentos colhidos no calor da missão, um se destaca pela humanidade, o de uma das irmãs que, após 15 anos, voltou a dormir em uma rede e a subir na garupa de uma moto para alcançar os distantes. “Para mim, foi como nascer de novo. Encontrar as pessoas que encontramos é ser muito mais enriquecido por elas do que o contrário. É o testemunho de um povo simples que tanto tem a nos ensinar”, relatou, emocionada Irmã Beatriz Aparecida.
A missão não é feita de super-heróis, mas de gente de carne e osso. Teve jovem que confessou o “frio na barriga”, “Foi minha primeira missão, estava muito nervoso, mas pedi força a Deus para tirar esse nervosismo e, graças a Ele, estou muito feliz. Estar na presença de Deus é o que nos conforta, e receber o olhar das pessoas da comunidades nos convidando para entrar, e é isso que Deus quer, que espalhemos sua Palavra. Essa Missão é um presente Dele que eu não esperava e que só me dá o desejo de voltar mais vezes “. Esse é o espírito, o medo que se transforma em coragem quando a porta de uma casa se abre, contou Victor Lopes Barros.
As 35 comunidades visitadas no Monte Alegre revelaram realidades que os itinerários comuns não mostram. Atravessar o Rio Juarez, conhecer a realidade da Dona Marlene ou caminhar pelo Setor 8, na Comunidade São João Batista, transformou a visão dos jovens. Como disse um dos missionários. “A gente vê a realidade das outras pessoas e entende que não pode passar indiferente do lado de casa”, disse o jovem missionário Girlan Mota de Sena.
O padre Juan Patrick, assessor do Setor Juventude de Santarém e “filho” desta terra e das Missões Angelinas, não escondia a satisfação. Para ele, ver a nona edição acontecer é a prova de que o projeto criou raízes. “As missões levam os nossos jovens a incentivar outras pessoas a se colocarem a serviço”, destacou.
Antes de ganharem as ruas, os jovens mergulharam nos “três grandes amores” de Francisco de Assis, a ‘Encarnação’, a ‘Eucaristia’ e a ‘Cruz’. Essa base espiritual foi o combustível para que as visitas não fossem apenas sociais, mas um verdadeiro anúncio de esperança.
A presença de Frei João Messias (OFM), Padre Leonardo (SVD) e das irmãs Silvânia, Beatriz, Rosa Maria, Chiara e Marlene deu o suporte necessário para que a juventude se sentisse segura para avançar. O encerramento, ao som do Ministério Missionários de Cristo, foi o transbordar de uma alegria que não cabe em palavras, mas que se via no brilho dos olhos de quem descobriu que, para encontrar a Cristo, às vezes é preciso pegar uma trilha de barro ou atravessar um rio.
Ao final desses dias intensos, o que fica não é apenas o cansaço físico, mas a certeza de que a Igreja na Amazônia pulsa com vigor. “Eles têm Cristo para nos dar”, resumiu um jovem sobre as famílias visitadas.
As Missões Angelinas de 2026 confirmaram o desejo do Papa Francisco. Uma juventude que não tem medo de se sujar, de se criar e de ir onde a dor e a solidão moram. Em Monte Alegre, o “Paz e Bem” deixou de ser saudação para virar vida compartilhada. E, como bem disseram os missionários no “aperreio” da chegada. “A expectativa sempre é grande, mas o que vivemos aqui supera qualquer receita. É extraordinário”.
Fonte: Regional Norte 2 / Por VívianMarler / Assessora Comunicação CNBB Regional Norte 2 / Com informações Irmã Marlene – Congregação Irmãs Angelinas
























