Dois papas no Jubileu

A herança do Ano Santo da Esperança

“É bom sermos peregrinos de esperança. E é bom continuar a sê-lo, juntos! A fidelidade de Deus continuará a nos surpreender. Se não reduzirmos as nossas igrejas a monumentos, se as nossas comunidades forem casas, se resistirmos unidos às seduções dos poderosos, então seremos a geração da aurora. Maria, Estrela da Manhã, caminhará sempre à nossa frente! No seu Filho, contemplaremos e serviremos uma magnífica humanidade, transformada não por delírios de onipotência, mas pelo Deus que, por amor, se fez carne.” Papa Leão XIV

No dia 6 de janeiro, festa dos Reis Magos, feriado na Itália, o Papa Leão XIV celebrou a missa de encerramento do Jubileu da Esperança, com o fechamento da Porta Santa da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Possivelmente uma cerimônia semelhante a essa somente voltará a acontecer em 2033, quando se dará o jubileu celebrativo da Morte-Ressurreição de Cristo.

Cerca de 33,47 milhões de peregrinos, provenientes de 185 países, participaram do Jubileu da Esperança, superando amplamente as projeções iniciais que trabalhavam com a possibilidade da “Cidade Eterna” receber cerca de 31 milhões de fiéis.

O Jubileu da Esperança teve início com o Papa Francisco em dezembro de 2024, mas comsua morte em abril de 2025, foi encerrado pelo Papa Leão XIV. Nele se viu um fato pouco comum na história da Igreja: pela primeira vez em 325 anos, se celebrou um Jubileu com dois papas mantendo, porém, o mesmo programa já preparado. O novo pontífice assumiu os atos previstos até a sua conclusão. A última vez que tal fato tinha acontecido foi em 1700, quando se celebrou um ano santo com dois papas.

Acontecimento marcante na história da Igreja

O primeiro jubileu oficial na Igreja Católica foi proclamado pelo Papa Bonifácio VIII, em 1300, sendo anunciado como um “Ano Santo”. O Papa prometeu indulgências plenárias a todos os fiéis que visitassem as basílicas de São Pedro e São Paulo, em Roma, e que cumprissem certos requisitos como a confissão sacramental e o arrependimento dos pecados.

O evento eclesial se revestiu de grande sucesso, atraindo multidões de peregrinos a Roma e estabelecendo a prática de celebrações jubilares na Igreja.

A tradição permaneceu, mas variou em sua periodicidade. Bonifácio VIII havia decidido que um jubileu deveria ser celebrado a cada 100 anos. No entanto, este intervalo foi progressivamente alterado ao longo dos séculos.

Os jubileus da Igreja Católica são momentos únicos de graça e de misericórdia. Celebrados hoje a cada 25 anos, ou em ocasiões extraordinárias, estes anos especiais convidam os fiéis a renovar sua fé, a reconciliar-se com Deus e a praticar obras de caridade.

Desde o início, em 1300, os jubileus têm sido uma parte central da tradição católica, ajudando a moldar a espiritualidade e a cultura dos fiéis ao longo dos séculos, mesmo sofrendo as dificuldades e os desafios próprios de cada circunstância.

Temos alguns exemplos de jubileus que enfrentaram conflitos e desafios em sua celebração:

Um jubileu sem papa

Em 1350, Clemente VI convocou o jubileu, todavia, por motivos políticos, o Papa não foi pode ir a Roma, pois nesse tempo o pontificado estava em Avignon, no sul da França, no período conhecido como Cisma da Igreja do Ocidente.

 

O Jubileu é também para os doentes e presos

Em 1625, a Europa atravessava um período de conflitos da Guerra dos Trinta Anos (1618-1649). Além do mais, havia uma epidemia de peste no sul da Itália. Por isso, o Papa estendeu os efeitos do jubileu para os doentes e presos que não pudessem ir a Roma.

O Jubileu mais breve da história

Convocado pelo Papa Pio V em 1755, esse foi o jubileu mais curto da história, com poucos atos celebrativos.

Jubileu não pode ser celebrado pelas dificuldades

O Jubileu do início do século, em 1800, não foi celebrado por causa das perturbações que a Europa atravessava depois da Revolução Francesa. O Papa que deveria convocar o Jubileu, Pio VI, morreu no exílio em 1799, por causa da Revolução Francesa e invasão de Roma pelas forças de Napoleão Bonaparte. O conjunto de problemas não permitiu a Pio VII celebrar o Ano Santo, mas para assinalar o encerramento do ano jubilar de 1800, o Papa concedeu algumas indulgências especiais.

Dificuldades não permitem a celebração de dois jubileus

Também o Jubileu previsto para 1850 não foi proposto e nem celebrado. O Papa Pio IX esteve exilado por alguns anos devido à Revolução de 1848, voltando a Roma somente em abril de 1850, demasiado tarde para o proclamar e celebrar. Por causa da chamada “Questão Romana”, também o jubileu de 1875 não pode ser celebrado.

A partir do início do século XX, com a solução do relacionamento entre Igreja e Estado Italiano, entramos num clima de “normalidade” que permitiu o respeito à periodicidade dos jubileus. Com isso, seis jubileus ordinários e um extraordinário puderam ser celebrados pela Igreja, com grande benefício para o “Mundo Católico”.

Um jubileu e dois papas

Na longa relação de jubileus e de anos santos celebrados pela Igreja desde 1300, dois deles ganham um destaque especial por terem sido vivenciados por ao menos dois papas diferentes, sem contar o Jubileu da Esperança que há pouco foi encerrado.

Foram dois os papas deste Jubileu: Paulo III (1534-1549) e Júlio III (1550-1555). O primeiro convocou e preparou o jubileu até 1549, ano da sua morte, depois de ter encontrado Roma dilacerada pela invasão de 1527, dando início à reforma da Igreja Católica que veio após a Reforma Protestante com o Concílio de Trento.

O segundo celebrou o Ano Santo do Jubileu a partir de fevereiro de 1550, data da sua eleição. O Ano Santo prolongou-se até à Epifania de 1551, compensando assim o atraso inicial. Este Jubileu foi uma ocasião para a renovação da vida religiosa que encontrou expressão e fundamento no Concílio de Trento. O esforço realizado pelos romanos no acolhimento foi enorme, especialmente para com os mais pobres.

No início do novo século, chamado “das luzes”, fundado sobre o culto da razão, o Jubileu foi convocado e aberto pelo Papa Inocêncio XII (1691-1700) que, todavia, morreu antes do fim daquele ano. O Ano Santo foi, pela primeira vez, diretamente perturbado pela morte do Papa. Sucedeu-lhe no trono o Papa Clemente XI (1700-1721).

Muitos peregrinos chegaram a Roma para o Jubileu, entre eles a rainha polaca Maria Cristina, viúva de João III, Sobieski, que entrou na Basílica de São Pedro descalça e em trajes de penitente, visitou as igrejas romanas. Um viajante inglês escreveu a respeito da devoção dos peregrinos: “A multidão continua a passar de joelhos pela Porta Santa de São Pedro com tal afluência que ainda não consegui abrir caminho para entrar”.

Assim como aconteceu em 2025, a mudança de papa durante o jubileu não prejudicou o seu bom funcionamento e o afluxo de peregrinos.

Frutos do jubileu

“O Jubileu chega ao fim, mas a esperança que este Ano nos concedeu não termina: permaneceremos peregrinos de esperança! Ouvimos de São Paulo: ‘Sim, fomos salvos na esperança’ (Rm 8, 24). Sem esperança, morremos; com a esperança, vimos à luz.” Papa Leão na última audiência jubilar, em 20 de dezembro de 2025.

 

Desde o final de 2024, a Igreja viveu a dinâmica celebrativa e alegre do Ano Santo, Jubileu iniciado pelo Papa Francisco e concluído pelo Papa Leão XIV. A expectativa é com o que virá agora na caminhada da Igreja.

Na Itália e na Europa se viverá um jubileu especial pelos 800 anos da morte de São Francisco de Assis (1226-2026), mas em nível de Igreja católica, em 2026, deverá ocorrer a implementação das conclusões do Sínodo Extraordinário da Sinodalidade. O documento “Pistas para a fase de implementação do Sínodo”, aprovado pelo Papa Leão XIV e publicado pela Secretaria Geral do Sínodo em 7 de julho de 2025, confirmou o percurso proposto pelo Papa Francisco, um caminho desenhado a partir das igrejas locais rumo a uma Assembleia Eclesial a ser realizada em outubro de 2028, em Roma.

Para o primeiro semestre de 2027, estão previstas assembleias de avaliação nas dioceses e, no segundo semestre do mesmo ano, serão promovidas assembleias de avaliação nas conferências episcopais nacionais e internacionais, nas estruturas hierárquicas orientais e em outros agrupamentos de Igrejas. Finalmente, para o primeiro quadrimestre de 2028, estão previstas assembleias continentais de avaliação e, em outubro de 2028, terá lugar a celebração de uma grande Assembleia Eclesial no Vaticano.

Depois do Jubileu, o tempo é de implementação concreta, na vida da Igreja, das conclusões do Documento Final do Sínodo publicado em outubro de 2024. A Igreja somará forças e energias, caminhando com o Papa Leão XIV rumo à Assembleia Eclesial de 2028.

Fonte: Portal A12 / Por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R. 
Fotos: Vaticam Media | Afresco de GiottodiBondone representando o Papa Bonifácio VIII na Basílica de São João de Latrão, no Jubileu de 1300.

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